Escute o Prosa & Verso 129

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
dona ivone lara e nilze carvalho - acreditar
adoniran barbosa – samba do arnesto
ivan lins – desesperar, jamais
marcos sacramento - cansei
altamiro carrilho – chorinho didático nº 6

Quando eu era criança, ouvia rádio através do serviço de alto-falantes que havia na praça de minha terra. Naquele tempo não existiam computadores, internets, televisão, CDs, nem mesmo gravadores em fitas. Só discos de vinil, aqueles bolachões, que somente os mais abonados podiam ter, mesmo porque os toca-discos, as velhas vitrolas, só os que tinham dinheiro podiam comprar. Mesmo os rádios, estes eram a válvulas, daqueles que só podiam ser ligados nas tomadas das casas, porque rádio a pilhas também não existiam. Como vocês vêem, era um tempo em que a gente tinha que curtir o luar, as noites estreladas, as cadeiras e as esteiras nas calçadas, os passeios em volta da praça, as brincadeiras de esconde-esconde ou de boca-de-forno, cirandas ou mesmo ouvir e contar estórias, geralmente de assombração, que tanto nos excitavam a imaginação de crianças… Era nessa época que eu só podia escutar rádio através dos alto-falantes da praça, que retransmitiam as emissões radiofônicas em ondas curtas. Assim, eu escutei músicas que me encantavam e escutei também curiosas vinhetas de propaganda, como uma que dizia assim:
“Pílulas de Vida do Dr. Ross
Fazem bem ao fígado de todos nós”, ao que a molecada deturpava em uma paródia que cantavam assim:
“Pílula de vida do dr bode
Entra pela boca e sai por onde pode”.
Gozações e molecagem à parte, a propaganda terminava dizendo, numa voz grave de locutor bem treinado: “Pílulas de Vida do Dr Ross, pequeninas, mas resolvem!…
Pois bem, o escritor, cineasta e jornalista Arnaldo Jabor, deixou publicado um texto pequeno, que me lembrou a tal propaganda da minha infância, pequenino, mas resolve! O texto se chama Paciência. E, como eu disse, é da autoria de Arnaldo Jabor:

“Ah! Se vendessem paciência nas farmácias e supermercados… Muita gente iria gastar boa parte do salário nessa mercadoria tão rara hoje em dia.
Por muito pouco a madame que parece uma “lady” solta palavrões e berros que lembram as antigas “trabalhadoras do cais”… E o bem comportado executivo?
O “cavalheiro” se transforma numa “besta selvagem” no trânsito que ele mesmo ajuda a tumultuar..
Os filhos atrapalham, os idosos incomodam, a voz da vizinha é um tormento, o jeito do chefe é demais para sua cabeça, a esposa virou uma chata, o marido uma “mala sem alça”. Aquela velha amiga uma “alça sem mala”, o emprego uma tortura, a escola uma chatice.
O cinema se arrasta, o teatro nem pensar, até o passeio virou novela.
Outro dia, vi um jovem reclamando que o banco dele pela internet estava demorando a dar o saldo, eu me lembrei da fila dos bancos e balancei a cabeça, inconformado…
Vi uma moça abrindo um e-mail com um texto maravilhoso e ela deletou sem sequer ler o título, dizendo que era longo demais.
Pobres de nós, meninos e meninas sem paciência, sem tempo para a vida, sem tempo para Deus.
A paciência está em falta no mercado, e pelo jeito, a paciência sintética dos calmantes está cada vez mais em alta.
Pergunte para alguém, que você saiba que é “ansioso demais” onde ele quer chegar?
Qual é a finalidade de sua vida?
Surpreenda-se com a falta de metas, com o vago de sua resposta.
E você? Aonde você quer chegar? Está correndo tanto para quê? Por quem?
Seu coração vai agüentar?
Se você morrer hoje de infarto agudo do miocárdio o mundo vai parar?
A empresa que você trabalha vai acabar? As pessoas que você ama vão parar?
Será que alguém conseguiu escutar até aqui?
Respire… Acalme-se…
O mundo está apenas na sua primeira volta e, com certeza, no final do dia,
vai completar o seu giro ao redor do sol, com ou sem a sua paciência…

A medicina nasceu junto com as crenças religiosas. Então, a religião e a medicina são irmãs muito próximas, talvez gêmeas e juntas trilharam centenas e talvez milhares de anos. Até hoje em dia, as sociedades ditas primitivas, como as tribos indígenas de todos os continentes, têm em seu líder religioso também o seu médico, o xamã, o pajé, o curandeiro. Há mais ou menos 2.400 anos que a medicina vem-se debatendo para se separar da religião, mas o processo da história não se dá em linha reta, mas por linhas curvas, como numa espiral, de tal modo que frequentemente temos a impressão de que as coisas já se passaram pelo mesmo lugar por onde se passam agora. Há sempre explicações dadas para tudo o que acontece, mesmo que tais explicações não passem de fantasias e, portanto, não passem de invencionices para apaziguar a própria consciência de quem as cria e também de quem as ouve. A verdade é que pouco sabemos de nós mesmos e do mundo que nos cerca. Então, a palavra chave para os percalços da vida é: paciência! Paciência, meu amigo! Paciência, meu filho! Paciência meu irmão!…

Pois, então, paciência, meu irmão! Só que paciência tem limite, reza o ditado antigo… Hoje, no mundo moderno, quando nós escolhemos um governo para administrar o bem público, estamos supostamente exercendo um direito, um direito de cidadania, o direito de votar. E quando pagamos impostos, estamos exercendo um dever, o dever de pagar ao Estado para que mantenha o governo e gerencie aquilo que não é de cada um de nós, mas, sim, que é de todos nós, o bem público. Isto é um contrato, um contrato social, segundo o qual todos nós temos direitos e deveres. E, se não cumprimos nossos deveres, não temos como reclamar os nossos direitos. Existem direitos que se pagam por meio dos impostos como, por exemplo, as escolas, as estradas, a limpeza das ruas, as áreas públicas de lazer, as praças e os jardins. Outros, por meio de taxas instituídas pelos órgãos do governo. Mas nos contratos privados, isto é, os que não são públicos, os direitos de cada parte que faz o contrato correspondem a deveres. Do mesmo modo, tanto na área pública como na área privada, se uma das partes deixa de cumprir seus deveres deve também deixar de gozar seus direitos. Ou deveria… Já que existe um fator que se chama de impunidade. E impunidade é também irmã gêmea de privilégio. Numa sociedade justa, estes dois irmãos, privilégio e impunidade, não deveriam viver.

Escolas, hospitais, estradas, segurança estão dentro dos serviços públicos. Em alguns países, isto inclui ainda transportes coletivos e acesso à internet.
Mas sabemos que nosso país não dá provimento ao que é essencial, quanto mais ao que não é. Então, a exemplo da energia elétrica, da água encanada, dos correios, do telefone, muitos setores foram entregues aos capitalistas, que prestam os serviços em troca de pagamentos. É o que fazemos todo mês com as contas de luz, água, saneamento e iluminação pública. Brevemente vamos ter a estrada Salvador-Feira, segundo rumores, entregue ao setor privado, a quem deveremos passar a pagar pedágios. Mas imagino que certamente os impostos e as taxas de IPVA atuais vão permanecer. Dá pra entender? Aí vem a célebre frase: Paciência, irmão!

Ainda falando em contratos, um exemplo de contrato de prestação de serviços é o provimento de acesso à internet. A rigor, e creio que no futuro será assim, o acesso à internet deveria ser mantido pelo Estado. Mas, por enquanto, os provedores são particulares. A eles nós os usuários pagamos uma quantia mensal, em troca do acesso à internet. Há contratos que garantem o acesso por algumas horas, mas outros, como aqui em Morro do Chapéu, o acesso é assegurado no contrato por 24 horas, todos os dias. Eu digo que é assegurado, mas estou mentindo, porque estas duas semanas por exemplo, meio mundo de usuários ficaram sem a internet durante o domingo e a segunda-feira passada. O provedor, no caso, não se deu nem o trabalho de informar o público por meio das emissoras de rádio, quanto mais de corrigir o suposto defeito. Isto está se tornando um costume, de tão repetitivo. Mas você há de ouvir, como eu também, de novo a velha palavra mágica: Paciência! Aliás, parece até que estou ouvindo Caio Túlio Cícero, em pleno Senado Romano, iniciando seu discurso chamado de As Catilinárias: Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra? Ou, traduzindo e adaptando: Até quando vocês abusarão da nossa paciência?