Escute o Prosa & Verso 101

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Músicas tocadas neste programa:
antonio carlos e jocafi - você abusou
jamelão – folha morta
linda batista – vingança
gal costa – divino maravilhoso
toquinho e vinícius – é fogo, irmão
joatan nascimento – recordações de porfírio

Uma pessoa sábia é bem diferente de uma pessoa sabida. A sabida se acha sabida, pensa que é a esperta, que os outros são burros. O sábio não se acha sábio, reconhece que não sabe tudo, que não sabe nem o suficiente, que não sabe nada. Mas reconhece também que nem um só humano sabe tudo e que até o dia da morte de cada um, mesmo que seja em uma idade avançada, tem e terá sempre o que aprender. O sábio é humilde porque a sabedoria e a humildade andam juntas, de mãos dadas. O sabido é vaidoso e vive se enganando com sua presunção. Quando na vida se depara com novo ensinamento, o sábio agradece. O sabido se irrita e geralmente responde: eu sei! Isto eu já sei! E continua a errar, a enganar-se e, como conseqüência do auto-engano, vive enganando os outros. Engana os outros quem bajula, quem puxa o saco, quem só faz elogiar e dizer coisas agradáveis. O sabido jamais critica, porque criticar desagrada. Jamais educa, porque educar é estar permanentemente apontando os erros e, portanto, criticando. O sabido não exercita o amor, porque está sempre tentando levar vantagem em tudo, sempre tentando tirar proveito de tudo o que faz. Para o sabido, porque pensa que é sabido e que os outros são estúpidos, acha que engana facilmente já que, em sua visão, os outros são facilmente enganáveis.

Não estou dizendo que os homens são divididos entre bons e maus. Eu suponho que, na verdade, o bem e o mal estão dentro de todos nós, fazendo parte de nossa natureza. Só que o mal parece que chegou primeiro e não carece de nenhum esforço para ser praticado. Basta viver de forma egoísta e egocêntrica para praticar o mal. Pelo contrário, a prática do bem passa por um esforço consciente. E o esforço cansa porque dá trabalho. Para ter uma atitude, um gesto de bondade, tem que haver um indispensável dispêndio de energia. Para ter uma atitude, um gesto de maldade, é suficiente cruzar os braços, pretender que os outros adivinhem nosso pensamento e se coloquem a nosso serviço. É assim que começamos a explorar as outras pessoas. Como abrigamos em nossa natureza a semente da maldade, temos a tendência mórbida de espalhar as notícias ruins com a maior presteza. E . além de contarmos um conto, aumentamos ou mesmo inventamos um ponto. Assim se produz a maledicência. Maledicência é o mesmo que difamação. Me disseram, ouvi dizer, dizem por aí… sempre numa afirmativa anônima, isto é, sem responsabilizar ou mesmo sem conhecer a autoria do boato que, muitas vezes, divulga uma noticia prejudicial a alguém e que nem sempre é verdadeira..

Reza o repertório popular que numa certa ocasião Mariquinha, uma pessoa muito faladeira, língua ferina inventou e espalhou um boato difamando alguém que morava em sua mesma cidade e que aqui vai ter o nome de Madalena. Espalhou que Madalena, casada e mãe de três filhas, tinha sido flagrada pelo vizinho, aos beijos e abraços com outro homem. O boato se difundiu rapidamente, fazendo com que o marido e as filhas saíssem de casa, abandonando Madalena. Só que tudo era mentira. Dizendo-se arrependida, Mariquinha foi confessar-se durante a semana santa, porque queria cumprir o preceito de fazer a páscoa. Quando relatou ao velho padre o que tinha feito, o padre lhe disse que ela só teria seu pecado perdoado se tomasse um saco de penas de galinha, fosse à torre de uma igreja e, lá de cima, jogasse todo o conteúdo do saco ao vento. E que no dia seguinte pegasse um saco vazio e fosse catar todas as penas que o vento espalhou. Somente depois de recolhidas todas as penas é que poderia considerar-se absolvida de seu pecado. Esta parábola expressa muito bem as conseqüências e a gravidade de uma informação maledicente.

E, como o abismo atrai abismo, a violência atrai violência, a mentira atrai mentira e o maltrato atrai maltrato. Quantas vezes cada um de nós não já contribuiu para difamar alguém, contribuiu para o apedrejamento de alguém, para a condenação e a execração pública de alguém, sem o menor conhecimento de causa ou simplesmente por se haver equivocado com as palavras que teria ouvido? Os gestos, as palavras, as atitudes, as expressões do rosto, o olhar do outro muita vez é interpretado erroneamente por cada um de nós. Construímos então intimamente uma idéia nascida de uma interpretação errônea e passamos a crer em tal idéia como se fosse um fato verdadeiro. Daí em diante, tudo o que fizermos a partir desse engano será um outro engano e mais outro e outro mais. Quantos males podemos ir causando pela vida, enquanto não refletirmos sobre nossa convicção enganada e enganosa para então nos corrigirmos?
Pois é, meus amigos; pensar cansa! Refletir dói! Corrigir-se dá trabalho! Para aceitar uma crítica carece ter humildade. E, para fazer a crítica, é preciso ter coragem e fé.

Agora, vejam como os extremos podem se encontrar. O que parece o oposto da maledicência é a bajulação. Mas não é bem assim. Só parece. A bajulação é tão prejudicial e danosa quanto a maledicência, a difamação. E uma pode ser tão mentirosa quanto a outra. Quando vemos TV, quando ouvimos rádio, quando lemos revistas e jornais, quando os carros de som passam pelas nossas portas, que é que vemos e escutamos? Propaganda, propaganda, propaganda. A palavra propaganda significava, em sua origem, coisas que deveriam ser contadas, espalhadas, divulgadas. Como a palavra publicidade, que também em suas origens designava o efeito de tornar pública alguma informação. No mundo atual, onde o que importa é o dinheiro na frente de tudo, o que importa é vender seja lá o que for, o que importa é levar vantagem custe o que custar, propaganda e publicidade passaram a ter outro sentido: passaram a ser a arte de convencer por cima de tudo, a pau e pedra. Convencer de tal maneira, mesmo que seja com mentiras bajuladoras. E são mentiras bajuladoras, tão somente porque mentiras maledicentes são proibidas e consequentemente punidas com multas. A maneira como se fazem propagandas chega frequentemente às raias da desonestidade. Se a mentira for flagrante e puder ser comprovada, será taxada como propaganda enganosa e sujeita a punição. Mas se a mentira não for possível de comprovar, mesmo que esteja na cara, não há repressão nem punição. Mas ainda assim não deixa de ser mentira. Consta que Gandhi dizia que u’a mentira repetida muitas vezes e por muitas pessoas passa a ser tida como verdade. Prometer saúde, prometer felicidade, prometer cura de doenças, prometer longa vida é uma leviandade, porque saúde e felicidade dependem de algo misterioso, à vontade de Deus. E Deus? Será que é um desocupado à disposição de alguns sabidos que ganham e lucram às custas de enganar o povo? Ou seremos todos nós portadores desta semente de maldade, que nos faz preferir o engano e a tapeação, em vez de escolhermos melhor com que gastar o dinheiro mirrado que conseguimos com suor e trabalho? É que, acreditem, a mentira tem, mas a verdade não tem mesmo uma cara bonita…