Escute o Prosa & Verso 126

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Músicas tocadas neste programa:
quatro ases e um coringa – o dinheiro que ganho
chico buarque – deus lhe pague
beth carvalho – velho ateu
gabriel o pensador e fundo de quintal - boca sem dente
ataulfo alves - amélia
altamiro carrilho – cinco companheiros

As crianças, e também muitos adultos, ainda pensam que os humanos sempre foram como são hoje. Que sua maneira de se relacionar, de comer, de vestir, de morar, de se organizar vem assim desde que o mundo é mundo. Desde que o homem deixou de ser macaco, e isto demorou mais tempo do que estes milhares de anos em que o homem se reconhece como humano. Mas nem sempre fomos como somos hoje. Nem mesmo, como dizia, é a mesma nossa maneira de nos relacionarmos uns com os outros, não é o mesmo o modo como nos alimentamos, como vestimos, como moramos e também como nos organizamos em grupos. Antes de aprenderem a pensar, nossos antepassados já tinham descoberto, pelo próprio instinto, que não seria possível os homens viverem sozinhos, isolados uns dos outros. Que precisavam se unir, uns aos outros, para sobreviver diante de tantas ameaças externas, inclusive a ameaça de outros humanos. Ao se organizar em grupo, a espécie humana passou a caçar, a ter sua moradia, a plantar, quase sempre em mutirão, produzindo assim tudo o necessitavam para sobreviver. Um dia, as famílias e os pequenos grupos humanos não foram mais capazes de produzir tudo o que precisavam para sobreviver e os homens aprendeu a trocar aquilo que produziam e que lhes sobrava. Assim, muito tempo depois, e bota tempo nisto, passaram ver que não conseguiam produzir tudo o que precisavam. Então, foi assim que surgiram as trocas. Digamos que uma tribo tinha mais habilidade na caça e que outra tinha mais habilidade em fazer agasalhos. Naturalmente, a troca surgiu e, com ela, a divisão do trabalho. Isto foi evoluindo, portanto, até os nossos dias, com toda a complexidade em que vivemos hoje. Mas houve um momento em que os objetos de troca eram grandes e pesados demais para ser carregados e alguém teve a brilhante idéia de inventar a moeda, o dinheiro. A moeda, o dinheiro, por si só, não vale nada. Ele vale pelo que representa. E o que representa é o poder de compra. É isto que voga até hoje.

A raça humana, infelizmente, carrega dentro de si as sementes da ambição. De todas as formas de ambição, inclusive a de dominar o próximo, de explorar o próximo, acumular riqueza e poder, de levar vantagem em tudo. Daí as trocas, chamadas escambo, que eram avaliadas pela satisfação dos dois interessados, foram pouco a pouco consideradas melhores, na medida em que um lado saía com mais vantagem. Surgiu a usura, o engano, a propaganda enganosa, a propaganda mentirosa, o vale-tudo para obter lucro e mais lucro. E a desigualdade social condenou a humanidade a esta sina de coexistirem uns tão ricos com uns tão pobres, uns tão abastados, com outros na linha da miséria. E, para abrandar a consciência que às vezes fica pesada, veio a prática da esmola. E o famoso Deus lhe pague.

Entretanto, uns aqui e acolá, enxergando a prática da esmola como uma prática vergonhosa e que apenas acalma a culpa de quem dá enquanto decepa a dignidade de quem a recebe, passaram a idealizar um mundo diferente, organizado de tal forma que a desigualdade social fosse diminuindo e as pessoas passassem a ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Que isto é um sonho, lá isso é. Mas, quem nos pode impedir de sonhar? Quando somos jovens, os sonhos são mais vivazes, mais coloridos, e nós somos mais impetuosos, mais afoitos. Mas quando vamos ficando mais velhos, o desânimo vem instalar-se e nossas ilusões vão se desvanecendo. O envelhecer nos torna mais desiludidos. Isto até se confunde com prudência. Às vezes até se mistura com a prudência de verdade. É esta a grande razão para os mais velhos irem cedendo o lugar aos mais jovens, que vêm chegando. E a História, dando suas reviravoltas, nos faz lembrar do passado, para que possamos agir melhor no presente e no futuro.

Mas não é apenas nas relações sociais, nas relações entre grupos, países, classes sociais que florescem a dominação e a exploração. Entre as pessoas também, as relações chamadas primárias, isto é, entre uma pessoa e outra, são contaminadas pela semente da ambição que existe em nós todos. E não é raro, pelo contrário, é muito freqüente, que as relações amorosas não sejam amorosas coisa nenhuma. É freqüente que não passem de relações comerciais, um subjugando e explorando o outro. Ainda é muito comum que costumes do passado estejam em franco vigor, como por exemplo que caiba ao homem adotar u’a mulher para sustentar, dar casa e comida, enquanto que ela em troca se submete a ser usada como uma serviçal. Às vezes a mulher esboça um arremedo de rebeldia e vira uma cocota, gastadora, consumista e assim equivocadamente dá um troco ao marido. E a prática vai passando, equivocadamente, de pai pra filho e de mãe pra filha, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Homem e mulher se procuram, para a realização sexual, porque está no instinto, em a própria natureza. O sexo é um chamariz de grande força e está impregnado nos sentidos da visão, do olfato, do tato, da audição e por que não dizer? até do paladar. Há quem afirme que o desejo sexual é o motor que impulsiona o mundo, em especial o mundo humano. Mas também quem afirme que outro motor, a economia, é que impulsiona as sociedades. Uma hipótese não invalida a outra e certamente ambas se complementam. Por que se associam homem e mulher, neste contrato misto de sexo e economia que se chama família? Que é que, em última instância, o homem procura? Que é que, em última análise, a mulher procura? Esprema tudo e vai encontrar: satisfação das necessidades sexuais e satisfação das necessidades econômicas. Consideradas de um modo amplo, parece que são estas as primordiais necessidades humanas de satisfação. Eu disse necessidades primordiais. PRIMORDIAIS, não únicas. O resto é pra você pensar.