Escute o Prosa & Verso 123

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Músicas tocadas neste programa:
linda batista - vingança
maria bethânia – atiraste uma pedra
noite ilustrada – volta por cima
raul seixas – tente outra vez
porfírio costa - passou

Cada um de nós, individualmente, tem seus próprios limites. Não somos iguais, como os dedos da mão não são iguais. Cada pessoa tem sua capacidade de aprender, sua capacidade de realizar, sua capacidade de construir alguma coisa e também sua capacidade de enganar os outros, como tem sua capacidade de tolerar os erros dos outros. Na Bíblia, fonte quase inesgotável de sabedoria, aqui e ali a gente encontra sugestões, conselhos, caminhos por onde seguir. Existe um livro na Bíblia que se chama Eclesiastes, um dos textos de maior sabedoria que eu já conheci. Pois bem, contam os evangelhos que alguém perguntou ao moreno de Nazaré quantas vezes se devia perdoar uma pessoa que tenha errado. Está lá escrito que Jesus, o galileu, o moreno de Nazaré, respondeu que, de acordo com as leis religiosas do seu povo, uma pessoa deveria ser perdoada sete vezes, mas que, na opinião dele, o perdão deveria ser dado tantas vezes quantas fossem necessárias. Na sua maneira figurada de falar, ele disse: Não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete. De acordo com a linguagem e o costume da época, isto queria dizer não somente 490 vezes, que são sete vezes sete, mas a maior quantidade possível. É assim que os estudiosos daqueles escritos antigos interpretam.

É verdade que os conselhos de Jesus são bonitos e ideais. Às vezes me parecem conselhos para que os seus seguidores se tornem perfeitos ou se aproximem da perfeição. Tenho a impressão de que são conselhos praticamente impossíveis de seguir e me pergunto por que razão Jesus, uma pessoa tão sábia teria dado conselhos tão distantes do que um ser humano pudesse de fato experimentar viver. Ele próprio, tão tolerante que era, teria dado demonstração, talvez, de que até mesmo a tolerância tem limites. E um dia se armou de cordas que encontrou na feira e caiu em cima dos ladrões e mentirosos que comercializavam na porta do templo, enganando e explorando as pessoas, principalmente as pessoas mais simples. Acontece que nós humanos somos naturalmente imperfeitos, naturalmente egoístas, naturalmente destrutivos. Eu digo “naturalmente”, no sentido bem próprio da palavra, porque somos assim desde que nascemos. Melhor dizendo, somos assim de nascença. Por natureza, portanto. E só podemos melhorar com esforço, no decorrer da vida. É bom que caminhemos cada dia para mais perto da perfeição, mas é melhor que estejamos bem atentos que a perfeição é inatingível para nós humanos.

Sabem quem mais erra? Quem mais erra é quem mais arrisca, quem mais experimenta, quem mais faz tentativas. Mas também é quem menos confia. Porque a experiência dos outros pode muito bem servir para nós. Os erros que outros cometeram podem servir de alerta para nós. É bem verdade que errando é que se aprende. É triste não ir, por medo dos caminhos. Mas pode ser desastroso não aprender com os erros já cometidos, mesmo os cometidos por outras pessoas. Tudo isto que falei até agora é para comentar o comportamento dos adolescentes, um comportamento típico de quem não conhece a vida mas acha que já sabe tudo. Por isto os adolescentes erram tanto. Aprender com o erro é uma vitória. Mas aí vem a questão. É comum que adolescentes tomem escorregões, dêem topadas, caiam e se machuquem. E as machucaduras costumam deixar cicatrizes feias ou doloridas. Mas isto é adolescência, minha gente! Isto tem um tempo na vida de todos nós. Um dia a adolescência deve acabar e então nos tornamos adultos, mais ajuizados e aí estaremos sabendo com clareza o que é o certo e o errado, para cada pessoa, cada momento, cada lugar e cada circunstância. Isto é o que se chama discernimento, isto é o que se chama sabedoria. Por esta razão, frequentemente se diz que a sabedoria é irmã do envelhecer, porque envelhecendo temos a chance de repensar o que aprendemos e experimentamos na vida. E repensando, refletindo, reavaliando nossas vidas, nossos comportamentos, reavaliando o que fizemos e o que pensamos, os erros e os acertos em que incorremos, é assim que podemos amadurecer e nos tornar menos tolos, menos vaidosos, menos intolerantes e talvez mais sábios ao descobrirmos que não sabemos nada ou quase nada. Mesmo que com uma certa dose de melancolia, de desapontamento, até de tristeza. Mesmo que isto nos faça chorar um pouco. Afinal, não me canso de achar que um chorinho não faz mal a ninguém. Um pouco de recolhimento, uma pitada de tristeza bem que pode nos fazer mais mansos, menos arrogantes… Um velho provérbio da sabedoria japonesa nos ensina que “sofrer faz o homem pensar, pensar faz o homem sábio, a sabedoria o faz tolerante e a tolerância o faz feliz”.

Mas, cuidado! Também a tolerância tem limites, não se esqueçam disto. Lembram daquele moreno de Nazaré, com seus conselhos de tolerância quase infinita, mas que, ele mesmo, em alguns momentos, cheio de ira, agrediu os outros? Além daquela estória dos mercadores ladrões da porta do templo, caiu em cima dos religiosos hipócritas, com palavras ásperas e agressivas, chamando-os de “raça de víboras, sepulcros caiados, por fora tão enfeitados e bem cuidados e por dentro somente podridão e fedor…” E daquela outra vez em que seu amigo Pedro, bem mais velho do que ele, que se achando mais prudente, e não entendendo bem os planos de Jesus, amarelou diante do perigo que pressentia em Jerusalém durante as comemorações da páscoa? Pois, ouviu o xingamento pesado e agressivo da própria boca Jesus: “Se afaste de mim, Satanás!” Xingamento que hoje não diz nada, mas que naquela época fazia qualquer um estremecer de medo e horror… Um xingamento que mais parecia uma condenação… Na certa a intolerância é um mal que está plantado em cada um de nós. É a intolerância que nos faz largar de mão pessoas que erraram mas que não tem a menor condição de andar sozinhos pelas estradas da vida, como são os adolescentes, nossos filhos, amigos, conhecidos e vizinhos. Temos que aprender a ser tolerantes, com limite, é claro. Ser tolerante não é fechar os olhos para os erros e até estimular os mais jovens a errarem. Não é não. Ser tolerante é estar por perto, saber acolher aquele que erra, sem ser conivente nem ser cúmplice no erro. Pelo contrário, é usar daquele recurso tão incômodo mas tão útil e amoroso que é a crítica. Relembrando, criticar não é botar gosto ruim, não é jogar praga, Não é humilhar, não é depreciar, maltratar. É ser verdadeiro, sincero e enérgico. É acender uma luz no escuro da alma do outro, para que ele não continue tropeçando em pedras ou caindo em buracos que machuquem, maltratem ou destruam.

E, como escreveu Francisco Otaviano, em seu poema Ilusões da Vida,
Quem passou pela vida em brancas nuvens
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem.
Só passou pela vida… não viveu.