Escute o Prosa & Verso 125

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Músicas tocadas neste programa:
jorge veiga – café soçaite
maria bethânia – último desejo
chico buarque – geni e o zepelim
nora ney – ninguém me ama
yamandu e dominguinhos - molambo

Nas últimas duas semanas, temos tratado aqui no Prosa & Verso de questões ligadas basicamente aos adolescentes e na semana passada fizemos alguns comentários sobre a preocupação que os jovens têm com a imagem que passam para os outros. Sua necessidade de afirmação, como se costumava dizer faz algumas décadas. Mas não somente os jovens. Quase todos nós nos preocupamos com a imagem, com a opinião dos outros. E a imagem que tentamos passar para as pessoas em redor da gente quase sempre é u’a imagem falsa, enganosa e faz parte do mundo em que a gente vive, cheio de hipocrisia e falta de amor à verdade. Assim é com os pais, assim é com os professores, assim é que frequentemente ensinamos aos nossos jovens, assim é com a sociedade em geral. Vocês já se deram conta de que quando vamos à igreja vestimos nossas melhores roupas? Que tem isto a ver, afinal, com o espírito religioso? Tem muito mais a ver, creio eu, com a impressão que queremos passar aos outros, com a imagem social que pretendemos impor aos outros. Vocês me dirão: Mas é o costume!… Certamente que é o costume. Porque nos acostumamos a um mundo que não preza a verdade, mas preza a pose, a aparência. Nós vivemos representando, como se o mundo fosse um teatro. Então desempenhamos papéis. Mas isto não significa nem justifica que nossos desempenhos, nos desempenhos de nossos papéis, sejamos impostores e enganosos para com os outros. Por causa da hipocrisia em que vivemos mergulhados é que escondemos nossos defeitos, tentamos encobrir nossos erros, ao invés de os admitirmos e de nos empenharmos em corrigi-los. As regras de convivência social nos obrigam a proceder de modo diferente, conforme estejamos dentro de nossas casas ou nos lugares públicos. Conheci u’a mulher que desprezava a vida privada, a ponto de jamais tirar os sapatos de salto alto, mesmo quando estava sozinha dentro de sua casa. Só os tirava para dormir, dizia ela. No dizer dela, não queria ficar desacostumada dos sapatos altos. Entrou na política e foi até prefeita de uma cidade baiana. Nunca se casou nem sequer se relacionou amorosamente com alguém. Vivia para manter sua imagem social. Era apenas um exagero daquilo que nós costumamos fazer.

Uma coisa é certa: em nossas casas, na intimidade, na vida privada, temos certas regalias que não temos no ambiente social. Por exemplo, em casa podemos falar o que queremos a respeito de qualquer pessoa, mesmo de uma autoridade. No ambiente social, isto não é possível ou pelo menos não é adequado. Há uma diferença entre a opinião pessoal e a opinião profissional. Há médicos, advogados e até juizes que têm sua opinião favorável ao aborto por exemplo. Pessoalmente, podem ter esta opinião. Mas profissionalmente, não, porque têm que se submeter às normas da profissão que, no caso da medicina, advocacia e da magistratura, são francamente proibitivas no que concerne ao aborto. Então, se um juiz, na copa de sua casa, entre seus amigos, expressar sua aprovação à legalização do aborto, isto nunca deve nem deveria ser usado para divulgar-se como ponto de vista profissional deste juiz. O mesmo acontece com qualquer outro cidadão, neste assunto como em outro assunto qualquer. Por exemplo, aqui na rádio, se quero pigarrear, tossir ou espirrar, desligo o microfone. Se quero dizer alguma coisa que não pode nem deve ser publicada, desligo o microfone. De caju em caju, porém, a imprensa divulga o que uma pessoa muito conhecida teria falado, como se diz, em off, isto é, fora do local e do tempo do seu trabalho, ou, no caso, com os microfones desligados. Somos curiosos e achamos engraçado e até lamentamos, porque é uma situação vexatória. Mas, daí a cair de paus e pedras em cima me parece um abuso. No mês passado, aconteceu alguma coisa parecida com o Sr. Boris Casoy, conhecido jornalista do sul do país. Ele fez um comentário em off, isto é, com os microfones desligados, mas, por uma falha do pessoal técnico, sua frase foi ao ar e o Brasil todo ouviu. No dia seguinte, muita gente se aproveitou para pedir a cabeça dele, para acusá-lo de preconceituoso, para fazer uma execração pública. Os deslizes ditos em off não podem comparar-se, mesmo de longe, aos disparates ditos em público. Por que então cair matando, condenando, espezinhando o infeliz que dá um fora desses?

Esta estória toda me faz lembrar do linchamento. Você sabe o que é um linchamento? É uma espécie de condenação a alguém, sem qualquer julgamento, com base apenas no ímpeto e no ódio coletivo, quando um grupo deixa de pensar e agir com juízo e massacra uma pessoa que supostamente teria cometido um erro grave. Neste momento é que a humanidade se revela como sendo o homem o lobo do homem. Neste caso, u’a matilha de lobos, mordendo e rasgando um outro lobo que fica indefeso diante daquela horda. O linchamento é um proceder deprimente, odioso e desumano. E que deixa um imenso mal-estar, podendo estragar o resto da vida de quem dele participa e de cuja participação um dia toma consciência. Parece dramático, mas toda vez que a gente ouve e repete uma difamação, a gente está participando de um linchamento sem sangue, um linchamento branco, ainda mais quando se sabe que quem conta um conto aumenta um ponto. Como aquele exemplo de alguém que difama outro e depois se arrepende, vai pedir desculpa e o outro que foi difamado lhe diz: Eu desculpo, sim, se você abrir um travesseiro cheio de penas do alto da torre de uma igreja e depois descer e catar pena por pena até não sobrar nenhuma perdida por aí. Então você pode se considerar desculpado… Uma tarefa praticamente impossível… Existe um caso de linchamento relatado no evangelho, onde u’a mulher que tinha sido flagrada transando com um homem casado corre e se protege atrás de Jesus porque todo mundo jogava pedra nela, todos queriam tirar sua lasquinha e estavam querendo matá-la a pedradas. Diz o escritor que Jesus começou a escrever no chão os podres que os homens costumam hipocritamente esconder. E que então falou bem alto: quem não tiver pecado, pode atirar a primeira pedra… A estória diz que cada um desistiu do linchamento e voltou de cabeça baixa, envergonhado, pra sua casa.

Cada vez que nós julgamos alguém, sem o recurso de se defender, espalhamos informações, inventadas ou não, difamantes ou não, estamos sentenciando e condenando. E se tivéssemos os poderes que gostaríamos de ter, certamente executaríamos o outro. Isto acontece muito por estarmos projetando no outro aquilo de que inconscientemente desconfiamos sermos nós mesmos os responsáveis, os culpados, vamos dizer assim. Somos falhos. Todos nós somos falhos. Temos todos nós, milagrosamente, uma semente de bondade. Isto é um mistério e não sabemos bem como explicar. Mas temos todos nós também sementes mais poderosas de maldade, que precisamos reconhecer para não deixar brotar, crescer e nos dominar. O homem é o lobo do homem e quanto mais vaidosos, quanto mais gananciosos e mais arrogantes somos, mais somos lobos, lobos selvagens, famintos, sanguinários. É esta a face que mostramos, o lado da nossa alma, que nos faz participar de um linchamento, mesmo que não culmine com sangue e morte, mesmo que seja um linchamento moral. Podemos liquidar com alguém, sem precisar matá-lo ao pé da letra.