Fevereiro 2010


Escute o Prosa & Verso 127

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Músicas tocadas neste programa:
juca chaves – que saudade
dick farney - a saudade mata a gente
funeral de um rei nagô
djarumami – galo bedjo
nilo amaro e os cantores de ébano – azulão
miltinho - lembranças
amália rodrigues – ai mouraria
nelson gonçalves e maria bethânia - caminhemos
altamiro carrilho e maria teresa madeira – meu primeiro amor

Saudade… É apenas uma palavra. Mas ela expressa um sentimento lá de dentro, um sentimento sofrido, melancólico, dolorido e tristonho. É incrível que a palavra para dar nome a este sentimento, misto de solidão, de falta, de ausência, só exista em apenas três línguas: português, gallego e romeno, três línguas irmãs, todas filhas do latim. Você sabia disto? Pois, saudade, na língua portuguesa, morrinha, em gallego, língua da Galícia no noroeste da Espanha e durere, na língua romena.
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Escute o Prosa & Verso 126

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Músicas tocadas neste programa:
quatro ases e um coringa – o dinheiro que ganho
chico buarque – deus lhe pague
beth carvalho – velho ateu
gabriel o pensador e fundo de quintal - boca sem dente
ataulfo alves - amélia
altamiro carrilho – cinco companheiros

As crianças, e também muitos adultos, ainda pensam que os humanos sempre foram como são hoje. Que sua maneira de se relacionar, de comer, de vestir, de morar, de se organizar vem assim desde que o mundo é mundo. Desde que o homem deixou de ser macaco, e isto demorou mais tempo do que estes milhares de anos em que o homem se reconhece como humano. Mas nem sempre fomos como somos hoje. Nem mesmo, como dizia, é a mesma nossa maneira de nos relacionarmos uns com os outros, não é o mesmo o modo como nos alimentamos, como vestimos, como moramos e também como nos organizamos em grupos. Antes de aprenderem a pensar, nossos antepassados já tinham descoberto, pelo próprio instinto, que não seria possível os homens viverem sozinhos, isolados uns dos outros. Que precisavam se unir, uns aos outros, para sobreviver diante de tantas ameaças externas, inclusive a ameaça de outros humanos. Ao se organizar em grupo, a espécie humana passou a caçar, a ter sua moradia, a plantar, quase sempre em mutirão, produzindo assim tudo o necessitavam para sobreviver. Um dia, as famílias e os pequenos grupos humanos não foram mais capazes de produzir tudo o que precisavam para sobreviver e os homens aprendeu a trocar aquilo que produziam e que lhes sobrava. Assim, muito tempo depois, e bota tempo nisto, passaram ver que não conseguiam produzir tudo o que precisavam. Então, foi assim que surgiram as trocas. Digamos que uma tribo tinha mais habilidade na caça e que outra tinha mais habilidade em fazer agasalhos. Naturalmente, a troca surgiu e, com ela, a divisão do trabalho. Isto foi evoluindo, portanto, até os nossos dias, com toda a complexidade em que vivemos hoje. Mas houve um momento em que os objetos de troca eram grandes e pesados demais para ser carregados e alguém teve a brilhante idéia de inventar a moeda, o dinheiro. A moeda, o dinheiro, por si só, não vale nada. Ele vale pelo que representa. E o que representa é o poder de compra. É isto que voga até hoje.
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Escute o Prosa & Verso 125

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Músicas tocadas neste programa:
jorge veiga – café soçaite
maria bethânia – último desejo
chico buarque – geni e o zepelim
nora ney – ninguém me ama
yamandu e dominguinhos - molambo

Nas últimas duas semanas, temos tratado aqui no Prosa & Verso de questões ligadas basicamente aos adolescentes e na semana passada fizemos alguns comentários sobre a preocupação que os jovens têm com a imagem que passam para os outros. Sua necessidade de afirmação, como se costumava dizer faz algumas décadas. Mas não somente os jovens. Quase todos nós nos preocupamos com a imagem, com a opinião dos outros. E a imagem que tentamos passar para as pessoas em redor da gente quase sempre é u’a imagem falsa, enganosa e faz parte do mundo em que a gente vive, cheio de hipocrisia e falta de amor à verdade. Assim é com os pais, assim é com os professores, assim é que frequentemente ensinamos aos nossos jovens, assim é com a sociedade em geral. Vocês já se deram conta de que quando vamos à igreja vestimos nossas melhores roupas? Que tem isto a ver, afinal, com o espírito religioso? Tem muito mais a ver, creio eu, com a impressão que queremos passar aos outros, com a imagem social que pretendemos impor aos outros. Vocês me dirão: Mas é o costume!… Certamente que é o costume. Porque nos acostumamos a um mundo que não preza a verdade, mas preza a pose, a aparência. Nós vivemos representando, como se o mundo fosse um teatro. Então desempenhamos papéis. Mas isto não significa nem justifica que nossos desempenhos, nos desempenhos de nossos papéis, sejamos impostores e enganosos para com os outros. Por causa da hipocrisia em que vivemos mergulhados é que escondemos nossos defeitos, tentamos encobrir nossos erros, ao invés de os admitirmos e de nos empenharmos em corrigi-los. As regras de convivência social nos obrigam a proceder de modo diferente, conforme estejamos dentro de nossas casas ou nos lugares públicos. Conheci u’a mulher que desprezava a vida privada, a ponto de jamais tirar os sapatos de salto alto, mesmo quando estava sozinha dentro de sua casa. Só os tirava para dormir, dizia ela. No dizer dela, não queria ficar desacostumada dos sapatos altos. Entrou na política e foi até prefeita de uma cidade baiana. Nunca se casou nem sequer se relacionou amorosamente com alguém. Vivia para manter sua imagem social. Era apenas um exagero daquilo que nós costumamos fazer.
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Escute o Prosa & Verso 124

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Músicas tocadas neste programa:
chico buarque e moreira da silva – doze anos
roberto silva - escurinho
maria bethânia - uma canção desnaturada
onésimo gomes - pierrot
aracy de almeida – rapaz folgado
altamiro carrilho – chorinho didático nº 5

Os adolescentes, como já tenho mencionado aqui algumas vezes, vivem a contestar tudo e todos. Muitos deles são rebeldes sem causa, como bem define o título no Brasil do filme de Beth Schacter. Pois bem, convivemos com adolescentes há tanto tempo, inclusive com nossa própria adolescência, que já era de esperar termos aprendido e até prevermos como eles se comportam. Aliás, o nome do filme, no original americano, pode ser traduzido como Comportamento Normal dos Adolescentes. Acontece, porém, que os adolescentes são mesmo imprevisíveis, como são imprevidentes, ou talvez por isso mesmo: são imprevisíveis porque são imprevidentes. Carregam a curiosidade natural da infância, só que suas experiências se tornam bem mais arriscadas e perigosas. E acabam cometendo erros aberrantes e algumas vezes desastrosos e fatais. Dizem que Deus protege de modo especial as crianças e os loucos. E também na certa os adolescentes. Tem gente que chama os adolescentes de aborrecentes. Como vamos ficando mais susceptíveis e irritadiços com o passar do tempo, temos a impressão de que os adolescentes que estão por perto são piores do que nós mesmos fomos e piores do que os outros que conhecemos no decorrer de nossas vidas. Mas isto é só impressão, porque nossa memória é curta e seletiva. E nos esquecemos do que aprontamos em nosso tempo. Apesar de estar atento para este fato, minha tendência é dizer que agora é pior do que foi antes. O pavio vai ficando curto. A rebeldia incomoda, a irreverência incomoda, a barulheira incomoda… É verdade… Mas isto tudo não justifica que os pais se voltem contra seus filhos adolescentes, porque parecem indomáveis, incorrigíveis e definitivamente perdidos. Não é bem assim. O que os pais têm que fazer é não perder sua estribeira e estar por perto e disponíveis para quando eles, os abomináveis adolescentes, escorregarem, tropeçarem, caírem e quebrarem a cara. Nessa hora é que podemos ajudá-los e, como diz Rubem Alves, juntar os cacos. É o que podemos fazer, lembrando com amargura o que tantas vezes nos disseram nossos pais: quem não ouve conselho, ouve lamento…
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