Escute o Prosa & Verso 127

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
juca chaves – que saudade
dick farney - a saudade mata a gente
funeral de um rei nagô
djarumami – galo bedjo
nilo amaro e os cantores de ébano – azulão
miltinho - lembranças
amália rodrigues – ai mouraria
nelson gonçalves e maria bethânia - caminhemos
altamiro carrilho e maria teresa madeira – meu primeiro amor

Saudade… É apenas uma palavra. Mas ela expressa um sentimento lá de dentro, um sentimento sofrido, melancólico, dolorido e tristonho. É incrível que a palavra para dar nome a este sentimento, misto de solidão, de falta, de ausência, só exista em apenas três línguas: português, gallego e romeno, três línguas irmãs, todas filhas do latim. Você sabia disto? Pois, saudade, na língua portuguesa, morrinha, em gallego, língua da Galícia no noroeste da Espanha e durere, na língua romena.

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular. Descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. Não apenas a lembrança de algo ou alguém ausente ou que já passou. É a lembrança lamentada. Saudade é uma lamentação.

Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e, no Brasil colônia, esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos. Define, assim, a melancolia causada pela lembrança, a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Na língua nagô, existe uma outra palavra que os negros usavam quando eram trazidos da África para o Brasil para ser escravizados. Uma palavra que traduz um tanto do que significa saudade. A palavra é banzo, que é uma tristeza profunda, às vezes mortal. Era a saudade de sua terra, de sua liberdade, de seus entes queridos que ficaram lá, do outro lado do mar.

Saudade!… Uma espécie de lembrança nostálgica, uma lembrança tristonha mas carinhosa, de um bem especial que está ausente, acompanhado de um desejo de revê-lo ou possuí-lo. Uma única palavra para designar todas as nuanças desse sentimento é quase exclusividade do vocabulário da língua portuguesa. Há mesmo um mito de que seja intraduzível. Porém, assim não acontece no que diz respeito à língua romena, irmã do nosso português. Como já falei, os romenos têm sua palavra, correspondente perfeito da “saudade” portuguesa, que é a palavra “durere” [eu não sei romeno, mas acho que se pronuncia assim], durere, que também significa dor. Em gallego existe a mesma palavra saudade, por vezes na variante soidade. Os galegos também usam a palavra morrire ou morrinha com um significado parcialmente coincidente. No dialeto crioulo, falado no Cabo-Verde, existe a palavra sodadi, diretamente derivada da nossa “saudade” e com o mesmo significado.

Uma pesquisa entre tradutores britânicos apontou a palavra “saudade” como a sétima palavra mais difícil de traduzir.
Pode-se sentir saudade de muita coisa:
• de alguém falecido.
• de alguém que amamos e está longe ou ausente.
• de um amigo querido.
• de alguém ou algo que não vemos há imenso tempo.
• de alguém que não conversamos há muito tempo.
• de lugares.
• de comida.
• de situações. E assim por diante.

A expressão “matar a saudade” ou “matar saudades” é usada para designar o desaparecimento, mesmo que temporário, desse sentimento. É possível “matar a saudade”, por exemplo, relembrando, vendo fotos antigas ou vídeos antigos, ouvindo música, conversando sobre o assunto, reencontrando a pessoa que estava longe etc. A saudade pode gerar sentimento de angústia, nostalgia e tristeza, e quando “matamos a saudade” geralmente sentimos alegria. Mas, uma coisa é certa: matar saudades pode ser o início de fazer gerar novas saudades.

No sul de Portugal, “Mandar saudades” significa o mesmo que mandar cumprimentos. Em todo o Portugal, o Fado, ritmo por excelência da música portuguesa, está diretamente associado a este sentimento chamado saudade.

Ficar remoendo o que passou é alimentar inutilmente a saudade, que só faz machucar, maltratar, doer. Há uma outra palavra na língua portuguesa, nostalgia, que vem do grego e que significa literalmente a dor da falta. Enquanto a saudade traz embutida em seu significado um tanto de esperança, a nostalgia é somente a dor, o luto, sem a esperança. Afinal o que passou, passou. O passado é só a lembrança. Já não existe mais, a não ser na memória. Por outro lado, esquecer o passado é correr o risco de revive-lo, com todos os seus erros, todos os seus sonhos desfeitos, todas as suas frustrações, todo o seu sofrimento. É isto que é a nostalgia.