Escute o Prosa & Verso 098

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Músicas tocadas neste programa:
nelson ned –tudo passará
quatro ases e um coringa – boneca de pano
nara e bethânia - formosa
miltinho – o rio e eu
noedson – passageiro
joão bosco e conjunto época de ouro – títulos de nobreza

É um velho costume comparar-se a vida a uma viagem. Está nos romances, nas músicas, nos filmes, nas novelas e principalmente nas prosas do dia a dia. Mesmo sem nunca sair da terra em que nascemos, costumamos pensar na vida como uma viagem. Uma viagem de venturas e/ou desventuras, mas basicamente uma viagem de aventuras. O mundo concreto, aquele que está totalmente fora de nós, mesmo que não o aprovemos nem mesmo ainda que não o aceitemos, não pode estar desligado da gente. O total desligamento do mundo é um sintoma de loucura. É o que se chama de alienação. Só mesmo a morte nos desliga de fato e mesmo assim permanecemos por tempo variável atrelados à memória dos outros e é isto que se pode supor inteligentemente que seja a tão almejada imortalidade. A imortalidade é um sonho tão antigo quanto o próprio homem, desde que começou a pensar, a ter idéia do tempo e de seu êxito final, que é a morte.

Os homens são tão mais tolos quanto sejam mais vaidosos. E é a vaidade que faz os homens se terem em conta de imortais. Dizemos até que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. E olhem que Deus é o auge da perfeição em toda a Natureza! E fomos feitos à sua imagem e semelhança… Não é muita presunção? Vaidade! Este é o nome: vaidade. De tanto usar uma palavra sem refletir sobre seu significado tornamos a palavra desgastada e pobre, como acontece com esta palavra: vaidade. Aqui o sentido em que ela está sendo usada é o sentido da presunção. É vaidoso quem quer parecer aos outros e a si mesmo algo mais do que se é de fato. Vocês não conhecem aquela fábula de Esopo, Fedro e La Fontaine, O corvo e a raposa? Ela retrata fielmente como fica tolo e ridículo o vaidoso. Ouçam e prestem atenção à fábula:
Um corvo pousou em uma árvore, com um bom pedaço de queijo no bico.
Ia passando uma raposa que, atraída pelo cheiro do queijo, logo se aproximou da árvore, com muita vontade de comer aquele petisco. Mas, não tendo condições de subir na árvore, a raposa resolveu usar sua esperteza em benefício próprio.
__ Bom dia amigo Corvo!
O corvo olhou pra baixo e fez uma saudação balançando a cabeça e a asa.
__Ouvi dizer que o rouxinol tem o canto mais belo de toda a mata. Mas eu aposto, meu amigo, que se você cantasse, teria o melhor e mais lindo canto do que qualquer outro animal da floresta.
Vaidoso, sem a menor auto-crítica, o corvo foi seduzido pelo elogio da astuta raposa e quis, imediatamente, exibir sua voz. Quando abriu o bicão pra cantar, o queijo caiu lá de cima e foi direto pro chão.
A raposa, debochando, apanhou o queijo e agradeceu ao corvo:
__ Da próxima vez amigo, desconfie das bajulações!

Bem a propósito da vaidade, chegou às minhas mãos um pequeno artigo da jornalista Lia Luft, com o título O medo de decepcionar. Ela diz assim:
O receio de decepcionar as outras pessoas pode tornar-se um empecilho em nossa vida…
Este medo faz com que cobremos de nós mesmos uma perfeição impossível de ser alcançada.
Porém, o que geralmente não pensamos é que, nossa primeira preocupação deveria ser em não decepcionar a nós mesmos…
Quantas vezes acabamos não cumprindo os objetivos que nos havíamos imposto, passamos por cima dos nossos próprios sentimentos e deixamos de lado os nossos sonhos, como se eles não tivessem importância?
A vida pode não nos dar uma segunda chance!
Esta não é, em absoluto, uma postura egoísta ou individualista diante da vida.
Trata-se sim, de não nos anularmos, para que um dia não cobremos dos demais a não realização de nossos sonhos e nossa conseqüente frustração.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada.
Eventualmente re-programada.
Conscientemente executada.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer! E assim termina o artigo da jornalista.
Eu acrescento mais lenha na fogueira: Seguindo uma sugestão do zen-budismo de que todo sofrimento é conseqüência do nosso desejo, penso sobre a vaidade, assunto do programa de hoje. Vaidade é o desejo de ser reconhecido como sendo melhor do que se é. A vaidade é u’a mentira dupla, isto é, para os outros e também para si mesmo. O único remédio que existe para neutralizar a vaidade é o caminho do conhecimento de si mesmo. E ninguém conhece a si mesmo se desculpado dos erros que comete, mas sim reconhecendo que os cometeu e procurando corrigir de hora em diante.

Descendo das nuvens da vaidade e pondo no chão os pés de viajantes da vida, temos que encarar nossa condição de que somos sós e desamparados, embora isto nos produza angústia. Mas suponho que é melhor angustiar-se frente à verdade do que exultar frente à ilusão. Não tenho nem posso ter certeza do que estou dizendo, mas estou sendo sincero quando digo tudo isto. É o que penso e é honestidade dizer o que penso. Por outro lado, com todas as suas estripulias e toda a sua estupidez, não há como vivermos isolados da sociedade. E é da contribuição do coletivo que surge a cultura. E a cultura, com seus trancos e barrancos, pode ser o caminho do polimento da humanidade. Nascemos maus, como disse Santo Agostinho, nascemos perversos, como disse Freud, mas a cultura é nossa chance. Temos, durante nossa viagem pela vida, oportunidades mil de nos tornarmos melhores. E, se a criancinha nasce naturalmente beirando a perfeição do corpo, nasce com sua alma rude e absolutamente imperfeita. E temos que tocar pra frente, porque atrás vem gente. Mas, tocar pra frente com a consciência de que o caminho não é em linha reta, o caminho da vida dá muitas curvas e recuos, a maior parte deles absolutamente imprevistos, donde se costuma dizer, numa forte expressão de fé, que Deus escreve certo por linhas tortas.

Um grupo de militares que fazia um mapeamento de uma região montanhosa e pouco habitada, encontrou um homem chamado Dersú, que morava sozinho por ali e que nem sequer sabia sua própria idade. Dersú seguiu com eles, como uma espécie de guia na selva, quando o tempo começou a mudar, ameaçando uma tempestade. Encontraram, à boca da noite, uma choça caindo aos pedaços. Num mutirão, todos se juntaram e consertaram a cabana de modo que pudessem ficar abrigados. Pela manhã, enquanto se arrumavam para ir embora, Dersú pegou um pouco de sal, uns fósforos, catou uns gravetos, fez um pacote com tudo dentro e deixou bem protegido num canto da palhoça. Os militares perguntaram então se ele estava pensando em voltar ali outra vez, ao que Dersú respondeu que certamente não iria passar por ali de novo, mas que, algum dia, alguém, qualquer pessoa precisando de abrigo iria passar por ali e assim encontraria o pacote de fósforos, gravetos e sal. Era o bastante. Depois de nós virá alguém. Foi o que disse aos militares. Depois que conheci esta estória, ainda na minha adolescência, passei frequentemente a me lembrar dela e a ter o cuidado de preservar os lugares por onde ando, a Natureza, os objetos, os alimentos, porque imagino que depois de mim virá alguém, seja lá quem for. Creio que é assim que a cultura vai-se formando e que vai sendo cultivada a consciência ética.