Qua 8 Jul 2009
Prosa & Verso 096 – UMA DOENÇA CHAMADA NORMOSE
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 096
Músicas tocadas neste programa: |
Estou trazendo hoje uns comentários de Martha Medeiros, publicados no Jornal Zero Hora, de Porto Alegre em 5 de agosto de 2007. Repasso estes comentários porque os acho atuais. Podiam ter sido feitos hoje. Ela diz:
Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal. Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito “normal” é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido.
Quem não se “normaliza” acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento. A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?
Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha “presença” através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for todos. Melhor se preocupar em ser você mesmo. A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar? Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias.
Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu “normal” e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original. Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Continua Martha Medeiros, a autora dos comentários: Eu não sou filiada, seguidora, fiel, ou discípula de nenhuma religião ou crença, mas simpatizo cada vez mais com quem nos ajuda a remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.
O curioso é que estes chamados padrões de normalidade no fundo, no fundo são tentativas de controlar mais facilmente as pessoas. Se de um lado a disciplina militar, como também a eclesiástica, estabelecem padrões de comportamento, incluindo os trajes de uso pessoal para fins de impor obediência à hierárquia, de outro lado, na vida civil, é o próprio interesse comercial quem dita as normas das vestes, dos cortes de cabelo, enfim daquilo que deve ser consumido pelos cidadãos e cidadãs, simplesmente porque são modas. Já perceberam com clareza como se dá esta imposição tão autoritária e dissimulada? Pois, quando assistirem os filmes, as novelas, os programas de televisão e de rádio, passem a observar todas as insinuações aparentemente inocentes da publicidade, que de inocentes não têm nada, mas que são de fato verdadeiras prisões e camisas-de-força que obrigam ao consumismo, de forma aparentemente suave. Uma coisa é a empresa mercantil divulgar as mercadorias disponíveis para vender. Outra coisa, bem diferente, é fazer tal anúncio dando informações sobre as mercadorias, mas informações que nem sempre são verdadeiras. É a chamada propaganda enganosa e está prevista no Código de Defesa do Consumidor, que, aliás, é ignorado por grande parte da população e que, por este motivo, é tão frequentemente desrespeitado. Isto vale para mercadorias e também vale para serviços.
Como falou Martha Medeiros em seus comentários, cada um de nós é compelido a se comportar, não como deseja, mas como a moda e a mídia ditam. Abrir mão da sua própria consciência, do seu direito de escolher e orientar sua própria vida acaba sendo uma forma de escravização, seja aos preconceitos sociais, seja às determinações religiosas e seja até à imagem que queremos ter frente aos nossos vizinhos e conterrâneos. Em outras palavras, quantas vezes deixamos de ser autenticamente o que somos, para parecer o que não somos, com medo de desagradar os outros? Estas coisas geram aperreios que vão interferir com o funcionamento do nosso corpo e da nossa mente e nos fazer adoecer. É a normose, como chamou o prof. Hermógenes, fundador e principal mentor da hatha ioga no Brasil. É verdade que todos nós e cada um de nós tem o dever de sujeitar-se ao cumprimento das leis, porque as leis são o aperfeiçoamento da vida em sociedade. Sem leis, certamente estaríamos condenados a voltar ao selvagerismo, à lei do mais forte, do mais ousado, do mais perverso. A Constituição Brasileira diz claramente que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Mas não diz simplesmente que todos devem ser iguais no modo de agir, de trajar, de cuidar de seu corpo e de sua mente. Não sugere nenhum padrão de normalidade que inclua ser magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido, como bem lembra a autora dos comentários transmitidos há pouco. Agora, atenção! Nossas preferências individuais, nossos gostos não podem nem devem infringir a lei. Se alguma lei parece inadequada, o recurso civilizado é tentar mudá-la a serviço da cidadania, através dos representantes eleitos para o Legislativo. Digo isto, até com uma dose de otimismo, mas confesso que não raras vezes me sinto envergonhado pelos representantes que temos em nosso país. Não sei se é verdade, mas já ouvi muito que um povo costuma ter o governo que merece.
Creio que a sabedoria popular tem toda a razão quando nos ensina que cada cabeça é um mundo. Isto significa que cada olhar é diferente do outro. Fico imaginando como a Natureza provê a individualidade de cada um de nós, dando a cada um seu próprio código genético, dando a cada um sua própria arcada dentária, a cada um sua própria impressão digital, detalhes que servem muito bem para identificar o indivíduo como sujeito único entre os demais. Conviver com as diferenças e aprender a respeitar uns aos outros são requisitos primordiais para a vida em comunidade. Tendemos a encarar os doentes, principalmente os doentes mentais como seres diferentes. Eles têm suas particularidades, mas cada um de nós também as suas. Ninguém talvez tenha ainda observado, como observou o professor Hermógenes, é que a doença também está na normose.
Data do artigo: Quarta-feira, 8 dAmerica/New_York Jul dAmerica/New_York 2009 às 8:55 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
1 comentário para o artigo “Prosa & Verso 096 – UMA DOENÇA CHAMADA NORMOSE”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Agosto 21st, 2009 at 1:31 pm
Eis -me aqui de novo!
Gostei muito e voltarei…
Venho beber dessa fonte que dessedenta os que são sedentos do rico pensar e agir..
Venho beber desta fonte, do seu pensar filosófico, ás vezes mordaz, mas sempre muito bem fundamentado…,Da poesia, da boa prosa, do verso e da opinião mais que sincera, (pois só assim presto a atenção)…
essa fonte que anima, que informa e provoca as almas ressequidas, sedentas de uma leveza quase perdida…
Da verdade oferecida em doses tão singelas por vezes( acessível aos que, como eu, carentes da cultura acadêmica)!
Agradecer,, por que gosto da forma, da sua formadas suas fontes…
(conhecida, bem encarnada), andante e falante…
falando e trazendo música boa.
obrigada e que os bons espíritos te inspirem ainda mais e que te protejam. a você e á sua Luíza, musa e companheira aos seus filhos também
VIVA! VIVA!!