Julho 2009


Escute o Prosa & Verso 099

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Músicas tocadas neste programa:
chico buarque e milton nascimento - cálice
ataulfo alves – caco velho
trovadores urbanos - modinha
edu e tom jobim - luíza
beth carvalho e mariene de castro - raiz
grupo vou vivendo - benzinho

Ele estava naquele recanto à noite, triste e desolado porque tudo indicava que logo ele seria preso e assassinado. Dizem os que escreveram sobre sua vida que ele se sentiu só e abandonado, quando se apegou ao que ele chamava de abba, que quer dizer papai, na língua aramaica. E contam que, amedrontado, teria implorado a Deus: Pai, afasta de mim este cálice! Pouco depois foi preso, torturado, condenado e morto. O medo da morte habita todos os corações, mas algumas pessoas, como ele, se estremecem mesmo não é diante da morte, mas diante dos sofrimentos que costumam chegar antes dela. A julgar por tudo o que se relatou sobre ele, suponho que sua hesitação não se deu por medo de morrer, mas diante do que imaginou que viria a suportar enquanto ainda estivesse vivo.
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Escute o Prosa & Verso 098

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Músicas tocadas neste programa:
nelson ned –tudo passará
quatro ases e um coringa – boneca de pano
nara e bethânia - formosa
miltinho – o rio e eu
noedson – passageiro
joão bosco e conjunto época de ouro – títulos de nobreza

É um velho costume comparar-se a vida a uma viagem. Está nos romances, nas músicas, nos filmes, nas novelas e principalmente nas prosas do dia a dia. Mesmo sem nunca sair da terra em que nascemos, costumamos pensar na vida como uma viagem. Uma viagem de venturas e/ou desventuras, mas basicamente uma viagem de aventuras. O mundo concreto, aquele que está totalmente fora de nós, mesmo que não o aprovemos nem mesmo ainda que não o aceitemos, não pode estar desligado da gente. O total desligamento do mundo é um sintoma de loucura. É o que se chama de alienação. Só mesmo a morte nos desliga de fato e mesmo assim permanecemos por tempo variável atrelados à memória dos outros e é isto que se pode supor inteligentemente que seja a tão almejada imortalidade. A imortalidade é um sonho tão antigo quanto o próprio homem, desde que começou a pensar, a ter idéia do tempo e de seu êxito final, que é a morte.
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Escute o Prosa & Verso 097

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Músicas tocadas neste programa:
elvis presley – blue hawai
frank sinatra – as time goes by
marilyn monroe - kiss
michael bolton – fly me to the moon
andy williams – days of wine and roses
willie nelson – stardust
rildo hora e paulinho da viola – sarau para radamés

Nos anos 40 do século passado, durante a segunda guerra mundial, quando a Europa estava estrebuchando debaixo do bombardeio alemão, a França estava parcialmente dominada pelos nazistas e a Inglaterra pedia arreglo enquanto a União Soviética resistia heroicamente, tendo como maior aliado o que ficou conhecido como seu general inverno. Os Estados Unidos, poupados das operações da tamanha guerra que vinha massacrando a Europa, lá do outro lado do oceano Atlântico, tratou de se arregimentar e de incrementar a indústria bélica. Como quem entra em um jogo da copa do mundo no final do segundo tempo, os americanos, descansados e devidamente preparados, caíram em cima da carniça e saíram finalmente de heróis. Isto foi cantado em prosa e verso e também em imagens pelo cinema de Hollywood. A propaganda perdurou por muitos anos além do dia D, que definiu o final da guerra. Seu hipotético heroísmo se consolidou com os chamados planos de ajuda, que foi uma injeção de capital praticamente por todo o resto do mundo. Junto com o capital, foi de carona a influência cultural, a influência dos costumes, de modo que praticamente começou uma nova era no planeta, a era da globalização, que os satélites e a filha internet vieram alimentar e cevar. A nata da sedução americana se manifestava e de certo modo ainda se manifesta na propaganda cinematográfica. E a música, em sua fase de ouro, forneceu alguns exemplares que nos deliciam até hoje.

O romantismo tomou conta do mundo. E a música americana contribuiu muito. Mesmo não entendendo as letras, sentimos a emoção, a saudade, o romance tomar conta de nós, quando escutamos este tipo de canção. O mundo da imaginação, da ilusão, em si não é mau. E é agradável. Por isto a maioria absoluta das pessoas prefere viver nesse mundo enganoso e aí está o problema. Degustar uma comida saborosa é muito prazeroso. Mas achar que só o prazeroso, o que dá bem-estar, é bom e que algo é mau por ser desagradável é um engano perigoso. Caras e corpos bonitos, por exemplo, podem ou não encerrar pessoas boas e decentes. Mas, quem não gosta de fantasiar que sua pessoa amada é a melhor e mais linda do mundo?

Escute o Prosa & Verso 096

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Músicas tocadas neste programa:
nara leão - little boxes [as caixinhas]
zé ramalho – admirável gado novo
jorge veiga – café soçaite
noel rosa – com que roupa
pedro amorim e paulo sérgio santos – andré de sapato novo

Estou trazendo hoje uns comentários de Martha Medeiros, publicados no Jornal Zero Hora, de Porto Alegre em 5 de agosto de 2007. Repasso estes comentários porque os acho atuais. Podiam ter sido feitos hoje. Ela diz:
Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal. Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito “normal” é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido.
Quem não se “normaliza” acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento. A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?
Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha “presença” através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for todos. Melhor se preocupar em ser você mesmo. A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar? Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias.
Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu “normal” e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original. Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Continua Martha Medeiros, a autora dos comentários: Eu não sou filiada, seguidora, fiel, ou discípula de nenhuma religião ou crença, mas simpatizo cada vez mais com quem nos ajuda a remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.
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Escute o Prosa & Verso 095

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Músicas tocadas neste programa:
francisco alves - é bom parar
seu jorge – eu bebo sim
nelson gonçalves – hoje quem paga sou eu
nelson gonçalves e alcione - louco
roberto silva – bebida, mulher e orgia
vicente celestino – porta aberta
você pensa que cachaça é água?

As palavras existem pela necessidade de se poupar trabalho na comunicação de uma pessoa com outra. Imagine como é difícil dizer, explicar, apenas com palavras, o que é uma coisa fofa. Experimente fazer isto, explicar a alguém o que é uma coisa fofa, usando somente palavras, sem fazer qualquer gesto. Pois bem, se as palavras servem para poupar trabalho, na hora de nos expressarmos, infelizmente, por outro lado, nós costumamos ser preguiçosos, não só quando fazemos as coisas, mas também quando falamos e mesmo quando pensamos. A grande maioria das pessoas tem preguiça de pensar. E se temos preguiça de pensar, temos preguiça de procurar conhecer, lembrar e empregar as palavras adequadas para comunicar nossas idéias. Por esta razão ou pelo menos esta é uma das razões pela qual se sabe que a linguagem é uma fonte de mal-entendidos.
Se uma pessoa precisa de alguma coisa, ela tem a obrigação de dizer o que precisa, de informar a quem puder ajudá-la. E não ficar achando que o outro tem que adivinhar. Ocorre que, pela preguiça de empregarmos as palavras certas, empregamos aquelas que conhecemos, a três por dois, muitas vezes com o sentido totalmente diferente. Assim é com a palavra depressão. Tem-se tornado comum dizer que uma pessoa está com depressão, quando ela manifesta qualquer sintoma de qualquer doença mental. Assim, quando uma pessoa tem alguma alteração mental, logo se passa a dizer que tem depressão. Nada mais errado… Depressão é um estado em que a pessoa entristece, fica triste, sem ânimo pra fazer nada, muitas vezes chorando ou se calando, lastimando da vida, internando-se em um quarto, sem querer sair nem para comer. Assim se manifesta, em linhas gerais, o transtorno chamado depressão.
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