Escute o Prosa & Verso 124

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Músicas tocadas neste programa:
chico buarque e moreira da silva – doze anos
roberto silva - escurinho
maria bethânia - uma canção desnaturada
onésimo gomes - pierrot
aracy de almeida – rapaz folgado
altamiro carrilho – chorinho didático nº 5

Os adolescentes, como já tenho mencionado aqui algumas vezes, vivem a contestar tudo e todos. Muitos deles são rebeldes sem causa, como bem define o título no Brasil do filme de Beth Schacter. Pois bem, convivemos com adolescentes há tanto tempo, inclusive com nossa própria adolescência, que já era de esperar termos aprendido e até prevermos como eles se comportam. Aliás, o nome do filme, no original americano, pode ser traduzido como Comportamento Normal dos Adolescentes. Acontece, porém, que os adolescentes são mesmo imprevisíveis, como são imprevidentes, ou talvez por isso mesmo: são imprevisíveis porque são imprevidentes. Carregam a curiosidade natural da infância, só que suas experiências se tornam bem mais arriscadas e perigosas. E acabam cometendo erros aberrantes e algumas vezes desastrosos e fatais. Dizem que Deus protege de modo especial as crianças e os loucos. E também na certa os adolescentes. Tem gente que chama os adolescentes de aborrecentes. Como vamos ficando mais susceptíveis e irritadiços com o passar do tempo, temos a impressão de que os adolescentes que estão por perto são piores do que nós mesmos fomos e piores do que os outros que conhecemos no decorrer de nossas vidas. Mas isto é só impressão, porque nossa memória é curta e seletiva. E nos esquecemos do que aprontamos em nosso tempo. Apesar de estar atento para este fato, minha tendência é dizer que agora é pior do que foi antes. O pavio vai ficando curto. A rebeldia incomoda, a irreverência incomoda, a barulheira incomoda… É verdade… Mas isto tudo não justifica que os pais se voltem contra seus filhos adolescentes, porque parecem indomáveis, incorrigíveis e definitivamente perdidos. Não é bem assim. O que os pais têm que fazer é não perder sua estribeira e estar por perto e disponíveis para quando eles, os abomináveis adolescentes, escorregarem, tropeçarem, caírem e quebrarem a cara. Nessa hora é que podemos ajudá-los e, como diz Rubem Alves, juntar os cacos. É o que podemos fazer, lembrando com amargura o que tantas vezes nos disseram nossos pais: quem não ouve conselho, ouve lamento…

Uma escritora brasileira chamada Tânia Zagury, Mestra em Educação, sinalizou em seu livro Encurtando a Adolescência, que muitas pessoas esticam suas adolescências para além do tempo apropriado. São adolescências espichadas. Essas pessoas permanecem com o mesmo comportamento adolescente até depois dos trinta anos ou bem mais. Quem não conhece gente assim? Uns mais outros menos, ficam dependentes dos pais ou transferem sua dependência para seus companheiros. Recusam-se a se tornar adultos, mesmo que se casem e pareçam ter uma vida normal. Chegue perto que você vai ver que ali está um meninão, um adolescente fora de época, temporão. Mas estou falando hoje é de adolescentes, propriamente ditos. Quando os pais não se prepararam para ter filhos e não construíram suas competências para gerenciar suas próprias vidas, acabam se portando em relação aos filhos também de forma imatura e isto só faz agravar tudo o que já é conflitante pelo simples fato de a adolescência ser em si um momento confuso e difícil. Os erros cometidos pelas crianças e
pelos adolescentes devem ser encarados de forma muito diversa do que os erros cometidos pelos adultos. Mas, em nenhum dos casos, deve-se passar a mão pela cabeça e dar aos jovens a impressão de que concordamos com seu modo de proceder, de que os apoiamos no que fizerem de errado. Os adolescentes, com sua sede de liberdade, expandem seus limites, como se esticassem uma corda até o máximo. E cabe aos adultos dar os limites adequados, antes que a corda quebre.

Qual é o tempo de educar? As possibilidades de aprender as noções básicas da cidadania e da civilidade vão diminuindo progressivamente com o passar dos anos. Ouve-se muito dizer que papagaio velho não aprende a falar, como também se ouve que pau que nasce torto não tem jeito, morre torto. Não são regras e muito menos leis. Mas há uma certa verdade nisto. Apesar de tudo, podemos continuar aprendendo até morrer, mesmo com idade avançada, mas não é o mais comum. Tenho visto adolescentes que nem bem têm um fio de barba e se acham os sabidos, os maiorais, que pensam que sabem tudo e até que tudo podem. Mas também tenho visto pessoas mais velhas que vaidosa e arrogantemente não dão espaço para novos aprendizados. E ainda acham que já sabem tudo da vida… Um dia desses eu vi u’a mãe, com formatura e tudo, dar a maior baixa na filha adolescente, na presença de todo mundo, jogando em sua cara, em alta voz, os erros da moça que nem tinha deixado ainda de ser menina. Aquilo me pareceu nocivo, porque não era uma crítica, não era nem uma repreensão, mas uma exposição da filha, uma desmoralização, uma depreciação, sem a menor necessidade. E estava em público. Pode-se até entender o que se passa com u’a mãe ou um pai naquela situação. Pode-se entender, mas não justificar. Em resumo, aquela mãe, ao agir assim como agiu, estava se colocando no mesmo nível de imaturidade que sua filha de 14 anos. E destilou, em público, o que poderia até ter feito reservadamente, mas destilou em público toda a sua amargura e seu ódio à filha, ódio que me pareceu mais uma rixa com a garota. O que seria afinal que ela estava disputando com a adolescente de 14 anos?

Ouvi recentemente de um jovem de 17 anos que era preciso se preocupar com a imagem e que por esta razão tinha que demonstrar para os outros o quanto era capaz, preparado e firme. Ele me disse que não podia nem devia demonstrar dúvidas sobre nada nem fraqueza, nem medo. Disse que lhe ensinaram isto e que seria desta forma que iria vencer na vida. Não questionei onde lhe ensinaram tanta bobagem, se foi em casa, se foi na escola ou talvez na TV ou no cinema. Este jovem inteligente e bem preparado na escola, educado e criativo, estava amordaçado por um ensinamento perverso que lhe imprimiram. Assim, em todos os assuntos sobre os quais conversamos, ele tratava logo de expressar a opinião dos professores ou das outras pessoas que ele conhecia. Mas, sua própria opinião ele escondia, com vergonha de que eu não fizesse uma boa imagem sua. Senti pena do garoto. Deve ser um tormento viver preocupado em se esconder atrás de palavras e idéias que não sejam suas, sempre mostrando uma imagem falsa a seu respeito. Isto se chama vaidade e o vaidoso é o que tem medo ou vergonha de ser o que é. E sofre por causa disto. Ocorre que há outros jovens, assim como este, que se envergonham da imagem que têm de si próprios. Então muitas vezes enveredam pelo caminho da impostura, da mentira, do engano, da desfaçatez, enquanto que o próprio comportamento acaba aqui ou acolá mostrando o que de fato ele realmente é. Uma coisa é a pessoa, outra coisa é sua fama. Infelizmente a fama costuma chegar antes da pessoa e a fama é a imagem que os demais têm dele. Tudo isto me soa muito triste, porque de um modo ou de outro a verdade fica sempre escondida, como um lixo atrás de uma porta ou debaixo de um tapete e que mais cedo ou mais tarde vai aparecer e às vezes feder.

Esta preocupação dos jovens com sua imagem pode parecer uma coisa boa. E de fato é, porque é através do olhar do outro que nos reconhecemos. Mas olhem que é uma faca de dois gumes: Quando seguimos alguém a quem admiramos e confiamos, temos uma tendência a imitá-lo no comportamento, em aprender dele o modelo para formarmos nossa própria personalidade e isto não é mau. Pelo contrário, isto é uma forma de nos guiarmos em direção a um aprendizado construtivo. Mas, antes, é preciso ter um alicerce que nos dê condições de, mesmo precariamente, distinguir entre o que se pode, o que se deve, daquilo que não é apropriado. Isto se chama cultura e é através da cultura, do que se cultiva no espírito, que vamos polindo e melhorando o que a natureza nos dá como pedra bruta. O problema é que, quando somos adolescentes julgamos que se já não somos mais crianças, então somos adultos, que tudo sabemos e que nada mais a aprender. Daí passamos a fazer tudo para nos afirmar como livres e possantes perante os outros. Isto é, para fazer crer os outros que somos livres e possantes. Mas, quem são esses outros? Às vezes esses outros são tão tolos como nós e não sabem onde têm o nariz. Esses outros não passam de galhofeiros que impressionam seus colegas adolescentes. E é para esses, justamente para esses, que muitos adolescentes tentam passar u’a imagem que agrade. E não pode mesmo ser uma boa imagem. Só um fora-da-lei aprecia outro fora-da-lei.