Qua 11 Nov 2009
Prosa & Verso 112 – UMA VIAGEM PELO ORIENTE MÉDIO
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
A região conhecida como Oriente médio exerce um grande fascínio sobre as pessoas, pelos mistérios que toda a cultura de lá, estranha a nós ocidentais faz supor. O Egito, as Arábias, o Irã, a Turquia e também aquele lugar que os cristãos chamam de Terra Santa, Israel, Palestina e Jordânia representaram, durante muito tempo, tudo o que havia de exótico para os habitantes daqui do ocidente. Com as construções dos satélites artificiais, a comunicação em todo o mundo ficou praticamente instantânea. Já faz tanto tempo que assistimos os jogos da copa do mundo em tempo real, mesmo que se passem do outro lado da terra, que os mais novos nem sequer pensam que nós os mais velhos só podíamos ouvir pelo rádio. As imagens de TV só apareciam em vídeo-tape. Hoje em dia, com a Internet, o mundo parece que ficou menor. Tudo é muito rápido, instantâneo e as notícias voam a uma velocidade de 300 mil quilômetros por segundo. Então, os países mais longínquos e exóticos foram se tornando mais próximos e o exotismo ficou banal. É por essa região intermediária, chamada de Oriente médio que vamos fazer hoje um passeio.
Não só de pão vive o homem, mas também de arte, música, frutas secas dos oásis, quibe, poesia… Então, me lembro de Gibran Khalil Gibran, um filósofo, prosador e poeta, que nasceu no Líbano, cujos escritos, eivados de profunda e simples beleza e espiritualidade, alcançaram a admiração do público de todo o mundo. Ele viveu apenas 48 anos, mas produziu uma obra marcante, onde filosofa sobre temas como o amor, a amizade, a morte, o auto-conhecimento, os filhos e a natureza, expressando suas próprias inclinações religiosas e místicas, tão tipicamente orientais, embora tenha vivido a maior parte de sua vida nos Estados Unidos. É dele a comparação que faz dos filhos com as flechas disparadas pelo arco: nossos filhos são como flechas disparadas pelas mãos do arqueiro. Nossos filhos, uma vez nascidos para o mundo, vão construir seu próprio destino, vão trilhar seus próprios caminhos e não nos pertencem mais…
Diz-se, e com razão, que o berço da civilização ocidental foi a Grécia antiga. Mas ninguém pode negar que a semente do pensamento cristão veio do oriente médio, da cultura dos judeus. Embora rivais na política e nos interesses territoriais os árabes e os judeus são de fato coincidentes na crença de um só deus, que entre os judeus e cristãos se chama Javeh e entre os árabes e muçulmanos se chama Alah, um a cara do outro. Este passeio cultural que estamos fazendo pelo oriente médio não poderia deixar de incluir uma viagem ao mundo judeu, aqui representado pela música Hava Nagila, que como vocês reconhecerão, é tão próxima da música árabe.
Nas terras árabes também viveram Avicena e Maimônides, médicos dos mais importantes e famosos que já houve no mundo, tão conhecidos dos estudantes de medicina. Um dos maiores generais da idade média, o califa conhecido no ocidente com o nome de Saladino, deu muita dor de cabeça aos cruzados, que, aliás, foram derrotados por ele, tendo conquistado finalmente Jerusalém, que passou a ser ocupada até nossos dias pelos árabes muçulmanos. Da Espanha, bem na costa ocidental da Europa e tão perto de nós pela língua, pela religião e pela vizinhança de Portugal que colonizou o Brasil, podemos identificar muitos matizes árabes. Até existe um nome que se dá à arte dali: arte moçárabe, que é uma espécie de sincretismo muçulmano-cristão. Os, aliás, árabes ocuparam durante séculos parte da Europa, mais precisamente todo o território onde atualmente é a Espanha e aí deixaram suas marcas culturais. Essas marcas até hoje estão vivas e admiradas na arquitetura e na música. Esta que vocês vão ouvir é espanhola mas exibe uma clara influência árabe.
Aqui no Brasil, uma geração inteira que agora está passando ficou conhecendo alguns costumes e lendas da fascinante cultura árabe através dos escritos um autor bastante fértil, Malba Tahan, de nome tão sugestivo, que nos proporcionou e proporciona muitos momentos de leitura gostosa e instigante, nos livros que escreveu sobre o mundo árabe. Pelos títulos dos seus livros, podemos medir sua capacidade de imaginação e seu tino de explorador da cultura tão misteriosa e cativante desses povos do deserto. Vão aqui alguns nomes dos livros de sua autoria: Céu de Alah, Lendas do céu e da terra, Lendas do deserto, Lendas do oásis, Lendas do povo de Deus, Maktub, palavra árabe que significa estava escrito, Novas Lendas Orientais, Salim, o mágico e O homem que calculava, este último de leitura especialmente saborosa, que deveria ser indicado para todos os estudantes do curso fundamental e do secundário. Principalmente aqueles alunos que dizem detestar matemática. Pois bem, Malba Tahan não era árabe e sim brasileiro, cujo nome verdadeiro era Júlio Cezar de Mello e Souza. Mas sua imaginação e criatividade transpuseram fronteiras e o levaram, e a todos os seus leitores, a fazer viagens prazerosas pelos desertos e pelos oásis da paisagem do oriente médio.
Data do artigo: Quarta-feira, 11 dAmerica/New_York Nov dAmerica/New_York 2009 às 8:22 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.