Escute o Prosa & Verso 128

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Músicas tocadas neste programa:
moreira da silva – amigo urso
maria bethânia e chico buarque – sinal fechado
antonio carlos e jocafi – você abusou
hebe camargo – naquela mesa
mpb4 – amigo é pra essas coisas
nora ney – ninguém me ama
grupo vou vivendo – noites cariocas

Tudo o que se faz entre duas ou mais pessoas deve decorrer dentro de um contrato. Dito assim, parece um exagero, mas prestem atenção: Na escola, espera-se que o professor dê as instruções, mas também se espera que o aluno preste atenção e apreenda o que lhe foi ensinado. Isto é um contrato. Na feira, espera-se que o comprador pague pelo que vai levar, mas também se espera que o feirante lhe forneça a mercadoria em boas condições. Isto é um contrato.Quando se vai consultar um médico, espera-se que o médico tenha um conhecimento satisfatório do que está fazendo ou que tenha a honestidade para reorientar o paciente para outro médico, caso não se sinta habilitado a tratá-lo. Mas, por outro lado, espera-se que o paciente remunere o médico pelo atendimento. Ou o paciente ou quem quer que seja responsável por ele, como por exemplo o poder público, cumpra este outro lado do contrato. Porque isto também é um contrato. São contratos chamados de tácitos, porque necessariamente não precisam ser escritos e assinados por ambas as partes para que sejam cumpridos. A palavra tácito significa silencioso, que não é preciso falar a respeito ou explicar. Assim também acontece com todas as relações humanas, o que significa que cada um de nós desempenha papéis diferentes durante o dia e durante a vida. São os papéis sociais, como o papel de pai, papel de filho, papel de vendedor, papel de comprador, de pastor e de crente, e assim por diante.

Então, quando se vende alguma coisa a alguém, espera-se que o comprador pague pela mercadoria que levou. Quem vende tem o direito de cobrar. Também quem aluga tem o direito de cobrar, tanto de volta o que foi alugado, quanto o valor do aluguel. Igualmente, quem empresta. Neste caso, o empréstimo em si é gratuito, isto é, não se cobra ágio, mas não dispensa a devolução do objeto emprestado. Ficar para si com um objeto que foi alugado ou emprestado constitui um rompimento do contrato. Vira um roubo. Agora, se alguma coisa é dada, é doada, é presenteada a outra pessoa, aquele que deu, doou, presenteou abriu mão de qualquer direito sobre o objeto dado. Presente é presente. Tem que ser totalmente gratuito e quem o recebe não fica portanto devendo nada. A rigor, um favor é um presente e não um empréstimo. Tudo isto parece tão óbvio, tão claro que vocês podem achar que eu nem mesmo precisava estar falando disto aqui. Ocorre, entretanto, que muitas vezes trocamos as bolas e fazemos modificações unilaterais em nossos contratos, sem nem ao menos consultar a outra parte. Por exemplo, se alguém me pede um favor, não pode exigir que eu o faça. Eu posso dizer que não e isto não deve constituir qualquer ofensa ao outro. Do mesmo modo, se eu faço o favor, não tenho nenhum direito de cobrar alguma coisa em troca, porque se eu agir assim, estarei transformando um favor, que é gratuito, em algo que deve ser pago. Ora, um favor é um presente, uma doação e não uma venda, nem um aluguel. Deu pra entender?

Quando a gente dá um presente, não pode exigir que a outra pessoa use o presente que recebeu, desta ou daquela maneira. Ora, um presente dado é totalmente gratuito e quem dá o presente perde todos os direitos sobre ele. Quem recebe um presente faz o que quiser com ele. Até mesmo pode passar adiante, dar a outra pessoa, sem ninguém ter o direito de reclamar. Já diz o povo que quem tem o seu dá a quem quer. As relações amorosas, as manifestações de amizade, o bem-querer não são mercadorias de venda ou aluguel. São doações gratuitas, são presentes de graça. Nada se pode pedir em troca. Quando falo em relações amorosas, não estou me referindo às relações sexuais. Embora atualmente seja um costume dizer que fazer amor seja o mesmo que fazer sexo, as relações amorosas propriamente ditas são bem mais doações do que as relações sexuais, que são de praxe verdadeiras trocas e devem favorecer às duas pessoas envolvidas. Duas ou mais de duas, conforme as preferências. Mas as relações sexuais não são necessariamente relações amorosas. São, digamos, relações comerciais, com dinheiro ou sem dinheiro no meio. Sem pagamento em dinheiro, as relações se assemelham muito às relações de escambo. Escambo é a troca de mercadorias ou de serviços, sem fazer uso de dinheiro. É, em outras palavras, um comércio, um intercâmbio, uma permuta. Uma relação de cooperação recíproca, em que ambas as partes devem ficar satisfeitas. U’a mão lava a outra.

Como eu estava dizendo, no caso da amizade não há o que cobrar um do outro. A amizade só é amizade se for gratuita, se for grátis, de graça. É na amizade que a gratificação reside em servir o outro. A alegria, a felicidade está em servir. Mas não é nenhuma obrigação. É uma escolha pessoal e não há lei alguma que obrigue alguém a ser um amigo prestativo. E ninguém pode exigir isto de um amigo, exigir que ele seja amigo. Aquela frase muito batida “amigos, amigos; negócios à parte” pode parecer mesquinha, mas é uma frase bastante realista e honesta, embora se possa fazer dela um uso desonesto e oportunista, mas isto são outros quinhentos. Fazer, sem esperar nada em troca, é um péssimo negócio, olhando do ponto de vista comercial, de venda ou de aluguel. Mas é um excelente negócio, olhando do ponto de vista da amizade, porque é assim que se cultiva a amizade e a grande satisfação interior que a amizade de graça proporciona. Esta felicidade que a amizade traz não tem que ser eterna, não tem que durar a vida inteira. Mas uma coisa é certa: por que jogar fora uma amizade que só nos gratifica? Quantas vezes lamentamos a falta do amigo, principalmente quando deixamos de aproveitar os momentos de encontro para cultivar a amizade?

E quando lamentamos a falta da pessoa amiga, sofremos duplamente: Primeiro, pela própria ausência, por não ter por perto alguém que nos ajude a sair do nosso isolamento, da nossa pequenez, da nossa insignificância egoísta, que a amizade nos favorece e conforta. Segundo, se não tivermos sido o amigo que poderíamos ter sido, se não tivermos aproveitado as oportunidades de encontro para ter cultivado a amizade. Sem esquecer que os momentos de alegria costumam nos ofuscar os sentimentos, como uma luz possante costuma ofuscar nossa visão. Diz-se, muito apropriadamente, desde tempos antigos, que o amigo certo se conhece nas horas incertas. As promessas, tantas vezes repetidas no seio das futilidades formais dos casamentos, as promessas de companheirismo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, não deveriam ser promessas de um para o outro, mas, sim, bem que poderiam fazer parte do empenho diário no cultivo das amizades. De todas elas.

O sentimento da solidão, do desamparo, do isolamento, da pequenez é melhorado, aliviado pela amizade. Ao sentir-se só e desamado, não é produtivo ficar lamentando, mas é saudável e gratificante tentar dar o primeiro passo, os primeiros passos e fazer-se amigo, ao invés de reclamar que ninguém é seu amigo, que ninguém o ama.