Escute o Prosa & Verso 116

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Músicas tocadas neste programa:
joão e josé ribeiro – e o destino desfolhou
carlos galhardo – mais uma valsa, mais uma saudade
gastão formenti – folhas ao vento
albênzio perrone – suave poema de amor
francisco alves – lembro-me ainda
francisco petrônio - tardes de lindóia
carlos josé – sonhei que tu estavas tão linda
onésimo gomes – lua branca
turíbio santos – choro triste

Nos tempos da serenata, das noites de seresta à luz da lua ou, quando muito, dos lampiões as cidades do interior podiam se deliciar com os sons melodiosos dos violões, cavaquinhos, clarinetas e das vozes dos cantores que alegravam e embalavam, sempre ao ar livre, ao sereno, os corações e as mentes dos seus conterrâneos, entoando valsas e canções românticas para suas amadas ou para as mulheres cujos enamorados, mesmo que em segredo, os contratavam para fazer a cantata. Naquela época mais remota, não se cantavam boleros, primeiro porque não eram ainda do gosto das pessoas e, depois, porque o bolero é um ritmo que se presta à dança, com tantas e tão floridas variações e, nas serestas de outrora, não havia lugar nem cabimento para dançar isto que hoje se chama apropriadamente de dança de salão. O bolero é, portanto, um ritmo apropriado para os salões.
Sinto uma lembrança agradável, mas não saudade. Uma lembrança agradável do pouco que eu vivenciei da seresta, ali pertinho, em Mairi, a cidade onde nasci e passei parte de minha infância. Agora, encontro neste programa uma oportunidade de compartilhar das lembranças com os ouvintes do Prosa & Verso. Faz alguns meses, bem no meio da comemoração dos 100 anos de Morro do Chapéu, Dona Eluíza, de família tradicional morrense, também teve suas 80 primaveras festejadas. Rodeada da família e dos amigos, ela entoou com emoção uma valsa que se chama E o destino desfolhou, que vocês estão ouvindo agora como fundo musical.

Esta valsa, E o destino desfolhou, composta em parceria por Mário Rossi e Gastão Lamounier, foi gravada por Carlos Galhardo em 1937. O cantor, cujo nome verdadeiro era Castello Carlos Guagliardi, era de fato argentino, mas viveu e morreu no Brasil. Era alfaiate bem qualificado no Rio de Janeiro e vejo aqui, como em vários outros exemplos, um doublé de alfaiate e músico. Só deixou o ofício, quando decolou sua carreira de cantor, tendo sido apelidado de o rei da valsa.

O tempo, como o vento, seca as lágrimas.
como a água, tudo dissolve.
como o fogo, reduz as coisas a cinzas.
como o sol, tudo esclarece.
Assim começa esta bela e significativa poesia de Constance Virgil. Este embotamento que o tempo se encarrega de fazer bem que pode ser evitado ou minimizado por nosso esforço, registrando nossas memórias para as gerações futuras. Um cantor, de voz suave e muito agradável de se ouvir, está esmaecendo para as novas gerações e duvido que alguém aqui em Morro do Chapéu tenha conhecimento de que um dia ele existiu e até deixou gravadas algumas canções. Seu nome era Gastão Formenti que, além de cantor, também era artista plástico. Nasceu em São Paulo e morreu no Rio de Janeiro aos 80 anos de idade. Como artista plástico também teve destaque e seus quadros foram e são apreciados em museus aqui no Brasil e no exterior. Segundo o site cifrantiga, Gastão Formenti pode muito bem ser considerado um dos grandes cantores brasileiros de todos os tempos, pela voz, interpretação, técnica e repertório.

Outro cantor famoso em sua época e hoje praticamente desconhecido da imensa maioria da população é Albênzio Perrone, nascido na França, mas de pais italianos que migraram para o Brasil quando Albênzio tinha apenas 7 anos e já estava iniciado no canto. Interpretou canções napolitanas, árias e operetas e viajou por diversos estados brasileiros quando fazia parte do Orfeão Português. Como nosso amigo Jomarito, aqui do Morro do Chapéu, abandonou o curso de medicina para se dedicar à música.

E Francisco Alves, o famoso Chico Viola, cognominado O rei da voz? Deste, quem não ouviu falar? Destacou-se por décadas como cantor de músicas de carnaval, com o que fez muito sucesso. Suas gravações fazem parte do acervo cultural da música popular brasileira e, aqui neste programa, já rodei vários exemplares de suas interpretações. Desde fevereiro de 1929, quando fez sua estréia no rádio, seus discos começaram a sair em profusão e sem tardar alcançou o topo do qual jamais saiu até falecer, o que ocorreu em um desastre de automóvel na Via Dutra, quando o Buick que dirigia recebeu o choque de um caminhão na contramão.

Outro Francisco, desta vez Francisco Petrônio, ainda hoje conhecido pelas aparições em programas de televisão nas matinais de domingo, faleceu há dois anos, em São Paulo, cidade onde sempre morou e provavelmente fez muita serenata no bairro do Braz, reduto de italianos, ele, que também era descendente de imigrantes italianos. De voz suave e aveludada, nutria um sonho de infância de ser cantor de rádio, mas antes trabalhou como taxista, até que surgiu sua chance e então deslanchou, ao fazer um teste em um programa da Rádio Tupi, em que foi logo aprovado. Mesmo sendo contemporâneo das gerações mais novas, especializou-se em canções da chamada velha guarda, como valsas, serestas e baladas de compositores brasileiros, que refletiam imagens do passado.

Carlos José, cantor e compositor, nasceu em São Paulo em 1934. Interessado por música desde criança, aos 11 anos aprendeu a tocar violão com a mãe. Estudou na Faculdade de Direito, no Catete. Sua carreira profissional começou em 1957, quando ainda cursava direito: Numa das festas da faculdade, apresentou-se com um conjunto e foi ouvido por Flávio Cavalcanti, que o convidou para participar de seu programa Um Instante Maestro, na TV-Rio. Seu destaque deu-lhe o título de cantor-revelação do ano, concedido pelos cronistas do Rio de Janeiro. O sucesso levou-o a abandonar a advocacia para dedicar-se somente à música, como aconteceu também com Chico Buarque em relação à arquitetura e com muitos outros. Gravou músicas de gêneros diferentes, mas sua tônica ficou nas composições românticas e de seresta.

Não conheço praticamente nada a respeito deste cantor que deixei para o final do programa, pela excelência de sua voz, tão apropriada para o seu pequeno repertório. Digo pequeno repertório, porque só tenho conhecimento de Onésimo Gomes, este é seu nome, ter gravado apenas um único long-play em toda a sua vida. Suponho até que tenha sido um cantor amador, isto é, que tenha cantado mesmo por diletantismo. Já ouvi uma estória de que uma jovem viúva rica ter-se-ia apaixonado por ele após ouvir sua voz e que com ele se casou, exigindo, caprichosa e ciumenta, que ele deixasse a vida artística, o que ele teria feito. Mas não asseguro nada a respeito porque pode ser muito bem uma invenção do imaginário popular. Se algum ouvinte dispuser de alguma gravação da voz de Onésimo Gomes, eu me prontifico a digitalizar o disco de vinil gravando em CD e ainda vou ficar muito agradecido. O disco que tenho ganhei de presente quando ainda tinha uns 20 anos de idade. Conservo bem até hoje, já passei as 12 faixas para mp3 e se algum de vocês desejar, posso trazer todas as músicas que tenho para transmitir no Prosa & Verso.

Boa parte das informações biográficas transmitidas neste programa encontram-se no site cifrantiga e na Enciclopédia da Música Brasileira, disponíveis na internet.