Escute o Prosa & Verso 113

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Músicas tocadas neste programa:
cristóvão cerqueira – gritos da terra
trio nordestino – cabeça inchada
marinês e sua gente – é amor e é saudade
geraldo azevedo e cascabulho – na base da chinela
dominguinhos – rato enfrentando gato
elba ramalho – o canto da ema
luiz gonzaga – respeita januário
altamiro carrilho – sofres porque queres

A música originária e emanada do nordeste do Brasil, conhecida como música nordestina, tem em Luiz Gonzaga seu mestre e patrono. Foi ele quem levou para o sul-maravilha o baião e o xote, na década de 30, como ele mesmo conta em um dos seus discos. Aliás, ele mesmo vai contar daqui a pouco pra vocês. Mas, desde então a música nordestina adquiriu vida própria com milhares de apreciadores. E surgiram muitos e muitos intérpretes no decorrer desses 80 anos. Trouxe um punhado hoje e vou rodar uma gravação de alguns deles. Este primeiro é um artista morrense. É morador da terra, autodidata, organizador de bandas de flautas em alguns municípios da chapada, toca instrumentos de tecla e corda, principalmente violão. Ele se chama Cristóvão Cerqueira.

Os baianos são inegavelmente grandes gozadores. No final dos anos 50 e no início dos anos 60, surgiu em Salvador um trio, que fazia sua apresentação em bares da noite. Só que o trio parece que era composto de quatro integrantes: Cobrinha no triângulo, Coroné na zabumba, Lindu e Genaro nos acordeons. Eram três tipos de instrumento mas, na verdade, quatro integrantes. A turma da gozação falava no trio los quatro. Atualmente a formação, pelo que sei, está assim: Luís Mário no triângulo, Beto no acordeon e Coroneto na zabumba. É o Trio Nordestino, que vem fazendo sucesso desde 1958.

A pernambucana, radicada na Paraíba, Inês Cardoso de Oliveira era a combinação de uma cantora de igreja com um seresteiro: sua mãe e seu pai. Tinha, como se diz, a música no sangue. Quando, ainda jovem, participou de um programa de calouros numa rádio e teve o cuidado de acrescentar o Maria antes de Inês. Isto, para que seus pais não percebessem que era ela. O locutor, ao anunciá-la, em vez de Maria Inês chamou Marinês, nome que ela acabou adotando. Marinês e sua gente, é como se chamava o conjunto que consagrou a cantora como a rainha do forró e que tinha seu marido, Abdias, como sanfoneiro e integrante do grupo. Marinês foi uma cantora muito popular em todo o Nordeste e gravou mais de 30 discos em sua carreira.

Outro autodidata, nascido em Petrolina, parede-meia com Juazeiro, é o compositor, cantor e violonista Geraldo Azevedo que, aos 12 anos de idade já tocava violão. Mudou-se aos 22 anos para o Rio de Janeiro onde se associou a Nana Vasconcelos, Nelson Ângelo e Franklin para formar o Quarteto Livre, grupo que acompanhou Geraldo Vandré em seus shows, até dissolver-se em razão de problemas com o governo militar. Também atuou junto com Eliana Pitman, com Alceu Valença e com o grupo Cascabulho, grupo recifense criado em 1995, cujo trabalho inclui a fusão de ritmos tradicionais, tais como o coco, o baião e o maracatu.

José Domingos de Morais, o conhecido Dominguinhos, instrumentista e compositor, nasceu em Garanhuns PE, em 1941. Aos seis anos, com dois irmãos, já tocava sanfona de oito baixos nas portas dos hotéis e nas feiras de Garanhuns, Caruaru e municípios vizinhos. Aos sete anos, foi ouvido por Luiz Gonzaga, que lhe deu seu endereço no Rio de Janeiro. Seis anos depois, indo morar com o pai e o irmão mais velho no subúrbio carioca de Nilópolis. Daí, resolveu procurar Luís Gonzaga e ganhou dele uma sanfona. Entrou assim na vida artística com uma estrela na testa e não é à toa que Dominguinhos é considerado o herdeiro artístico de Luiz Gonzaga. Daí em diante, o sucesso naturalmente foi garantido.

Elba Ramalho, paraibana e filha de músico de filarmônica, de quem herdou o gosto pela música, passou a infância em sua cidade natal. Estudou sociologia, mas abandonou faculdade no último ano para se dedicar ao balé, ao teatro e à música.

O rei do baião, Luiz Gonzaga, nasceu em 1912 e faleceu em 1989, com portanto quase 90 anos. Em 1939 foi para São Paulo, para comprar uma sanfona nova, seguindo depois para o Rio de Janeiro, onde passou então a se apresentar nos bares cariocas do Mangue, tocando [quem diria?] fados, foxes, valsas e tangos em dupla com o guitarrista português Xavier Pinheiro. Atuava também em cabarés da Lapa e em festinhas, além de tocar nas ruas, passando o pires para recolher dinheiro. Depois, começou a participar de programas de calouros, sempre apresentando um repertório de ritmos estrangeiros, sem êxito. Até que, no programa de calouros de Ary Barroso, na Rádio Nacional, cantou o chamego Vira e mexe, obtendo grande sucesso. Quando foi em 1943, na Rádio Nacional, umas das principais divulgadoras de ritmos regionais, em obediência à chamada política de união cultural de Getúlio Vargas, encontrou-se com o sanfoneiro Pedro Raimundo, cujos trajes tipicamente gaúchos faziam grande sucesso. Foi aí que teve a idéia de vestir-se como vaqueiro nordestino. Foi nessa época que recebeu de Paulo Gracindo o apelido de Lua. Tornou-se parceiro do cearenseHumberto Teixeira, com quem estabeleceu o ritmo, o estilo e a temática de uma nova categoria musical: o baião. A parceria com Humberto Teixeira voltou-se para os costumes e a cultura nordestinos e rendeu-lhe alguns dos maiores êxitos de sua carreira,. No fim dos anos 40, passou a compor somente com o estudante de medicina Zé Dantas, uma vez que Humberto Teixeira, eleito deputado federal, deixou a parceria. Suas músicas se tornaram mais politizadas, aqui e ali denunciando o abandono do povo do nordeste. No início da década de 1980, sua carreira ganhou novo impulso, graças principalmente a Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Participou de inúmeras iniciativas em prol dos flagelados pela seca no Nordeste, muitas vezes por conta própria. Em meados da década de 1980, criou a Fundação Vovô Januário, destinada a ajudar as mulheres da cidade de Exu.