Escute o Prosa & Verso 089

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Músicas tocadas neste programa:
raul seixas – mosca na sopa
raul seixas – let me sing, let me sing
raul seixas – gita, ouro de tolo e eu nasci há dez mil anos
raul seixas – carimbador maluco
raul seixas – metamorfose ambulante
altamiro carrilho – pinguinho de gente

Não se assustem! Hoje o Prosa&Verso vai tocar rock brasileiro e prosar um pouco sobre um dos seus expoentes.
Raul Seixas nasceu em Salvador, em 28 de junho de 1945. Filho da mesma região e geração que Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa entre tantos outros que definiram o movimento chamado Tropicália. Raul teve ao contrário destes em sua infância maior contato e assimilação do rock and roll em virtude de ser vizinho e amigo de filhos de famílias americanas que trabalhavam para o consulado americano na Bahia. Fã ardoroso de Elvis Presley, fundou aos 14 anos um fã-clube brasileiro do cantor, chamado Elvis Rock Club. Mais cedo, aos 12 anos de idade, foi fundador e integrante do conjunto The Panthers, que mais tarde se tornou Os Panteras, primeiro grupo de rock de Salvador a usar instrumentos elétricos, passando a tocar em cidades do interior baiano.

Quem pensa que Raul Seixas renegou a cultura brasileira para adotar o rock and roll, está enganado. Ele odiava a bossa nova, mas acrescentou ao seu rock elementos de música nordestina como o baião, o xaxado, a umbanda e mesmo música brega. Aluno relapso no curso médio, embora muito inteligente, lia muito. Chegou a estudar Direito, mas acabou abandonando o curso, para seguir sua vocação de músico. Foi assim que, conhecendo Jerry Adriani, teve sua primeira chance e se mudou para o Rio de Janeiro, como costumavam e talvez ainda costumem fazer os artistas baianos que se sobressaem. Jerry Adriani ajudou muito ao conjunto Raulzito e os Panteras, não só no Rio, mas também em turnês pelo Brasil.
Em 1972 alcançou a tão desejada repercussão nacional classificando duas músicas no Festival Internacional da Canção, evento de grande repercussão montado anualmente pela Rede Globo, e que na verdade era um concurso de músicas. Raul participou com Let me sing let me sing que vocês vão ouvir agora. Esta música foi uma das finalistas do concurso.

Em 1973 lançou um LP apresentando as primeiras parcerias de Raul com o companheiro de estudos esotéricos Paulo Coelho, que posteriormente se tornou um escritor, hoje conhecido internacionalmente. Naquela época, começaram a formar em parceria o grupo Sociedade Alternativa, anarquista e também destinado a estudos esotéricos. Chegariam a pensar em construir em Minas Gerais a comunidade alternativa Cidade das Estrelas. O movimento foi porém considerado subversivo pelo governo militar. Raul Seixas, que aparentemente passou por sessões de tortura, Paulo Coelho e as respectivas esposas foram exilados nos Estados Unidos.
Em 73, seu talvez maior sucesso até então, Ouro de tolo, constava de um LP que lançou, onde estava também Al Capone, a sua última composição em parceria com Paulo Coelho. No mesmo LP, ainda se encontravam Metamorfose ambulante, que você vai ouvir no final do programa e Mosca na sopa, que você escutou logo no início.

No início da década de 80 Raul Seixas começou a apresentar problemas de saúde em virtude de consumo exagerado de álcool. Não parou porém de lançar discos e projetos. Passou a sofrer de hepatite crônica em virtude da bebida e passou um tempo afastado de contratos e shows.
Já havia uma queda de vendagens nos últimos discos e um longo boicote de gravadoras, mas tinha estourado novamente em 1978 com a música Carimbador Maluco do LP que levou seu nome e que você vai ouvir agora.

Em 1988 Raul passou a compor, gravar e excursionar com o também baiano Marcelo Nova, vocalista da banda Camisa de Vênus, então em fase de extinção. Raul dos Santos Seixas, cantor, compositor, produtor e instrumentista ainda produziu sua arte durante dez anos, já foi considerado o melhor roqueiro do Brasil, até que em 21 de Agosto de 1989, apenas dois dias após o lançamento de A Panela do Diabo, veio a falecer de um ataque cardíaco em virtude de problemas causados pela bebida e, dizem, uso de outras drogas. Curiosamente após a sua morte tem o seu talento mais reconhecido do que nunca, arregimentando a cada dia mais seguidores, sendo lançados postumamente registros inéditos e coletâneas, todos sucessos de vendas.
Em sua carreira foi pioneiro na mistura de todo tipo de influência musical ao rock and roll, passeando e acrescentado com desenvoltura e sem preconceitos ritmos nordestinos, música brega e umbanda. Em suas letras abordava com igual desenvoltura temas tão díspares quanto sentimentos humanos, críticas ao sistema, esoterismo e agnosticismo. A sua mensagem muitas vezes está implícita em letras que podem ser taxadas de bobas por alguns e em outros momentos é pura poesia.