Qua 27 Mai 2009
Prosa & Verso 091 – ADOLESCENTES
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Eles costumam andar em bandos, falam alto e se atropelam quando estão falando. Em casa, no quarto ou na sala, estão sempre esparramados nos sofás, nas poltronas, nas almofadas. Com seus tênis sujos de terra, entram e saem sem a menor cerimônia. Se estão estudando, ligam o rádio ou a TV a todo volume. Estou falando de adolescentes, esta espécime tão desalinhada, esquisita e tão estranha que nos faz pensar que nunca passamos por aquela faixa de idade, que nunca fomos como eles. E porque nossa memória é fraca, somos tão intolerantes com os primeiros filhos que chegam à adolescência. A partir daí, ou amadurecemos nós ou nos tornamos calejados e passamos a conviver melhor com os outros filhos que vêm depois. Nosso ideal de perfeição, aquele ideal que costumamos alimentar, desejando que cada filho nosso seja perfeito, seja um modelo para os outros jovens, esse ideal de perfeição é um dos fatores que mais nos provocam ansiedade, desgosto e medo. É um dos fatores que nos fazem perguntar com tanta freqüência: onde foi que errei? E mais raramente: onde foi que erramos? Digo que é freqüente se perguntar: onde foi que errei, e raro se perguntar: onde foi que erramos, porque, se na vida em geral acontece a tendência de acusarmos outra pessoa da culpa pelos erros que cometemos, é mais comum ainda entre os casais um acusar o outro pelos erros na educação dos filhos. Em geral temos uma visão curta, embotada pela afetividade, quando avaliamos nossos próprios filhos.
A evolução da infância para a idade adulta tem que inevitavelmente passar pela transição da adolescência. O adolescente ensaia ser adulto, sem poder ainda deixar de ser criança. E se comporta como criança, sem se dar conta de que está na hora de agir como adulto. Isto é natural e, principalmente, é transitório. A adolescência, felizmente, é passageira e o normal é durar poucos anos. Os adultos fazem questão de esquecer, por pura conveniência, tudo o que aprontaram quando eram adolescentes. Digo que é por pura conveniência porque é um saco suportar as, digamos assim, maluquices dos adolescentes e, se nos lembrarmos de nosso tempo, temos a obrigação de ser mais tolerantes para com os mais novos. Um dos meus filhos, este já adulto e pai de duas filhas, vendo minha preocupação com seu irmão adolescente, me disse assim: pai, lembre de que isto passa, isto vai passar, isto não é definitivo, não é pra toda a vida… E eu, como suponho que até morrer temos que aproveitar as chances de aprender sempre, aceitei de bom grado a advertência dele. É isto que agora tento transmitir para vocês que estão aí do outro lado. Mas, tem uma coisa: o adolescente está numa idade de grandes e novas descobertas, porque seu horizonte cresce todos os dias, assustadoramente. Então, é natural e até saudável que ele arrisque, experimente, tente encontrar seus próprios caminhos. Mesmo correndo o risco de quebrar a cara. Cabe aos pais, aos professores, aos adultos enfim que estejam mais amadurecidos, orientar os mais jovens e dar-lhes com clareza, firmeza e sinceridade a noção dos seus limites. É nesta fase que se rega e aduba a sementinha da ética, plantada alguns anos antes, na infância dos 7 aos 12 anos.
Crianças e adolescentes filhos de trabalhadores costumam começar a trabalhar cedo e são forçados a amadurecer mais rapidamente, às vezes cedo demais, quando deveriam estar brincando e fazendo desabrochar sua curiosidade pelo conhecimento e sua satisfação pelas descobertas. Uma coisa é que crianças e adolescentes devam assumir seus compromissos, ajudar em tarefas da casa, cuidar de seus estudos, cuidar de suas roupas, de seus brinquedos, de seu material escolar, mas outra coisa bem diferente é ter de trabalhar de ganho, como se criança fosse u’a miniatura de adulto. O adolescente já tem algumas características físicas e psíquicas de adulto, mas criança, não.
Como diz a vinheta que vocês estão carecas de ouvir aqui na rádio, lugar de criança é na escola. Lugar de criança é na escola, ocupando seu tempo e sobretudo sua cabeça, seu cérebro, satisfazendo sua curiosidade de aprender. A escola, como também os exemplos dos pais, deve cumprir este objetivo de motivar a curiosidade de aprender e responder a ela, fazendo do aprendizado uma atividade interessante, criativa, prazerosa e alegre. Se for assim pode-se dizer, sem receios, que a escola educa. Trabalhar é para os adultos e não para as crianças e adolescentes, embora uns adolescentes se apressem em dar passos que ainda não estão na hora. É como colher uma fruta ainda verde ou, no máximo, ainda de vez.
Quando a criança e o adolescentes tomam a rua, acabam em caminhos e descaminhos que podem resultar em tragédias e lamentações. O pensador, educador, psicanalista e escritor Rubem Alves dá um conselho aos pais de adolescentes. Ele diz mais ou menos assim: Adolescência não é problema, pois um problema tem solução. A adolescência não tem solução. Tem que cumprir sua fase no desenvolvimento e o que os pais podem fazer é, quando o filho adolescente se quebrar a cara, estar por perto para juntar os cacos. Parece cruel o que ele diz, mas é certamente muito realista e sincero.
Data do artigo: Quarta-feira, 27 dAmerica/New_York Mai dAmerica/New_York 2009 às 4:50 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
1 comentário para o artigo “Prosa & Verso 091 – ADOLESCENTES”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Julho 3rd, 2009 at 5:27 pm
jorge;
Sempre gostei muito de lhe escutar, me fez falta esses anos distantes, entretanto, não impediram que meu gosto pelo cinema e pelo dialogo fosse uma resultante do bom tempo que passei como seu sobrinho.
Acho que nunca tive a oportunidade de deixar isso claro, portanto vou me valer desses espaço para que esteja dito.
Forte abraço
David Moura