Qua 29 Jul 2009
Prosa & Verso 099 – CELEBRAÇÃO DE ANIVERSÁRIO
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 099
Músicas tocadas neste programa: |
Ele estava naquele recanto à noite, triste e desolado porque tudo indicava que logo ele seria preso e assassinado. Dizem os que escreveram sobre sua vida que ele se sentiu só e abandonado, quando se apegou ao que ele chamava de abba, que quer dizer papai, na língua aramaica. E contam que, amedrontado, teria implorado a Deus: Pai, afasta de mim este cálice! Pouco depois foi preso, torturado, condenado e morto. O medo da morte habita todos os corações, mas algumas pessoas, como ele, se estremecem mesmo não é diante da morte, mas diante dos sofrimentos que costumam chegar antes dela. A julgar por tudo o que se relatou sobre ele, suponho que sua hesitação não se deu por medo de morrer, mas diante do que imaginou que viria a suportar enquanto ainda estivesse vivo.
Em algumas culturas, a morte é temida pelos que estão à sua beira e chorada, lamuriada, sofrida pelos que estão ainda permanecendo vivos. Em nossa cultura é assim. Mas há outras culturas em que a morte é encarada de outro modo, parece até que com uma ponta de alegria. Nesses casos, o luto não é preto. É vermelho. São casos em que a saudade marca a separação do ente querido, mas em que o espírito é de aceitação e até de gratidão. Se são necessárias as carpideiras serem contratadas para chorar nos funerais, isto é certamente porque entre os mais chegados não haverá lágrimas suficientes. Não é tão raro assim que, ainda hoje, nas chamadas sentinelas role um papo animado, muitas vezes espirituoso e engraçado, acompanhado do famoso cafezinho e mesmo da pinga. Conheci gente que não perdia uma sentinela, tão somente pra se engraçar com as moças. Aqui vai u’a homenagem à memória de Drocha, que hoje está no reino dos mortos, provavelmente mais feliz do que quando estava no reino dos vivos. Vocês já repararam que as grandes personalidades que ficaram na História são lembradas pelo dia de sue morte e não pelo dia do seu nascimento? Suponho que seja assim Ao nascer, a carne é que é forte e o espírito fraco. Porque, ao nascer, o humano é um primor do ponto de vista físico, mas uma lástima do ponto de vista psicológico. No decorrer da existência, o espírito tem a chance de se aperfeiçoar, enquanto que o corpo se vai desgastando, definhando para naturalmente encerrar sua jornada como um caco velho.
Que fazemos nós, em nossa cultura? Escondemos a morte, negamos sua fatalidade, dissimulamos com escaramuças e a disfarces o quanto podemos perante as crianças. Será que, trajando negro, estamos mesmo, cumprindo um período chamado de luto, apenas para expressar nossa dor? Ou será para publicar, para demonstrar sentimentos impostos por dever e para dar uma satisfação à sociedade? São apenas dúvidas, perguntas sem uma resposta clara.
Já diante do nascimento de um novo humano, reagimos com muita alegria, muito júbilo, muita exultação. Comemoramos a data de aniversário sempre como um grande dia, um dia especial. Como não sabemos absolutamente nada acerca do futuro nem da além-existência, celebrar a vida é a única alegria de fato que nos resta. Mas é uma alegria no escuro. Será que, quando damos parabéns a alguém em seu aniversário, é porque estamos considerando mesmo que aquela pessoa tem algum merecimento por ter nascido? Talvez não seja assim. Talvez inconscientemente estejamos é celebrando a contribuição daquele ser para com a perpetuação da espécie, pois o nascimento de uma pessoa é, de certo modo, um novo nascimento de toda a humanidade. As comemorações de aniversário são u’a manifestação coletiva, uma celebração da vida e não uma homenagem a quem está completando anos. Muitos de nós, desatentos, pensam que são merecedores de aplausos por haverem nascido. Mas talvez não seja bem assim. A vida não me parece um merecimento, mas uma graça. O cumprimento ético, decente e construtivo desta graça deve ser uma tarefa de cada vivente. É desta maneira que nos imortalizamos na memória dos que ficam.
Você, que está ouvindo o Prosa & Verso, talvez tenha uma pessoa querida que este mês tenha completado aniversário. Ou talvez esteja lembrando de uma pessoa querida que já tenha completado sua viagem pela existência. Em um, em outro ou nos dois casos, arrume um tempo e um motivo para homenagear sua memória ou para lhe fazer um agrado, para lhe dizer quanto ela é importante para você. E tomara que esse gesto, sim, se repita muitas e muitas vezes no decorrer do ano e não só nas datas aniversárias.
E por falar em Luíza, conheço uma, cuja existência, cuja forma de viver, sempre semeando e cultivando, na horta, no pomar, no jardim e na vida, é um hino à existência e à alegria de viver. Neste momento, eu quero dedicar u’a música para ela e vou pedir a Beth Carvalho que escolha uma do seu repertório e cante com Mariene de Castro, especialmente para esta muchacha, que faz aniversário hoje.
Data do artigo: Quarta-feira, 29 dAmerica/New_York Jul dAmerica/New_York 2009 às 8:54 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.