Qua 1 Jul 2009
Prosa & Verso 095 – DEPRESSÃO E ALCOOLISMO
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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As palavras existem pela necessidade de se poupar trabalho na comunicação de uma pessoa com outra. Imagine como é difícil dizer, explicar, apenas com palavras, o que é uma coisa fofa. Experimente fazer isto, explicar a alguém o que é uma coisa fofa, usando somente palavras, sem fazer qualquer gesto. Pois bem, se as palavras servem para poupar trabalho, na hora de nos expressarmos, infelizmente, por outro lado, nós costumamos ser preguiçosos, não só quando fazemos as coisas, mas também quando falamos e mesmo quando pensamos. A grande maioria das pessoas tem preguiça de pensar. E se temos preguiça de pensar, temos preguiça de procurar conhecer, lembrar e empregar as palavras adequadas para comunicar nossas idéias. Por esta razão ou pelo menos esta é uma das razões pela qual se sabe que a linguagem é uma fonte de mal-entendidos.
Se uma pessoa precisa de alguma coisa, ela tem a obrigação de dizer o que precisa, de informar a quem puder ajudá-la. E não ficar achando que o outro tem que adivinhar. Ocorre que, pela preguiça de empregarmos as palavras certas, empregamos aquelas que conhecemos, a três por dois, muitas vezes com o sentido totalmente diferente. Assim é com a palavra depressão. Tem-se tornado comum dizer que uma pessoa está com depressão, quando ela manifesta qualquer sintoma de qualquer doença mental. Assim, quando uma pessoa tem alguma alteração mental, logo se passa a dizer que tem depressão. Nada mais errado… Depressão é um estado em que a pessoa entristece, fica triste, sem ânimo pra fazer nada, muitas vezes chorando ou se calando, lastimando da vida, internando-se em um quarto, sem querer sair nem para comer. Assim se manifesta, em linhas gerais, o transtorno chamado depressão.
O samba na voz de Francisco Alves se chama É bom parar e fez o maior sucesso no carnaval de 1936. Fala de um cara que bebe muito e se embriaga, porque está deprimido, pensando na mulher que o abandonou. Pois é, diz-se hoje que o alcoolismo é uma doença. Mas, mesmo sendo uma doença, é também um vício. Não devemos embarcar nesta estória de que o alcoólatra é um doente e ter pena dele. É um doente, que alimenta sua doença pelo vício, muitas vezes levado adiante com uma atitude folgada, gaiata e irresponsável, ainda por cima tentando induzir outras pessoas ao prejudicial costume do alcoolismo.
Os médicos psiquiatras reconhecem que por trás do alcoolismo existe muitas vezes uma doença que reforça o consumo exagerado das bebidas. Escondido na orgia costuma estar um deprimido. E entendam bem que orgia não é apenas de bebidas, mas também de qualquer outra coisa ou atividade que faça o sujeito se distrair, se esquecer do que tem de enfrentar na vida, como sua própria depressão. E de vez em quando ouvimos alguém se referir ao álcool como se fosse o próprio diabo. Ora, o álcool não é bom nem ruim. O bom ou ruim é o uso que se faz dele. E quem o usa como orgia está sempre fazendo um mau uso. Quem é viciado em bebidas alcoólicas, do mesmo modo como quem é viciado em qualquer outra droga ou em qualquer outra coisa na vida, tem uma boa parcela de responsabilidade pelo seu vício e, consequentemente, pela doença que ele acarreta. Quem bebe sem moderação faz papel de macaco, de cachorro e de porco, isto é, fica ridículo e metido a engraçado, na primeira fase da bebedeira, a fase de macaco. Na segunda fase, parece um cachorro doido, tentando morder todo mundo. Acha que é valente e brigão, ofendendo os outros, sem olhar a quem. Se continua a farra, descamba para a fase nojenta, insuportável, que é a fase do porco. Aí ele está embriagado, caindo às vezes na sarjeta e se lambuzando em seu próprio vômito. É a triste estória que se repete, se repete e se repete, de queda em queda, até a degradação total de si mesmo e a desintegração de sua família.
Por outro lado, o consumo indiscriminado de álcool leva por vezes a estados, podemos dizer, de loucura, porque se parece muito com a própria doença mental. O abuso de álcool, como de outras drogas, favorece o aparecimento de transtornos mentais em quem tem alguma fragilidade e propensão para isto. Pessoas na rua, desconhecidas, passam por loucos, quando nem são loucos, mas porque assim os faz parecerem o álcool que circula em seu sangue e agride seu cérebro.
As grandes libações, farras e bebedeiras, têm sua história na antiguidade, quando se prestava homenagem aos deuses Dionísio no mundo grego e Baco no mundo romano, como um ritual religioso, de onde vem o nome bacanal, até hoje conhecido como sinônimo de festa de relaxamento moral, sem limites para os excessos de luxúria e gula, bem regados por vinho. Ainda hoje muita gente, principalmente os jovens e os imaturos, se gabam de beber muito como se fosse grande coisa e o próprio cinema se encarrega de exibir seus heróis e heroínas sempre bebericando seu drink, fazendo parecer uma coisa chique.
Que se pode fazer com os alcoolistas? Aqui é que a porca torce o rabo, porque só se pode ajudar a quem pede e aceita a ajuda. E quem pede ajuda tem que ter a sinceridade necessária pra que o outro saiba que tipo de ajuda pode dar. É esta a maior limitação da medicina, a maior limitação que os psiquiatras experimentam no tratamento de alcoolistas: Não se pode ajudar a quem não quer ser ajudado. Está perto de fazer cem anos uma organização civil que mais vem tendo sucesso na reabilitação de alcoolistas. Trata-se dos Alcoólicos Anônimos, conhecida como AA. Esta organização surgiu há cerca de 80 anos, nos USA, como uma proposta leiga de superação do alcoolismo voltada para homens e mulheres cuja forma de beber tivesse se tornado, a seus próprios olhos, um problema. Nos seus oitenta anos de existência e de crescimento lento mas constante, ramificou-se para mais de 140 países e noventa mil grupos, congregando atualmente cerca de dois milhões de membros, segundo seus próprios números, sempre figurando entre as alternativas com índices significativos de sucesso na recuperação de alcoólicos, a longo prazo.
Nos grupos de AA do Brasil, é regra geral a convivência solidária entre ricos e pobres, jovens, adultos e anciãos, titulados em universidades e analfabetos, homens e mulheres de todas as profissões e preferências sexuais, gente de direita e de esquerda, ateus e crentes filiados às mais diversas religiões, além da presença de todas as raças existentes por aqui.
Em Morro do Chapéu, os AA se reúnem regularmente às sextas-feiras ali no salão paroquial que fica defronte à agência do Bradesco. As portas estão abertas a quem quiser ir lá. Não se paga nada nem se é obrigado a nada. Há 15 anos um psicólogo de nome William James estudou a vida de homens e mulheres que vieram a se tornar religiosos católicos e protestantes, muitos dos quais foram beberrões inveterados antes de experimentarem algum tipo de conversão.
Data do artigo: Quarta-feira, 1 dAmerica/New_York Jul dAmerica/New_York 2009 às 7:49 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.