Escute o Prosa & Verso 103

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Músicas tocadas neste programa:
still a long way to go,
govinda dance
kali
om ganesh
knowledge of brahman
altamiro carrilho – chorinho didático nº2

Quase do outro lado do mundo, considerando o planeta terra como o mundo habitado, que é o que nós conhecemos, existe um imenso país de cultura antiga, cuja história se perde na poeira do tempo. É a Índia, cuja tradição nos deixa a nós, que vivemos aqui do outro lado, com caras de bobocas, porque não conseguimos entender e aceitar perfeitamente até hoje o modo de viver do seu povo. Primeiro que a população é dividida em castas, um ordenamento religioso e a idéia de que todos os homens são iguais nunca chegou por lá. Não é que a simples idéia de que todos os homens são iguais mude alguma coisa. Todas as civilizações modernas propagam a idéia de que todos os homens são iguais, mas na prática isto parece uma balela e as pessoas são de hábito discriminadas por várias razões, desde a raça, o sexo, a preferência sexual, a ideologia política, a religião, a idade, a classe social à qual pertence e por aí vai. Mas, no que tange à Índia, a sociedade é dividida pelo sistema de castas e isto é rígido, do nascimento à morte. Vem grudado na pele, no corpo e na alma de cada sujeito. A casta considerada mais baixa, a casta dos intocáveis, como o nome mesmo diz, não pode sequer ser tocado por pessoas de outras castas, sob pena de serem considerados impuros. Mas a despeito de toda a estranheza que sentimos por esse país e seu povo, a cultura indiana é rica em sabedoria, creio que pela antiguidade, cuja tradição se mantém viva. É pela índia que vamos fazer hoje nossa viagem musical. As músicas que vou apresentar não só parecem estranhas. São de fato estranhas ao nosso gosto. Mas conhecimento é cultura e não é coisa boa conhecer apenas aquilo de que gostamos à primeira vista. Ouçam agora a música intitulada Viajante, ainda há um longo caminho a percorrer.

Falando na Índia, logo me vem à mente um escritor alemão, nascido há quase cem anos, chamado Hermann Hesse, que lá esteve, na Índia, e que lá encontrou boa parte dos conhecimentos e das inspirações que acabaram mudando sua vida. Escreveu um livro de tamanho pequeno, de apenas 120 páginas, chamado Sidarta que, se vocês ainda não conhecem, vale muito a pena ler. O livro romanceia a vida de Buda, indiano que se chamaria Gautama Sidarta Zaquia Muni. No livro, um amigo de Sidarta, não sei se personagem real ou fictício, tinha o nome de Govinda. A música que vão ouvir, indiana, se chama A dança de Govinda.

A Índia, que tinha estado debaixo do domínio de diversos países europeus, inclusive de Portugal que teve sua hora e sua vez na época das grandes navegações, passou praticamente a metade do século 20, sob a ocupação da Inglaterra. Os ingleses também sempre acharam estranho o comportamento dos hindus, na prática de suas posturas de ioga e meditação. Hindu não é a mesma coisa que indiano. Indiano é o sujeito nascido na Índia. Hindu é aquele que professa o hinduísmo, que é uma religião panteísta, isto é que adota e adora diversos deuses. A música que vão escutar se chama Kali, que é o nome de uma deusa hindu, a deusa da Natureza.

Quando pensamos na Índia, pensamos em ioga e muitos de nós acham que ioga é uma religião. Mas, não é. É verdade que a palavra ioga significa em sânscrito ligação, união. O mesmo significado portanto da palavra religião, que quer dizer, na língua latina, o efeito de reunir, de religar. Mas isto é assunto pra outro momento. Ioga, de fato, é uma técnica ou um conjunto de técnicas, com as quais o iogue que a pratica pretende alcançar um domínio sobre o próprio corpo e sobre o próprio comportamento e uma suposta e desejável serenidade diante da vida. A prática da ioga, entre outras coisas como as posturas, o relaxamento, a meditação, inclui uma espécie de canto ou som emitido pelas cordas vocais, que são chamados mantras. O mais importante deles é o mantra om. Como já disse, o hinduismo adota muitos deuses. É, portanto, uma religião panteísta e Ganesh é um dos deuses mais queridos e venerados pelos hindus. Vocês vão escutar a música denominada Om Ganesh.

Na Índia, comer carne de boi é tabu. Isto é, é mais do que uma simples proibição religiosa, pois faz parte da cultura nacional. A rês é tida como um animal sagrado e não pode ser maltratada, enxotada, aprisionada ou abatida. Se numa estrada, o gado está atrapalhando o tráfego, ninguém pode descer e tanger o gado impacientemente ou ameaçando com paus ou pedras. Assim me contou uma colega que esteve na Índia pela quarta vez, em busca da paz interior, segundo me disse. Eu, de qualquer maneira, nunca consegui compreender como alguém viaja tão longe para buscar a paz interior, se a vida interior de cada um está, como o nome diz, dentro dela mesma. O deus supremo do hinduísmo é Brahma que, com os deuses Shiva e Vishnu, formam a trindade santa. Os sacerdotes hindus, que constituem a primeira das castas hereditárias de que falei há pouco, são chamados brâhmanes. A música seguinte se chama Conhecimento de Brâhmane.