Qua 20 Mai 2009
Prosa & Verso 090 – QUANDO O TRABALHO É HONRA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Para construir o teor deste programa de hoje, estou partindo de três pressupostos bíblicos: O primeiro se encontra no Gênesis, quando sabiamente, há alguns milhares de anos, o autor desse livro deixou clara sua percepção de como viveriam ou deveriam viver os homens sobre a terra. Diz ali que Deus, criador do mundo, sentenciou: Vão ter que se alimentar dos frutos do seu trabalho. Nas palavras literais da tradução vulgata, “comerás o pão com o suor do teu rosto”. Assim a humanidade foi, digamos, condenada à sina da labuta, do trabalho para sobreviver. As crianças, os idosos e os inválidos evidentemente não podem trabalhar para manter-se. Estas categorias de pessoas precisam de outras pessoas que sejam capazes, para que trabalhem por elas, a fim de lhes fornecerem tudo o que for indispensável à manutenção de suas vidas. O segundo pressuposto bíblico está nos evangelhos, numa assertiva de Jesus de Nazaré, quando diz que “o trabalhador é digno do produto do seu trabalho”. Finalmente, o terceiro pressuposto está no livro do Eclesiastes, que diz bem assim: “a felicidade do homem consiste em sobreviver às custas do trabalho e da labuta que ele mesmo realiza, em seus dias de fadiga”.
Muitos de nós crescemos ouvindo que “trabalho é honra”. Como todas as chamadas frases de efeito [aquelas frases que nos dizem uma verdade, mas não são necessariamente de todo verdadeiras] esta também, trabalho é honra, tem sido usada no decorrer dos tempos como uma forma de nos impingir a idéia de que todo e qualquer trabalho dignifica o homem. De tanto trabalharmos dia após dia sem a necessária reflexão, acabamos nos acostumando a trabalhar muito mais para beneficiar outros do que a nós mesmos e àqueles que dependem de nosso esforço. Em poucas palavras, o trabalhador passa a vida dando duro, mas o fruto de sua labuta não lhe pertence. Acaba pertencendo a outros que, pagando uma pequena fração do lucro que têm, vão cada vez mais acumulando seu capital, enquanto que os operários não conseguem sair do seu atoleiro.
Trabalho é honra, o trabalho dignifica o homem, mas isto quando o produto do seu trabalho lhe pertence. E quando falo no produto do trabalho, não quero dizer somente o produto que pode ser olhado, tocado, pegado. Não digo somente o produto material, concreto, visível. Falo também do produto que não se pega, que não se vê, como por exemplo um serviço prestado, um conhecimento aplicado, um esforço feito, que não é propriamente u’a mercadoria. Por exemplo, o trabalho do professor, o trabalho do funcionário público, o trabalho do médico, o trabalho do vigilante, o trabalho do policial e tantos outros que são trabalhos que consistem em passar informações, em passar conhecimentos, em promover o bem-estar, em cuidar da segurança e assim por diante. É perfeitamente compreensível que os trabalhadores possam receber por seu trabalho pagamentos diferentes, pela complexidade dos trabalhos realizados, pelo tempo, pelo esforço, pelo que cada um precisou empenhar e gastar para aprender aquele ofício, adquirir aquele conhecimento que lhe possibilita exercer sua profissão. Eu digo que todo trabalho é sagrado e digno, como sagrado e digno é que o trabalhador fique com seus frutos.
Na semana passada estive dois dias na oficina de João, irmão de Humberto da ETEC. Pois bem, João, que trabalhava em parceria com o irmão lá na ETEC, resolveu montar seu próprio negócio e abriu uma oficina ali numa transversal da Joel Modesto, bem vizinha a Romilson Materiais de Construção. Chama-se AVTECH. Durante o tempo em que estive lá, fiquei observando o trabalho de João e me admirei de como ele, com a mão e o braço esquerdos hipotrofiados, tem uma habilidade invejável para o ofício que faz. Além da eletrônica propriamente dita, ele tem um talento para os consertos mecânicos e recupera com facilidade os aparelhos que lhe chegam às mãos. E faz os reparos com gosto e com muito cuidado. Às vezes parecem simples, pela presteza com que executa os consertos. Simples de tal maneira que alguém, olhando de parte, pode pensar: mas foi só isto? E achar que aquele serviço pode não valer o pagamento cobrado. Grande engano. Aquela habilidade de João custou a ele muito esforço e tempo de treinamento. E o conhecimento que ele tem da sua profissão custou mais tempo e esforço ainda. Suponho que no que ele recebe em pagamento pelos serviços que executa devem estar embutidos o tempo e o esforço gastos em sua qualificação profissional.
Falando em João, que era da ETEC e agora é da AVTECH, eu me lembrei de uma estorinha que me contaram faz muitos anos e que me tem servido para aprender a respeitar e considerar o trabalho alheio. O caso é este: Um navio cargueiro ultra-moderno, atracado no porto de uma cidadezinha perdida aí pelos mares deste mundo, apresentou um defeito e parou de funcionar. Não houve jeito, os técnicos de bordo não conseguiam consertar. Algum habitante local disse, a um dos marinheiros, que ali morava um velho, uma espécie de faz-tudo, que consertava coisas e era até inventor. Certamente u’a mistura de João da AVITECH e Lozinho pai de Lusevan, que, dizem, também conserta tudo. O velho se chamava Argemiro Leal. O marinheiro correu e informou ao comandante do navio, que mandou buscar o velho Argemiro, porque já estava desesperado naquele fim de mundo, com o navio parado e um prejuízo de doze mil dólares por dia. Argemiro Leal, com seu bonezinho na cabeça, seus óculos na cara e sua flanela vermelha pendurada no bolso da calça, foi examinar a casa das máquinas. Atrás dele vinha o comandante, acompanhado de seus ordenanças. Argemiro andava no meio do maquinário e de vez em quando parava, escutava atentamente e examinava cada cano, cada manivela, cada componente. Depois de algum tempo, com um martelinho que trazia na mão bateu levemente em uma das peças. E disse ao comandante: o defeito é aqui. Pode mandar abrir que o conserto é fácil, qualquer um dos seus técnicos pode fazer. Assim foi feito e o maquinário começou a funcionar. Feliz da vida, o comandante foi perguntar ao velho quanto lhe devia e o velho respondeu: mil dólares. O capitão ficou indignado. Mas, mil dólares para dar umas pancadinhas com um martelo? E o velho sorriu e respondeu. Não senhor. P’ra vir até aqui e dar as pancadinhas é apenas um dólar. Os outros 999 dólares são pelo meu conhecimento, por saber exatamente onde dar as pancadinhas. São pelo meu esforço e pelo tempo que gastei queimando as pestanas e experimentando, errando e pensando, pra poder aprender.
Na pesquisa musical contei com a ajuda da Muchacha, minha companheira Luísa que, com toda a boa vontade, deixou seus afazeres para pesquisar.
Data do artigo: Quarta-feira, 20 dAmerica/New_York Mai dAmerica/New_York 2009 às 4:19 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.