Escute o Prosa & Verso 122

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Músicas tocadas neste programa:
adoniran barbosa – despejo na favela
angela maria e cauby peixoto – ave maria do morro
wilson simonal – o morro não tem vez
ciro monteiro – chora, coração
dorival caymmi – eu não tenho onde morar
velha guarda da portela – onde a dor não tem razão
anjos do inferno – brasil pandeiro

Frequentemente nós ouvimos falar em saúde coletiva. Profissionais da saúde [ou da doença, se preferirem] estão muitas vezes voltadas para as chamadas ações de saúde, no sentido de evitar ou prevenir doenças geralmente contagiosas. Aqui em Morro do Chapéu, a Secretaria de Saúde mantém, em parceria com os governos estadual e federal, programas específicos de controle e prevenção de, por exemplo, diabetes, hipertensão, tuberculose e outros mais. Em alguns municípios, existem programas de planejamento familiar, de saúde mental, de controle de doenças infecciosas. Além disto, outras ações são exercidas, sem o caráter especial dos programas citados [e neste caso, com a supervisão quase que direta do próprio Ministério da Saúde, em que a vigilância sanitária, o controle ambiental, o controle da qualidade dos alimentos e dos medicamentos são exemplos]. Se algum ouvinte quiser conhecer maiores detalhes destas ações, pode dirigir-se à Secretaria de Saúde para se informar. Como vocês bem sabem, existe um conselho de saúde no município, que pode também esclarecer as pessoas, como também ouvir suas opiniões, críticas e sugestões.

O que seria mesmo isto de saúde coletiva. Facilmente podemos achar que a saúde coletiva é o mesmo que o resultado da soma de todas as pessoas saudáveis de uma localidade. Que a saúde coletiva seria o resultado, portanto, da saúde individual, isto é, da saúde de cada um. Mas não é bem assim, porque a saúde de cada uma pessoa diz respeito apenas ao seu corpo ou no máximo aos corpos daqueles que moram na mesma casa. Mas a saúde coletiva é algo mais do que isto. Um grupo de pessoas com boa saúde física e sem distúrbios mentais pode reunir-se e praticar atos violentos e destrutivos. Podemos dizer que este grupo tem boa saúde coletiva? Ali, ninguém está doente, ninguém freqüenta hospital, posto médico ou qualquer serviço de atendimento. Mas, certamente, tal grupo não goza de saúde coletiva. Porque a saúde coletiva compreende não só o bem-estar físico da maioria, mas também o bem-estar mental e psicológico das pessoas e, principalmente as relações saudáveis e construtivas entre os membros da coletividade. Então, uma população onde uns são dominados por outros, uns têm direito a morada, a alimentação, a agasalhos enquanto que os outros vivem precariamente, não pode ser aceita como tendo saúde coletiva. Uma coletividade onde uns exploram os outros, usam e abusam de sua força física, de sua arrogância, uns são gananciosos em detrimento dos demais, onde falta o respeito e a consideração mútua, onde uns poluem o ar que todos respiram, as ruas outros moram e andam, a água que outros bebem, poluem com ruídos agressivos e incomodativos, bombas, foguetes exagerados, sons em alto volume, acima do que os ouvidos e mentes normais podem suportar, não pode ser uma coletividade saudável.

A saúde coletiva é um fator bem mais importante do que a saúde individual, porque atinge muito mais gente e torna suas vidas mais sofridas e infelizes. É um direito de todos e seu prejuízo é uma agressão a si mesmo e ao próximo. Muitas ações agressivas à saúde coletiva têm-se tornado proibições legais até passíveis de punições, como fumar em ambientes coletivos, vender e dar bebidas alcoólicas a menores de idade, ligar volumes altos, acima dos decibéis permitidos e assim por diante. Como vocês podem entender facilmente, medidas necessárias para se conseguir um nível de saúde coletiva satisfatório são medidas que competem`não apenas aos setores ligados à saúde propriamente dita, mas também, com a mesma responsabilidade, aos setores ligados à justiça e à segurança dos cidadãos. Que é que está faltando para nós em Morro do Chapéu? As leis existem, as autoridades existem, as informações e avisos existem. Ninguém pode alegar: “eu não sabia…” Agora eu pergunto, pra que alguém que saiba responda: Se as pessoas que desobedecem a lei e cometem infrações, contravenções e até crimes contra o bem-estar coletivo não são reprimidas e punidas, como ficarão os demais cidadãos incomodados? E como ficarão as crianças e adolescentes diante dos exemplos dos adultos transgressores? As autoridades, mas também os adultos em geral, são os modelos presumíveis a serem seguidos pelas crianças e pelos adolescentes, que daqui a pouco estarão se tornando adultos e cidadãos da terra. Pelo visto, a sociedade estará se deteriorando e, digamos, voltando aos tempos da barbárie, onde a força bruta, a falta de civilidade e o poder da maldade é que vão imperar.

Como vocês devem estar observando, as músicas que eu trago para o programa de hoje parecem nada ter a ver com o assunto tratado. E de fato nada têm a ver, a não ser que estou trazendo através delas o tema favela. Naturalmente, favela é a denominação carioca para os arredores, as periferias, onde moram os mais desfavorecidos da sociedade.

Enquanto isto, vamos escutar mais uns sambas de categoria, que é o mínimo que posso fazer agora. Afinal ´samba nasceu nas periferias das cidades e costumam refletir os sofrimentos, as aspirações e também a milagrosa alegria daquela gente. Como então podemos dizer que isto nada tem a ver com saúde coletiva?

A favela do rio tem seu correspondente em todas as cidades brasileiras. Em Salvador, se chama de alagados ou invasões. Aqui, embora não tenha um apelido, todos nós conhecemos onde fica este setor de habitação que, apesar do direito humano de morar, está muito longe do mínimo que um ser humano precisa.