Escute o Prosa & Verso 102

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Músicas tocadas neste programa:
raul seixas – eu nasci há dez mil anos atrás
mpb4 – roda-viva
bethânia & chico – sinal fechado
mercedes sosa & fagner– años
kansas - dust in the wind
nelson gonçalves - naquela mesa
altamiro carrilho - lamentos

Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da vida? A vida em si tem um sentido? São perguntas, tão antigas e tão atuais, que todo homem que para um pouco, na correria da vida, para refletir, para pensar sozinho consigo mesmo, acaba fazendo. Perguntas como estas não encontraram até hoje, depois de mais de dez mil anos de inteligência neste planeta, respostas convincentes. O homem nem sempre foi pensante. Como os animais, guiava-se pelos instintos. Ainda hoje, muitos de nós se guiam pelos instintos, como vocês sabem muito bem. Pois, as perguntas que mencionei neste instante parecem ter sido a primeira e principal motivação para que o homem pensasse de modo transcendente, isto é, para além de si mesmo. Assim tiveram início as formulações mitológicas, religiosas e supersticiosas que nos acompanham ainda hoje, tantos séculos já decorridos de nosso surgimento como espécie animal chamada de homo sapiens. Mas não podemos confundir sapiens com sábio. Sapiens é aquele capaz de pensar e entender o que os animais irracionais não conseguem. Sábio é o que vivenciou, experimentou, refletiu e aprendeu as lições, principalmente por ter arriscado, ousado e muitas vezes errado. Mas que deu a volta por cima.

Agora estamos na era das maravilhas tecnológicas, telefone, televisão, cinema, rádio, computadores. Estas maravilhas tecnológicas têm apenas aproximadamente cem anos, o que não é nada, se comparado à existência de humanos neste planeta, aliás o único que conhecemos. E, lamentavelmente, quanto mais nos afastamos de nosso estado natural, dos nossos instintos, porém sem amadurecermos nossa mente, nossa alma, vamos nos tornando seres perdidos, sem um sentido na vida. E então nos atiramos à competição uns contra os outros, alimentados praticamente apenas pela ambição. A ambição nos faz inchar a alma, mas não a alimenta: queremos ter, juntar, ganhar cada vez mais. Queremos poder dominar a natureza, e também dominar os outros. Queremos parecer melhores do que somos, ter mais do que temos, poder mais do que podemos e assim, quanto mais pretendemos parecer o que não somos, ter o que não temos e poder o que não podemos, mais nos iludimos também com estas mentiras que tentamos pregar às outras pessoas à nossa volta. Entramos assim numa roda-viva, enchemos nosso tempo com atividades de toda espécie. E quanto mais cheio está nosso tempo, mais vazia vai ficando nossa vida interior.

Lembro de uma poesia de Berthold Brecht que diz mais ou menos assim:
Estou sentado à beira do caminho
enquanto o condutor troca a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho
nem me agrada o lugar para onde vou.
Por que então esta impaciência,
Esta pressa,
Esta ansiedade?
Vivemos aqui nesta cidade pequena, pacata, calma. Mas não é verdade que passamos semanas e até meses sem nos encontrar com pessoas que queremos bem e que também gostam de nós? E quando ocasionalmente passamos uns pelos outros nas ruas pensamos e comentamos uns com os outros: Mas, há quanto tempo que não nos vemos!… Parece até que nem moramos na mesma cidade!… Não é assim? Que estamos, afinal, fazendo de nosso tempo, de nossa vida?

O tempo, implacavelmente, vai passando. 24 horas por dia, 60 minutos por hora. Isto serve para cada um de nós. O tempo é a medida do nosso viver, não só do nascimento até a morte; mas também do preenchimento do nosso dia-a-dia. Às vezes até parece que estamos loucos para nos desfazer do tempo. Ainda bem que o tempo passou! Dizemos muitas vezes. Os antigos gregos, alicerces de nossa civilização, diziam que havia dois tipos de tempo: o tempo que pode ser marcado e medido era o kronos. Daí as palavras crônico, crônica, cronologia, cronológico. É a esse tempo a que o relógio se refere. O outro tempo, um tempo interior, individual, próprio de cada pessoa, era chamado de kairos. E este não pode ser medido, porque a medida está em cada um. O que é demorado para uns é rápido para o outro. Quando estamos deprimidos, o tempo parece passar mais devagar. Quando estamos excitados, exultantes, dizemos que o tempo voa. Do mesmo modo, quando estamos atarefados, o tempo nos escapa como a água que escorre pelo ralo da pia. Agora, quando estamos entediados, sem saber o que fazer com nosso tempo, o tempo parece nos pirraçar e anda a passo de tartaruga.
Dizem que mente desocupada é oficina do diabo. Não penso assim. É possível desocupar a mente dos problemas que temos para nos conceder a nós mesmos um momento de paz. Isto é que é meditação. É como tomar fôlego para continuar a caminhada. Penso que oficina do diabo é o tédio. Mas a atividade frenética, que não nos permite contemplar a natureza bela, ouvir uma boa música, apreciar uma arte, encontrar nossos amigos e fazer novas amizades e que nos impede inclusive e sobretudo de refletir, esta, sim, é que esvazia a alma. Depois, quando precisamos do nosso amigo tempo, ele já se foi.

Não devíamos deixar de fazer nada de que gostamos, alegando falta de tempo. O único tempo que vai faltar é o que está passando e que, inexoravelmente, jamais vai voltar. Por outro lado, a tal da roda viva, que é uma espécie de redemoinho do tempo, parece preencher nossa existência. E até dá a ilusão de que está mesmo preenchendo. Mas o que de fato está causando é um esvaziamento interior, um empobrecimento da alma. Nem de longe estou negando o valor do trabalho, a necessidade de conseguir recursos para nossa sobrevivência, alimentação, moradia, agasalhos, educação e bem-estar. Estou falando é do exagero da atividade, do excesso do empenho em ganhar e juntar dinheiro, do consumo do tempo de cada dia, impedindo o prazer do encontro, da prosa e do verso.

Em vão queremos que o mundo pare. Cada um de nós é que precisa e deve parar, fazer sua pausa, sair do ritmo louco e alucinante do mundo e voltar-se para dentro de si, re-signar-se, retomar as rédeas da sua própria vida, do seu próprio destino. Saudade, sim, do que está longe, de quem está longe. Mas, nostalgia? Não! Saudade do que passou é nostalgia. E isto não faz bem a ninguém. Nostalgia é um sofrimento que talvez possa ser prevenido ou evitado, se vivermos de corpo e alma o momento presente. O que passou não deve ser lamentado.