Escute o Prosa & Verso 104

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
jackson do pandeiro – velho sapeca
duas amigas ao telefone + antonio nóbrega - mulher peixão
provocação + arnaldo antunes & nando reis – não vou me adaptar
o nariz + juca chaves – nasal sensual
seu dotô me conhece? + luiz gonzaga – vozes da seca
altamiro carrilho – espinha de bacalhau

A depender dos conceitos de cada um, as palavras que usamos também sofrem variações até mesmo adotando uma significação contrária, segundo quem e como as esteja usando. Por exemplo, a inveja tem o significado de desejar ser ou possuir os atributos de outra pessoa em detrimento dela. Ou seja, ter inveja é como prejudicar outra pessoa. Mas alguém pode dizer: eu invejo fulano de tal e isto não querer significar necessariamente o mesmo sentimento, mas apenas admiração. Outra palavra que se desvirtuou no tempo foi crítica. Quando dizemos hoje que uma pessoa é crítica, estamos achando que ela bota gosto ruim em tudo, que ela é língua ferina. Por esta confusão da linguagem é que se passou a dizer que há críticas construtivas e críticas destrutivas. Para os antigos, os que inventaram a palavra crítica, seu sentido era bem outro. Uma pessoa crítica era aquela que apontava os erros, fossem lá de quem fossem. Como apontar os erros é o primeiro passo para corrigi-los, a crítica deveria ser sempre construtiva e a crítica destrutiva não deveria nunca existir. O que acontece é que a sociedade, que vive mergulhada em um mar de hipocrisia, detesta encarar os erros, preferindo varrê-los para baixo do tapete ou para trás da porta. A discriminação é uma forma de hipocrisia e preconceito. Tendemos a discriminar todos os que são diferentes de nós. E como o preconceito gera discriminação e discriminação gera intolerância, a intolerância também gera o sarcasmo, o maltrato, a humilhação. Mas a criatividade humana faz o impossível, como tirar leite de pedras, tornando o que poderia ser um infortúnio em algo engraçado e bem humorado.

Hoje estou trazendo alguns convidados para ilustrar as idéias que transmiti ainda agora, no início do programa. Vocês vão ver que trago uma prosa e um verso musicado de cada vez. Este que vem agora é um diálogo escrito por Luis Fernando Veríssimo. Observem que se trata de uma ironia, o que é bem diferente de discriminação. É uma crítica! Não um preconceito! Chama-se Duas amigas ao telefone.

O bom humor e a ironia fazem parte das denúncias aos maus costumes adotados pelas pessoas ou pela sociedade. São tais denúncias bem humoradas que se chamam sátiras. Houve críticos, gozadores notáveis, desde a antiguidade. Durante a supremacia dos romanos, foram destaques Juvenal, Horácio e Petrônio. Aqui no Brasil, no século 17, Gregório de Matos recebeu o apelido de boca do inferno ou boca de brasa, como sugeriu o ilustre jornalista e escritor baiano João Carlos Teixeira Gomes. Nosso contemporâneo, o notável escritor humorista e irreverente Luiz Fernando Veríssimo, nos traz hoje aqui outra sátira que se chama Provocação.

Às vezes a crítica aos costumes é feita mediante a mudança da própria conduta. Movimentos rebeldes dos adolescentes pretendem justamente isto, mesmo que sejam desordenados, sem pé nem cabeça e, por esta razão, inconsistentes e inconseqüentes. A arte da crítica ganha uma condição especial quando a gozação, a sátira, se dirige à própria pessoa que faz. Vamos escutar mais uma crônica gozadora de Luiz Fernando Veríssimo: Nariz

Em geral, as sátiras são críticas mordazes, cáusticas e apimentadas. Às vezes, até violentas. Outras vezes, não. São prosas, versos ou composições, poéticas e bem comportadas, mas que em seu bojo trazem o vigor e a energia da crítica. Uma crítica bem feita e que não precisa magoar ninguém. Apenas deixá-lo, digamos, cabreiro, incomodado. Assim acontece com Patativa do Assaré, este grande poeta popular cearense, em seus versos com o título Seu dotô me conhece?

Contamos hoje com a participação das atrizes Jailda Miranda e Gisélia Marques, que gentilmente emprestaram suas vozes para as Duas amigas ao telefone.