Qua 21 Out 2009
Prosa & Verso 110 – REVIVENDO A JOVEM GUARDA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 110
Músicas tocadas neste programa: |
Na metade dos anos 60, surgiu um movimento na música popular brasileira, que se disseminou entre os jovens e adolescentes, ocupando um significativo lugar na moda e no seu comportamento. O movimento tomou forma e foi alimentado em 1965 por um programa de auditório da antiga Rede Record de televisão, programa este comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia, que apresentavam ao público os principais artistas ligados ao movimento. O programa se chamava Jovem Guarda, nome pelo qual o novo estilo musical e artístico ficou conhecido.
Era o rock’n roll, aproveitado em seu aspecto mais suave, quer dizer, em sua vertente mais adocicada, as baladas. Assim, a Jovem Guarda posteriormente veio a agradar também a pessoas de todas as idades, pela simpatia que irradiava, pela alegria descontraída que exibia e, por que não dizer? pelo não engajamento político. Isto porque, em 1964 tinha ocorrido o golpe militar que sufocou a democracia no país e que espalhou o medo e o terror entre a população brasileira, agravando ainda mais o arrocho a partir de 1968. Surgiam, como não poderia ser diferente, outros movimentos artísticos e musicais engajados, cujo cunho político irritava os donos do poder, provocando medidas e medidas repressivas. Muita gente foi presa, torturada e teve que fugir do país. Os trabalhadores, os estudantes e os intelectuais brasileiros foram tomados de medo e angústia, que perduraram por mais de 20 anos. A Jovem Guarda não tinha, portanto, um cunho político, ao contrário de muitos movimentos da época, que protestavam contra a ditadura, a repressão e a falta de liberdade. Mas isto é outra estória.
Os artistas e cantores da Jovem Guarda queriam apenas diversão, razão pela qual não incomodavam nem um pouco os donos do poder. Na verdade, as músicas e as letras, muitas delas trazidas e traduzidas do inglês dos Estados Unidos, falavam do bom comportamento, por assim dizer, como vocês ouviram na canção que transmiti há pouco. Por bom comportamento, entenda-se a passividade e uma presumida e equivocada inocência.
A inocência não é a mesma coisa que a ingenuidade. Um inocente é aquele que não causa nem está causando mal a ninguém. Ingênuo é aquele outro que não percebe o mal em volta, que não enxerga o perigo, que, enfim, não tem uma visão crítica da realidade. O inocente sabe como fazer o mal, mas escolhe fazer o bem. O ingênuo, como não identifica o mal, não o distingue do bem, não consegue perceber senão as aparências, acaba por provocar o mal aos outros e, muitas vezes inclusive, a si mesmo, como as avestruzes que, ouvi dizer, fecham os olhos, diante dos perigos. Quando se vê lesado ou incomodado, o inocente reclama e protesta, mesmo sem ferir quem o está lesando ou incomodando. O ingênuo, não. Ou vai brigar e se expor ou fecha os olhos e cruza os braços.
Todo o espírito da Jovem Guarda aponta para o amor entre os adolescentes, aquele amor que se pretende tão puro e sincero. As letras das canções são adocicadas ou lacrimosas, às vezes têm os traços da idealização da primeira vivência amorosa ou simplesmente dos primeiros sonhos amorosos: aquilo que a gente sente, não entende, portanto não sabe explicar, mas constrói uma imagem romântica, demasiadamente romântica.
O nome Jovem Guarda foi tirado de uma frase de Lênin, líder soviético, que dizia: O futuro pertence à jovem guarda, porque a velha está ultrapassada. Como tantas outras frases retiradas do seu contexto, esta também foi desvirtuada por um publicitário, para dar o nome ao programa da Rede Recordo, a que já me referi. O programa se tornou uma das maiores audiências da época e, de propósito ou não, fez sombra aos festivais da juventude que aconteciam na TV Excelsior e que davam espaço também para artistas e cantores engajados. Os temas da Jovem Guarda eram restritos a estórias de amor e às traquinagens, politicamente bem comportadas, dos jovens.
Uma coisa é certa: o programa Jovem Guarda foi quem favoreceu, não digo o surgimento, mas a expansão, a popularização e o sucesso de um movimento que pôs a música brasileira em sintonia com o fenômeno internacional do rock. E mais: deu origem a toda uma nova linguagem, musical e novos padrões de comportamento. No auge de sua popularidade chegou a alcançar mais de três milhões de expectadores, só em São Paulo, onde era transmitido. Os três que comandavam o programa da Record foram apelidados de o rei Roberto Carlos, o tremendão Erasmo CArlos e a ternurinha Wanderléia. O programa de TV acabou em 1969, mas a estética da Jovem Guarda nunca deixou de estar presente na música brasileira feita a partir da década de 70.
Data do artigo: Quarta-feira, 21 dAmerica/New_York Out dAmerica/New_York 2009 às 8:04 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
1 comentário para o artigo “Prosa & Verso 110 – REVIVENDO A JOVEM GUARDA”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Novembro 17th, 2009 at 10:13 am
ouço sempre que posso ouvir seu progama