Escute o Prosa & Verso 121

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
linda batista – vingança
guilherme arantes – planeta água
maria betânia – atiraste uma pedra
decadência
gabriel o pensador – até quando
fagner – quem viver chorará

Um ouvinte me disse que para entender o Prosa e Verso é preciso estar prestando atenção. Concordo, porque para fazer o programa eu também tenho que prestar atenção no que estou fazendo. Este programa não quer apenas divertir. Quer estimular as pessoas a pensar, a refletir e a conhecer melhor o mundo das idéias em que vivemos. Por isto eu reconheço que o que é falado aqui não é fácil de compreender, se o ouvinte não estiver prestando atenção. Por outro lado, estamos aqui sempre disposto a clarear alguma coisa que ficou obscura. Hoje vamos falar sobre a decadência.
O linguajar de cada ramo do conhecimento é um linguajar próprio que confunde aqueles que nele não foram iniciados. É tradicional a referência, quase com gozação ao linguajar dito economês. É como se fosse outra língua e só os que fizeram incursões por seus estudos é que o compreendem. Mas também o linguajar médico, cheio de ites e oses, não fica atrás. Quando na linguagem comum dizemos que alguém teve um êxito, estamos falando de como se saiu bem. No linguajar médico, se diz que o paciente teve êxito letal, justamente quando sucumbe à doença e morre. Aliás, aqui o linguajar médico segue à risca o sentido etimológico da palavra êxito, que significa saída. E que dizer então do linguajar jurídico, do jargão dos advogados, cheios de suas citações latinas? E os jornalistas, com suas gírias, falam em nariz de cera, em furos, focas e outros termos, cada um mais estranho. Pois bem, os estudiosos da homeopatia distinguem três formas ou fases de doentes, mesmo porque, acertadamente, não consideram a existência de doenças, mas de doentes. Estas três formas ou etapas são chamadas de fase psórica, fase sicósica e fase sifilítica. A primeira e mais branda fase, a psórica é a mais benigna e de tratamento relativamente fácil, de bom prognóstico como se diz. É uma fase de reação favorável, de caminho mais curto para o re-equilíbrio do organismo. A segunda fase, a sicósica, mais grave, é uma fase de decadência, de enfraquecimento, de tendência destrutiva, mas a terceira fase, a sifilítica, é a pior. É a proximidade do fim, a doença fria, degenerativa e que leva a grande sofrimento antes da morte.

Os psicanalistas e os psiquiatras, adotam também um modo de falar que é um verdadeiro dialeto. Os psicanalistas falam em neuróticos, psicósicos e perversos. Os psiquiatras, em neuróticos, psicóticos e psicopatas. Com todas as peculiaridades de cada ramo do conhecimento, há que se admitir que mantêm uma analogia entre si. Assim, aqui ou acolá ouve-se dizer que nossa sociedade está vivendo uma fase sicótica, do jargão da homeopatia. Ouve-se também dizer que o mundo está passando pela fase da perversão e que a nossa sociedade tem fortes traços e manifestações psicopáticas. Em outras palavras, a humanidade está passando por uma etapa francamente destrutiva. E destrutiva de si mesma e do lugar onde todos nós vivemos, esta bola que se chama globo terrestre ou simplesmente terra, com seu ar, suas águas,te terra, com seu ar, suas terrestre ou simplesmente terra, com seu ar, sua antes da morte. seus minerais, sua flora e sua fauna, quer dizer, seus vegetais e seus animais. Embora nadando contra a correnteza, alguns poetas, músicos, artistas e cidadãos tão sensíveis quanto responsáveis vêm denunciando as agressões que fazemos à Natureza e conclamando a todos a fazer cada um sua parte, para preservar o planeta, única morada possível dos nossos filhos, netos, bisnetos e demais gerações que estão chegando e estão para chegar.

De acordo com a teoria psicanalítica, diversas são as formas ou as manifestações da perversão. Ao formular sua teoria, Freud se ateve à questão da libido, energia que os iogues chamam de khundalini e que se refere basicamente à energia sexual. Esta é a razão pela qual os que desconhecem a teoria da psicanálise, as descobertas e os escritos de Freud, aqueles que enfim desconhecem Freud e dele somente ouviram falar, tendem a banalizar e a dizer que Freud só pensava em sexo, o que é de um simplismo tão tolo e pobre que dá vergonha. Como eu dizia, das várias formas como se manifesta a perversão, o sado-masoquismo ocupa um lugar de destaque, se é feita uma analogia entre o que ocorre com o indivíduo e o que ocorre com a sociedade atual. Em outras palavras, parece que estaríamos vivendo uma época a um tempo sádica e masoquista, como duas faces de u’a mesma moeda: Engana, engana-se e se deixa enganar. Maltrata, maltata-se e se deixa maltratar. Sem esquecer que o inferno é sempre o outro. É sempre o outro o culpado, é sempre o outro que merece o castigo. Nós mesmos, não.

O processo, entendido pela homeopatia, da passagem da fase psórica à fase sicósica e daí à fase sifilítica, sempre em direção à degeneração e à morte do indivíduo, de certa forma talvez se aplique também à sociedade. Dizer que vivemos numa sociedade sicósica equivale muito bem a dizer que estamos vivendo mesmo é numa franca decadência. Dom Hélder Câmara me disse uma vez que não via outra saída para o mundo, na direção em que estava indo, a não ser por um milagre. Eu acredito em milagres, porque o acaso faz milagres e penso, como pensava Demócrito na Grécia antiga, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Eu mesmo tenho visto milagres aqui e ali, frequentemente. Mas o fato é que estamos vivendo uma franca decadência, em praticamente todos os níveis. Como este é um programa radiofônico, podemos ouvir a decadência da música. Isto me faz lembrar de um conjunto de slides que recebi pelo correio eletrônico, pelo email, já faz um tempo. Vou passar pra vocês a parte de áudio, tal como chegou pra mim. O nome é decadência.

Às vezes a falta de educação faz com que uma pessoa se comporte sem civilidade. Mas, em geral, a falta de ética, a falta de respeito para com o outro, o descaso e a conduta fora da lei são indícios de traços psicopáticos, sendo que o psicopata propriamente dito se coloca acima da lei, acima do bem e do mal e acima de todos os outros humanos. Em geral também só temem os castigos e a repressão e alguns deles nem mesmo os castigos temem. Finalmente, diante de tantas aberrações, aberrações nossas e aberrações do mundo, será que devemos ficar de braços cruzados e deixar que a correnteza nos carregue? De que vale a vida? de que valeu a vida de cada um de nós? De que está valendo nossa vida, se apenas cruzamos os braços e nos deixamos levar pela correnteza? A correnteza da ganância, do acumular riquezas, da competição em que pisamos uns nos outros… A correnteza de nos comportarmos tão perversamente, que em algum momento nos olhamos e nos perguntamos: estou sendo ético? Estou sendo honesto? E nos pomos em dúvida… E até pensamos que não passamos, como a sociedade que nos incorpora, de masoquistas e sádicos… Até quando? Pergunta o poeta, Gabriel o pensador. Até quando, pergunto eu, perguntamos nós?