Qua 3 Jun 2009
Prosa & Verso 092 – VIVER É ESCOLHER
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Um ancião muito sincero e sábio foi procurado por uma jovem senhora para ouvir seus conselhos porque estava casada fazia sete anos e sua vida tinha virado um inferno, já no segundo ano do casamento. O marido, um empedernido machista, bebia abusivamente, andava com outras mulheres de forma indiscriminada e acintosa e, nos últimos meses, passou a ameaçá-la e em seguida a agredi-la moral e fisicamente. A situação conjugal tornara-se insuportável. O velho sábio fitou aquela jovem senhora e, com seus olhos mansos, ciente de que cada pessoa é dona de sua própria vida e que a essência do viver é fazer suas próprias escolhas, compadecido, mas firme e respeitoso, mandou que ela se encostasse na parede, da cabeça aos calcanhares e ali permanecesse de pé, na mesma posição. Mesmo sem entender aquele ritual, ela fez o que ele mandou, permanecendo imóvel até que o sábio observando sua descomodidade lhe perguntou: A senhora está confortável aí? Ela naturalmente respondeu que não. Então lhe disse o velho: Por que você continua nesse lugar, se está desconfortável? Pois, então, saia daí!
Mas a tomada de uma atitude, a escolha de um caminho implica riscos. Realmente aquela forma figurada como o sábio ancião apontou uma possibilidade para a jovem senhora é uma saída, mas não a única. E, mesmo sendo considerada a melhor saída, temos que convir que a situação de vida imprópria e desconfortável não é a mesma coisa de estar encostado a uma parede, donde se pode sair quando bem se deseja. Não é assim, na vida, porque a vida é uma condição dinâmica e muito mais complexa. Em primeiro lugar, a vida não para, o mundo não para, a vida não para como uma parede. De fato a vida se assemelha mais a um trem em movimento, em alta velocidade. Estar desconfortável em um trem correndo não possibilita, mesmo que se queira, saltar fora dele, sob a pena de cair e correr o risco de esborrachar-se no chão. O que estou querendo dizer é que qualquer tomada de atitude, qualquer escolha na vida estará sempre sujeita a nos fazer perder alguma coisa mesmo que seja para ganhar outra, que pode ser melhor ou pior.
Se você escutou com atenção a poesia de Paulo Diniz, terá entendido que ela fala justamente da incerteza dos caminhos da vida. Em outras palavras, uma crise, situação que nos perturba, que nos é desconfortável, é sempre uma oportunidade de refletir e tomar providências, sejam elas quais forem. Como já tenho dito várias vezes aqui, toda crise, se for encarada e não ignorada, acabará levando a u’a mudança de posição perante aquilo que está no âmago da crise. Mas a crise, em si, pode também levar ao sofrimento crônico e até à morte. Mais uma vez eu repito, as crises são como a semente que plantamos: nada nos garante que ela vai germinar, brotar, florescer e dar frutos. Todavia, nós sabemos que a semente que não for plantada acabará morrendo. Assim são as crises: têm que ser plantadas, adubadas e cuidadas, como as sementes.
Vamos ver: se aquela jovem senhora da estorinha que contei puder imaginar que está num trem em movimento de alta velocidade, mas ela está muito desconfortável, está vivendo uma crise e sente que não pode continuar aí no mesmo lugar, supondo que ela terá de saltar do trem para superar e sair do desconforto, você acha que ela deve e pode impulsivamente saltar do trem?… Certamente terá um grande risco de se arrebentar toda na queda, não é mesmo? Que pode ela fazer, então?… Não poderá ela aguardar que alguma subida ou que alguma curva na estrada faça o trem reduzir a velocidade e que, nesse exato momento, ela possa saltar do trem com muito menor risco de se despedaçar no chão? É como posso dizer, também de uma forma figurada, que a solução de uma crise tem que ser oportuna, sensata, serena e firme. Mesmo que cheia de dúvidas. Isto, para mim, é o que entendo que os místicos querem dizer quando falam em se colocar nas mãos de Deus. Não se pode colocar nas mãos de Deus sem correr riscos. O preço da fé não é a certeza. É a dúvida.
Data do artigo: Quarta-feira, 3 dAmerica/New_York Jun dAmerica/New_York 2009 às 4:43 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.