Escute o Prosa & Verso 096

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Músicas tocadas neste programa:
nara leão - little boxes [as caixinhas]
zé ramalho – admirável gado novo
jorge veiga – café soçaite
noel rosa – com que roupa
pedro amorim e paulo sérgio santos – andré de sapato novo

Estou trazendo hoje uns comentários de Martha Medeiros, publicados no Jornal Zero Hora, de Porto Alegre em 5 de agosto de 2007. Repasso estes comentários porque os acho atuais. Podiam ter sido feitos hoje. Ela diz:
Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal. Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito “normal” é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido.
Quem não se “normaliza” acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento. A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?
Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha “presença” através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for todos. Melhor se preocupar em ser você mesmo. A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar? Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias.
Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu “normal” e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original. Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Continua Martha Medeiros, a autora dos comentários: Eu não sou filiada, seguidora, fiel, ou discípula de nenhuma religião ou crença, mas simpatizo cada vez mais com quem nos ajuda a remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.

O curioso é que estes chamados padrões de normalidade no fundo, no fundo são tentativas de controlar mais facilmente as pessoas. Se de um lado a disciplina militar, como também a eclesiástica, estabelecem padrões de comportamento, incluindo os trajes de uso pessoal para fins de impor obediência à hierárquia, de outro lado, na vida civil, é o próprio interesse comercial quem dita as normas das vestes, dos cortes de cabelo, enfim daquilo que deve ser consumido pelos cidadãos e cidadãs, simplesmente porque são modas. Já perceberam com clareza como se dá esta imposição tão autoritária e dissimulada? Pois, quando assistirem os filmes, as novelas, os programas de televisão e de rádio, passem a observar todas as insinuações aparentemente inocentes da publicidade, que de inocentes não têm nada, mas que são de fato verdadeiras prisões e camisas-de-força que obrigam ao consumismo, de forma aparentemente suave. Uma coisa é a empresa mercantil divulgar as mercadorias disponíveis para vender. Outra coisa, bem diferente, é fazer tal anúncio dando informações sobre as mercadorias, mas informações que nem sempre são verdadeiras. É a chamada propaganda enganosa e está prevista no Código de Defesa do Consumidor, que, aliás, é ignorado por grande parte da população e que, por este motivo, é tão frequentemente desrespeitado. Isto vale para mercadorias e também vale para serviços.

Como falou Martha Medeiros em seus comentários, cada um de nós é compelido a se comportar, não como deseja, mas como a moda e a mídia ditam. Abrir mão da sua própria consciência, do seu direito de escolher e orientar sua própria vida acaba sendo uma forma de escravização, seja aos preconceitos sociais, seja às determinações religiosas e seja até à imagem que queremos ter frente aos nossos vizinhos e conterrâneos. Em outras palavras, quantas vezes deixamos de ser autenticamente o que somos, para parecer o que não somos, com medo de desagradar os outros? Estas coisas geram aperreios que vão interferir com o funcionamento do nosso corpo e da nossa mente e nos fazer adoecer. É a normose, como chamou o prof. Hermógenes, fundador e principal mentor da hatha ioga no Brasil. É verdade que todos nós e cada um de nós tem o dever de sujeitar-se ao cumprimento das leis, porque as leis são o aperfeiçoamento da vida em sociedade. Sem leis, certamente estaríamos condenados a voltar ao selvagerismo, à lei do mais forte, do mais ousado, do mais perverso. A Constituição Brasileira diz claramente que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Mas não diz simplesmente que todos devem ser iguais no modo de agir, de trajar, de cuidar de seu corpo e de sua mente. Não sugere nenhum padrão de normalidade que inclua ser magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido, como bem lembra a autora dos comentários transmitidos há pouco. Agora, atenção! Nossas preferências individuais, nossos gostos não podem nem devem infringir a lei. Se alguma lei parece inadequada, o recurso civilizado é tentar mudá-la a serviço da cidadania, através dos representantes eleitos para o Legislativo. Digo isto, até com uma dose de otimismo, mas confesso que não raras vezes me sinto envergonhado pelos representantes que temos em nosso país. Não sei se é verdade, mas já ouvi muito que um povo costuma ter o governo que merece.

Creio que a sabedoria popular tem toda a razão quando nos ensina que cada cabeça é um mundo. Isto significa que cada olhar é diferente do outro. Fico imaginando como a Natureza provê a individualidade de cada um de nós, dando a cada um seu próprio código genético, dando a cada um sua própria arcada dentária, a cada um sua própria impressão digital, detalhes que servem muito bem para identificar o indivíduo como sujeito único entre os demais. Conviver com as diferenças e aprender a respeitar uns aos outros são requisitos primordiais para a vida em comunidade. Tendemos a encarar os doentes, principalmente os doentes mentais como seres diferentes. Eles têm suas particularidades, mas cada um de nós também as suas. Ninguém talvez tenha ainda observado, como observou o professor Hermógenes, é que a doença também está na normose.