Escute o Prosa & Verso 117

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Músicas tocadas neste programa:
virgínia rodrigues – terra seca
morgana guimarães e jéssica pereira – monocultua, latifúndio, escravidão
rebeca vasconcelos – o feudalismo
seu jorge - trabalhador
martinho da vila – com que roupa
dalva de oliveira - estão voltando as flores
jacob do bandolim - flamengo

É verdade, tenho de concordar, as coisas melhoraram, as coisas têm melhorado aqui no Brasil. E também no mundo. No final do programa vou trazer algumas informações oficiais para você mesmo avaliar. De acordo com pesquisadores da história econômica do mundo, existe uma evolução desde que o homem era escravo do outro homem, até o momento atual, em que o homem é empregado do outro homem. De fato, no passado uma comunidade se armava, invadia outra comunidade e quem ganhasse a guerra tomava os vencidos e os transformava em escravos. Era o tempo em que apenas a força bruta é que resolvia e mandava.

O progresso, digamos assim, da época dos escravos e dos senhores, na antiguidade, até os dias de hoje, de empregados e patrões, passou por várias etapas, nem sempre acontecendo cada uma de uma vez. Comumente, mesmo quando uns países já tinham acabado com a escravidão, outros ainda a utilizaram por muitos anos e até séculos. De um modo geral, depois que o império romano desmoronou, mais ou menos 400 anos depois de Cristo, a escravidão foi pouco a pouco se esmaecendo e os senhores da nobreza tomaram os lugares dos donos do mundo, enquanto que os escravos de mais antigamente passaram a ser os súditos, com variações aqui e acolá, onde às vezes além dos dominadores e dos dominados havia uns como que intermediários, como o senado romano, o parlamento inglês e a comuna francesa. Em outros momentos, os poderosos se vestiam de filhos e herdeiros diretos de Deus e um deles chegou até a proclamar bem alto: L’état c’est moi! Isto é: O estado sou eu! E assim foi. Sem esquecer que isto vai e isto volta, como as ondas do mar, seja na maré enchente, seja na maré vazante. Aliás, estas idas e vindas é que nos sugerem que a história está sempre dando voltas e até afirmam que tudo volta como num eterno retorno. Não há tantos anos assim que o sistema econômico no Brasil era o escravagismo.

Neste trajeto da história, os espertos guerreiros e os mais espertos ainda mercadores foram juntando riqueza e poder, que aliás sempre andaram de mãos dadas. Os reis foram perdendo seus poderes gradativamente para os novos senhores de terras, os senhores feudais da idade média. Então, com esta nova casta, surgiram outras castas que as sustentavam com seu trabalho: os servos que moravam nas grandes propriedades chamadas feudos. Deixaram de ser escravos e passaram a ser servos, o que, apenas em certo sentido, foi outra evolução para melhor. Aliás, a evolução da humanidade para melhor tem sido apenas em certo sentido, mas não em tudo. Séculos após o auge do feudalismo, eis que nascem as aglomerações humanas, os burgos, espécies de embriões das cidades, que surgiram depois. É dos burgos, que são portanto as antigas cidades, formados geralmente em locais onde o comércio era intenso, que surgiu o nome burguês e burgueses. Tomaram os lugares dos donos do poder e, mesmo sem sua aparente pompa e por muito tempo ainda, passaram a ser os donos do mundo. E permanecem aí, comandando o comércio das mercadorias e das finanças. A ganância e a usura, que por muitos séculos a moral cristã tentou refrear e regular, desde então só fez crescer e crescer e crescer. É a época do mercantilismo, que veio a dar, historicamente, na fase seguinte que conhecemos por capitalismo. Como eu já tinha mencionado, as etapas do escravagismo, do feudalismo e do mercantilismo convivem ainda hoje, em muitas partes do mundo, com a fase atual do capitalismo. E aqui, o Brasil, a Bahia e Morro do Chapéu, não são exceções à regra.

Tudo isto pelo que a humanidade tem passado pode e deve ser considerado progresso? Talvez você esteja balançando a cabeça, afirmativamente e pensando: é progresso, sim… Como eu disse há pouco, é progresso, mas somente em certo sentido. Agora aprendemos que o trabalhador é digno do seu salário, embora na prática geralmente não seja assim. O trabalhador é explorado e seu salário não passa de merreca, se comparado aos lucros dos patrões. Faz muito tempo [e bote tempo nisto], que as normas do comércio vem estabelecendo que o ganho dos comerciantes, o chamado benefício, seria justo se compensasse o dinheiro empregado nas mercadorias, os riscos, o transporte, enfim, os custos e mais um tanto para sua sobrevivência e re-investimento. Mas, não! Não é raro se ver que quanto maior o ganho, mais a ganância. Agora é tempo de Natal e a propaganda toma mais fôlego, fica mais agressiva e mais enganadora. Tenha cuidado e não se deixe levar pela lábia. Compre o que você precisa e não o que os outros querem que você compre. Seu dinheiro é suado e pouco. Não seja tolo. Se você compra o que não tem precisão, vai faltar o dinheiro para comprar o que de fato precisa.

Não pensem que estou tentando desestimular o consumo. É consumindo que sobrevivemos e para isto estamos nesta terra: nascemos, vivemos, nos reproduzimos e morremos. Mas há uma grande diferença entre consumo e consumismo. O consumo é necessário. O consumismo é extravagância, é desperdício, é insensatez e imprudência. E é um desrespeito para com os outros, sobretudo para com os menos favorecidos. É também um desrespeito para consigo mesmo, pelo tempo e a energia gastos para ganhar um pouco de dinheiro.

E pra não concluírem que eu disse que nada melhorava, que nada estava melhorando, estou trazendo aqui umas informações que apontam para melhoras em nosso país. Mas continuo dizendo: melhoras, em certo sentido… Prestem atenção. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou, na última quinta-feira de setembro [2009], uma análise dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Portanto, tudo oficial. Segundo o Ipea, para fazer com que todas as famílias pobres do País superassem a linha de pobreza seria necessário apenas 3% da renda nacional ou menos de 5% da renda do quadrante mais rico da população.
O Instituto afirma que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e, em função disso, a extrema pobreza ainda “está muito acima do que se poderia esperar de um país com essa renda per capita”. Entende-se por renda per capita quando o valor da renda de um país é dividido pelo número de habitantes. Renda per capita de uma família é quando a renda total da família é dividida pelo número de pessoas daquela mesma família. Hoje, um brasileiro pertencente ao grupo de 1% mais rico, ou seja, que vive em uma família com renda per capita acima de R$ 4.400,00 por mês, pode gastar em três dias o equivalente ao que um brasileiro do grupo dos 10% mais pobres levaria um ano para gastar.
Em cada 100 brasileiros, apenas 1 dos mais ricos ganha por ano o que 45 dos mais pobres conseguem ganhar.
Quase 50 milhões de pessoas ainda vivem em famílias com renda abaixo de R$ 190,00 por mês. Segundo o Ipea, se a terça parte da renda nacional fosse perfeitamente distribuída seria possível garantir a todas as famílias brasileiras a satisfação de suas necessidades básicas.
Apesar ainda dos grandes contrastes, a análise feita pelo Ipea mostra que o Brasil evoluiu no combate à desigualdade. De 2001 a 2008, a renda familiar per capita da população cresceu 2,8% ao ano. Agora, a diferença está aqui: entre os 10% mais pobres o crescimento foi de 8,1% ao ano, enquanto entre os 10% mais ricos o crescimento foi de 1,4%.
Conforme o Ipea, em 2001, a renda média dos 20% mais ricos era 27 vezes a dos 20% mais pobres. Em 2008, passou a ser 19 vezes. Houve uma redução de 30% na desigualdade em sete anos. A extrema pobreza também foi reduzida à metade de seu valor em 2003. Ainda assim, repito: são melhoras, sim, mas apenas em certo sentido…