Qua 6 Mai 2009
Prosa & Verso 088 - A MINA DE PAIM: CARPE DIEM, APROVEITE O DIA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Antônio Paim estava chegando aos dezoito anos, mas era homem feito. Embora não tivesse crescido muito, era um cara forte e atarracado e, principalmente, malicioso, agressivo e malvado. Todos os adolescentes entre onze e dezessete anos, estudantes daquele colégio interno, tinham medo de Paim, o sujeito três emes, maldoso, malvado e maldito para todos nós. Eu tinha completado doze anos.
No terreno da escola havia uns coqueiros e a turma logo aprendeu a colher os cocos e a esconder no meio do mato, em tocas bem camufladas, cobertas com palhas e galhos, pra merendar quando tivesse uma chance. Isto porque a disciplina era rigorosa e nem sempre era possível sair da área para desfrutar dos cocos e de outras frutas que a gente conseguia colher às escondidas. Então, quando alguém conseguia colher as frutas antes que estivessem maduras, bem como os cocos verdes mas bem aguados, escondia para saborear depois. Esses esconderijos a gente costumava chamar de minas.
Uma tarde, eu estava fazendo uma incursão pelas redondezas e dei de cara com u’a mina recheada de cocos verdes. Uns quinze cocos. Eu era, e sou ainda, louco por água de coco. Tinha achado u’a mina e naturalmente considerando que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, troquei os cocos de lugar, fiz um outro esconderijo e voltei feliz para o recinto do recreio. O plano era para quando tivesse uma oportunidade voltar e saborear a água e a massa daqueles cocos. Poderia desfrutar daquele prazer por umas duas ou três semanas.
Aí aconteceu o que eu não esperava: surgiu um zum zum zum entre os meus colegas de que Paim, aquele que era um dos mais velhos da turma, aquele que era mais forte e malvado, aquele que nos amedrontava a todos, Paim estava por conta porque alguém tinha encontrado sua mina e ele estava doido para descobrir quem foi para dar o troco. Vocês podem imaginar como eu fiquei amedrontado. Que fiz eu? Nada. Nunca mais voltei pra beber a água dos cocos e os cocos ficaram todos lá escondidos, acredito que até apodrecerem. Não se falou mais no assunto, mas a lição eu aprendi, uma lição que trouxe comigo por toda a minha vida, de que é verdade que não é boa prática deixar pra fazer amanhã o que se pode fazer hoje. Além disso, aprendi também que cada dia deve ser vivido como se fosse o último. Adiar pode resultar em ficar tarde demais. Os ditados antigos trazem sua sabedoria, mas às vezes a gente tem de passar pelos apertos da vida, para aprender de verdade.
Lembrei deste fato porque uma ouvinte que tem uma filha adolescente me sugeriu que eu dissesse alguma coisa sobre essa fase tão incompreendida e contraditória pela qual todos nós passamos, mas que ao chegarmos à condição de pais é como se nos esquecêssemos de tudo o que aprontamos quando também éramos adolescentes. Vou tentar responder à sugestão da ouvinte numa outra ocasião, logo que for possível. Hoje, estou pensando mais nos adultos e em como, uma vez adultos, passamos a falar do passado como os bons tempos, entre aspas… É como vocês já ouviram, parece que a experiência é um farol que ilumina para atrás. Não sei se é verdade, mas entendo que também não sei se é mentira. Trouxe algumas canções que se referem a isto. Aliás, As lembranças que temos do passado costumam nos trair muito. Nossa memória naturalmente filtra muitas informações que aí ficaram armazenadas e que só conseguem sair do baú truncadas, disfarçadas. Por isso, as lembranças nem sempre são tão confiáveis.
Esses truncamentos de memória, que são tão comuns e naturais, é que nos fazem dar aos jovens conselhos do tipo que vocês ouviram agora nos versos de Lupicínio Rodrigues. Nós, os mais velhos, cometemos um grave erro de achar que os mais jovens são todos uns cabeças-ôcas. Esquecemos que para aprender alguma coisa, um dos caminhos, embora arriscado, é experimentar. Experimentar é como ´lantar: a semente pode morrer, sim, mas é o caminho possível para germinar, brotar, crescer e dar novos frutos.
As lembranças dos tempos da infância geralmente são doces mas imprimem uma saudade de tonalidade nostálgica que chega a nos maltratar. A propósito, como muitas palavras da nossa língua, a palavra nostalgia vem do idioma grego. E nostalgia significa literalmente dor pelo que nos está ausente, pelo que está longe de nós, pelo que nos faz falta. Há também as lembranças carregadas de pura nostalgia, que se exprime em verdadeiro lamento, como você pode ouvir na próxima música.
Aproveite cada dia porque tudo, alegria ou tristeza, tudo vai passar. Não deixe de fazer nada de que goste, alegando falta de tempo. O único tempo que vai faltar é o que está passando e que, inexoravelmente jamais vai voltar. Só a memória permanece. E junto à memória, às vezes a gratidão por já ter passado algo que nos fez sofrer ou a saudade porque já se foi algo que nos fez sorrir. A felicidade pode estar nos pequeninos momentos, que são como os tijolos desta construção incerta, fortuita e misteriosa que é o viver.
Data do artigo: Quarta-feira, 6 dAmerica/New_York Mai dAmerica/New_York 2009 às 6:13 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.