Escute o Prosa & Verso 105

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Músicas tocadas neste programa:
toquinho e vinícius – marcha da quarta-feira de cinzas
geraldo vandré – sonho de um carnaval
gal costa – brasil
antonio gabriel - história
jailda – cidade mãe
mpb4 – partido alto
lula e artur – cordéis para o centenário
antônio gabriel – desabafo de um morrense
maria bethânia - minha embaixada chegou

Passaram-se as festas, foi-se a folia e o que resta é o dia seguinte. Dizem que depois da tempestade vem a bonança. Sabem também os navegadores que depois das calmarias vem o temporal. Quem alguma vez já fez uma daquelas farras homéricas, já tomou uma bebedeira, sabe por experiência que no dia seguinte vem a ressaca. No sonho de José do Egito, havia sete vacas gordas que foram devoradas por sete vacas magras, sonho este interpretado como uma previsão do futuro em que os sete anos de fartura seriam seguidos por sete anos de fome. Tudo isto que estou dizendo não corresponde matematicamente à realidade. Mas como uma idéia figurada, como u’a metáfora, como um adágio, aplica-se direitinho à vida da gente, ao espírito da gente. A gente vê na casa da gente, nas igrejas, nas praças, como, no dia seguinte a uma noite de festa, é preciso começar cedo a catar o lixo e a fazer a faxina. E, se houver bebida alcoólica, pode se preparar para a ressaca e a dor de cabeça.

Anteontem, festejou-se pelo país afora, o aniversário da independência do Brasil. Isto significa que se comemorou o dia do nascimento de um país soberano. O Brasil independente completou 187 anos anteontem. Acredite, se puder.

Aniversário é uma data especial, como é o reveillon na passagem do ano, como é a páscoa para os cristãos e os judeus. É uma data de grande simbolismo, um rito de passagem, um dia que marca a transição de uma fase para a outra, com todos os sentimentos contraditórios embutidos aí: aniversariar é chegar mais perto da morte, mas é também rememorar e apreciar o que se tem feito até então. Aliás, os grandes homens da História são lembrados e homenageados na data de sua morte e não na data do seu nascimento. A cada ano, no aniversário, nós temos a chance de repensar a nossa vida. E repensando a vida, podemos redirecioná-la. Da mesma forma como se comemora o aniversário de uma pessoa, comemora-se, como aconteceu no mês passado, com grandes festejos o centenário desta cidade de Morro do Chapéu. Seus filhos, legítimos ou adotivos, voltaram-se para, em seu regaço, com o carinho e a sinceridade que se esperam dos filhos, honrar com suas expressões artísticas emocionadas esta cidade mãe, centenária, acolhedora e sofrida. Se os versos aqui e ali podem parecer ásperos ou cruéis, certamente isto ocorre por conta das mágoas que sentem seus filhos em verem sua mãe maltratada ou até porventura ultrajada nos seus cem anos de vida. Por outro lado, u’a mãe, seja mulher ou cidade, se tivesse alma, também choraria suas lágrimas pelos filhos desfavorecidos, desencantados e excluídos.

Foi o filósofo e matemático francês Blaise Pascal quem corajosamente assumiu: “não me envergonho de me contradizer porque não me envergonho de raciocinar”. Mas são as pessoas de bem, e não apenas Pascal, que munidos da humildade necessária, reformulam suas idéias, refazem suas histórias, reorientam seus caminhos. Mas as palavras são nada mais que palavras e os vento as leva. Mudam de sentido ao sabor de quem as pronuncia. Um ex-presidente da república disparou contra seus eleitores boquiabertos, instigando-os a esquecerem tudo o que ele, o presidente, havia escrito. E fez isto, embora tenha sido eleito certamente por conta das idéias que estavam publicadas em seus livros. O oportunismo de caráter duvidoso desse político se contrapõe à humildade da auto-crítica do filósofo citado. Embora ambos possam contradizer-se, os motivos das respectivas contradições são bem diferentes, praticamente opostos. O Hino Nacional Brasileiro contém uma estrofe que tem sido polemizada nas últimas três ou quatro décadas: “Deitado eternamente em berço esplêndido/ ao som do mar, à luz do céu profundo/ fulguras, ó Brasil, florão da América/ iluminado ao sol do Novo Mundo.” Talvez inspirado nessa estrofe, o saudoso Jubilino Cunegundes deixou registrado na última página do leu livro Morro do Chapéu, esta homenagem: “o município de Morro do Chapéu é um gigante pela própria natureza, dormindo no silêncio harmonioso destes sertões bravios, onde a onça leva uma hora inteira vendo a lua a meditar” Agradeço a Jailda Miranda pela lembrança da citação pois, infelizmente, emprestei meu exemplar do livro Morro do Chapéu, há mais de dois anos e até hoje não me foi devolvido.
Estou convidando a mesma Jailda, conhecida poetisa desta terra, pra declamar um poema que compôs por ocasião das comemorações do centenário de Morro do Chapéu. Com vocês, Jailda Miranda, declamando Cidade mãe.

Por falar em poesia, lembro do poeta espanhol Antonio Machado, que nos deixou estes belos versos sobre a caminhada da vida, da qual somos todos responsáveis e portanto co-autores:
Caminhante, não há caminho
Faz-se o caminho ao andar
Ao andar se faz caminho
E ao olhar para trás
Se vê a estrada que nunca
Nunca mais se vai pisar.
Eu vou chamar mais dois poetas da terra, Lula e Artur, coincidentemente, ambos Oliveira mas, suponho que sem nenhum parentesco.
Lula é professora e atriz. E também cronista e poetisa. Seus versos foram publicados no folder da programação dos festejos oficiais do centenário.
Artur é poeta, ator, pintor, escultor, diretor de teatro e cenógrafo. E me disse que nasceu dentro de um jeep, a meio caminho de Wagner para Utinga. Ele publicou seus versos em formato de cordel, também recentemente, durante os festejos do centenário. Como vocês vêem, a apresentação tem um cunho dialético.
Com vocês, Lula recitando Quem comemora cem anos tem história pra contar e Artur recitando Nossa terra este ano comemora cem aninhos de história mal contada.