Qua 30 Set 2009
Prosa & Verso 108 – MÚSICA SACRA ATRAVÉS DOS TEMPOS
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Em muitas culturas, a música está intimamente ligada à vida das pessoas. Isto se dá em diversas utilidades, não só como arte, mas também como a música militar, educacional ou terapêutica, a musicoterapia. Além disso tem presença central em diversas atividades coletivas como rituais religiosos, festas e funerais. Há evidências de que a música é conhecida e praticada desde a pré-história. Provavelmente a observação dos sons da natureza tenha despertado no homem, através do ouvido, a necessidade ou desejo de uma atividade que se baseasse na organização de sons. Embora não seja possível estabelecer seu desenvolvimento de forma precisa, a história da música confunde-se com a própria história do desenvolvimento da inteligência e da cultura humana. Hoje vamos falar da música sacra. U’a música não é considerada sacra apenas porque o seu autor é um cristão, porque a sua letra fala de Cristo ou porque pertence ao repertório de alguma religião. Ela deve ser santa em si mesma, porque música sacra é música santa. A definição, que não é minha, foi encontrada em um site da internet. Só que precisamos saber o que o autor entende por ser santa u’a música. Então vem a contribuição de Ellen White, profetisa-maior da crença adventista, mulher muito avançada para sua época, que nos deixou vários livros escritos e que constituem a base da doutrina em que se apóiam seus seguidores. Ela escreveu: Há diferentes opiniões a respeito do que seja música sacra. Tradicionalmente entende-se por música que não lembra a música do mundo e que desperta sentimentos de religião, espiritualidade, santidade e adoração a Deus. E mais: Deve ser lembrado que uma música não se torna sacra simplesmente porque é composta para ser tocada na igreja, e nem só simplesmente porque é tocada na igreja. Convém saber, portanto, que toda a música sacra é religiosa, mas nem toda música religiosa é música sacra.
Vivemos tempos modernos, em que o discurso religioso é tão misturado com o profano, que às vezes causa indignação mesmo aos que não abraçam por assim dizer qualquer uma das religiões ou seitas vigentes. Muitos e muitos exemplos podemos ver no dia-a-dia, na imprensa, nas falas dos políticos, dos comerciantes ou mesmo na linguagem simples e chamada coloquial, a linguagem que usamos simplesmente quando falamos uns com os outros: Dizemos frequentemente: se deus quiser!, sem nem ao menos de longe pensarmos em Deus, seja ele qual for. Quando dizemos Se deus quiser!, pensamos mesmo é no que nós queremos. E que Deus esteja aja segundo a nossa vontade. Dizemos e escrevemos: deus é fiel! Como se a fidelidade tivesse de ser de deus para nós e não de nós para Deus. Nas notas de dólar, está escrito: nós confiamos em deus, mas de fato nossa confiança está é no valor daquela cédula, no poder do dinheiro. Outra frase sugestiva: até aqui o senhor nos ajudou. Certamente pensamos assim porque até aqui o Senhor fez o que queríamos que fizesse. Quando alguma coisa der errada, será que vamos apagar nossa frase ou retocá-la para: daquela hora em diante o senhor não nos ajudou mais…? E assim por diante. Tais contra-sensos estão presentes também nas letras de músicas que falam de deus, de Jesus, de Maria, dos santos, das superstições enfim.
Quanto à música sacra, propriamente dita, a música santa, como diria Ellen White, é u’a música de prece, de manifestação de pedido de socorro, de agradecimento ou de louvor. É verdade que a característica maior está na letra, mas a melodia também é apropriada. Isto que estou falando se refere em regra à música sacra da tradição judaico-cristã, que é a nossa tradição dominante, sem dúvida. Por isto estou me referindo à música sacra atribuível às seitas e religiões inspiradas na Bíblia, sejam tais seitas ou religiões evangélicas ou não. Não vou entrar no campo das músicas e ritmos específicos para esta ou aquela tradição religiosa, como os mantras do hinduísmo ou os batuques do candomblé. E não vou entrar, por pura ignorância minha e porque o termo música sacra vem sendo empregado tradicionalmente para designar composições que hoje são eruditas e clássicas, notadamente judaico-cristãs e, neste caso, católicas ou reformistas.
O canto gregoriano é a mais antiga manifestação musical do Ocidente e tem suas raízes nos cantos das antigas sinagogas, desde os tempos de Jesus Cristo. Os primeiros cristãos e discípulos de Cristo foram judeus convertidos que, perseverantes na oração, continuaram a cantar os salmos e cânticos do Antigo Testamento como estavam acostumados, embora com outro sentido. À medida que os não judeus, gregos e romanos e bárbaros, chamados gentis, foram também se tornando cristãos, elementos da música e da cultura greco-franco-romana foram sendo acrescentados às canções judaicas.
O período de formação do canto gregoriano vai dos séculos I ao VI, atingindo o seu auge nos séculos VII e VIII, quando foram feitas as mais lindas composições e, finalmente, nos séculos IX, X e século 11, princípio da Idade Média; começa, então, sua decadência. Seu nome é uma homenagem ao papa Gregório Magno que fez uma coletânea de peças que mandou publicar. Ele também iniciou a Schola Cantorum, traduzindo: Escola dos Cantores, que deu grande desenvolvimento ao canto gregoriano.Após a realização do Concílio Vaticano II, no ano de 1965, o latim deixou de ser a língua oficial na liturgia da Igreja Católica e as celebrações litúrgicas passaram a ser realizadas na língua falada de cada país e a prática do canto gregoriano ficou restrita aos mosteiros e a grupos de admiradores e aficionados da beleza desta palavra-cantada.
Como a crença e a fé, como a confissão religiosa, como a atitude mística e outros conceitos antigos e modernos, a música sacra não é algo pronto e acabado, cristalizado e imutável. Os tempos mudam, mudam os costumes, muda o conhecimento, mudam as pessoas. Assim mudam as leis, os sistemas políticos, a ética e as religiões. Nem sempre mudam para melhor, mas que mudam, mudam. Este estilo musical que hoje entendemos mais amplamente como música sacra aparece ao longo da história da música na Europa e nas Américas desde o Renascimento, que determinou o fim da idade média. O novo estilo é marcado pela presença de Jacques Arcadelt, atravessando todos os estilos clássicos, até os dias de hoje.
Alguns conhecedores religiosos da música sacra estabelecem suas principais qualidades aquelas que devem estar presentes para que se defina uma canção como de natureza sacra. Entre elas, consta que a música deve: disseminar um ponto de vista autêntico sobre a Divindade; transmitir no conteúdo uma revelação presente na Bíblia e na doutrina de cada religião; estimular a vivência do testemunho de Jesus; ser completamente oposta à música profana; conter uma oração em sua essência, justificando como arremate final o amém; submeter a técnica musical aos fatores religiosos; ajudar o crente a perceber suas imperfeições com clareza; levar o devoto a perceber o significado do seu próprio sacrifício no desenvolvimento de sua fé; incentivar a emergência das emoções espirituais que levam o Homem a louvar o Criador; atuar apenas como meio de glorificação divina, não como entretenimento. Diz-se que este é um pensamento extraído das palavras do compositor Sebastian Bach. Eu, de minha parte, não sou nenhum conhecedor de música, muito menos de música sacra. Mas, por não ser conhecedor, eu me atrevo a não aceitar as regras que acabo de citar.
É verdade que a música sacra, pelo que me parece, está quase sempre revestida de erudição e só ocasionalmente surge da música popular. Entretanto, isto não significa uma condição para considerar-se u’a música como sacra. Também não me parece correto classificar de musica sacra aquela que proclama e louva os objetos das crenças dos religiosos. Nem mesmo vejo qualquer coerência em se considerar que só os religiosos apreciariam a música sacra. Música sacra é u’a manifestação artística e, como arte, não tem dono. Sua apreciação pertence a quem se emocionar com sua beleza. Aqui está uma composição que pode ser considerada sacra, tanto a letra quanto a música.
Data do artigo: Quarta-feira, 30 dAmerica/New_York Set dAmerica/New_York 2009 às 8:32 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.