Escute o Prosa & Verso 132

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Músicas tocadas neste programa:
haendel – tochter zion freue dich
beethoven – ode à alegria
vivaldi - primavera
johann straus – vozes da primavera
bach – jesus, alegria dos homens
haendel - hallelluja
elgar – terra de esperança e glória

No próximo domingo se festeja a Páscoa, a grande festa que a cristandade adotou como seu dia maior. O apóstolo Paulo teria escrito nos primórdios do cristianismo que se não tivessem a crença de que Jesus teria ressuscitado, toda a fé cristã seria nula, seria vã. Por isto é que a Páscoa é a festa maior, maior que o Natal, maior que ceia da quinta feira santa, maior do que qualquer festa de padroeiro que as igrejas tanto cultuam. Mas a páscoa tem sua comemoração iniciada bem antes, muito antes do que o surgimento do cristianismo. O que Paulo e os primeiros cristão fizeram não foi senão uma releitura. O termo Páscoa significa passagem e não parece indicar somente mudança de estação, mas passagem de uma vida acomodada e rotineira para uma vida renovada. Assim começa o teólogo e monge beneditino, Dom Marcelo Barros, de Olinda, Pernambuco, sua palestra, feita em 9 de abril do ano passado, para um grupo de amigos, entre os quais estava Eloy Barreto e sua companheira Áurea Mercês, coincidentemente também meus amigos. Foram eles que me passaram a cópia da palestra. E agora repasso para os ouvintes do Prosa & Verso, logo depois da música que vão ouvir.

Assim falou Dom Marcelo Barros: “Todos os povos fazem festas pela chegada da primavera. No hemisfério norte, em fins de março e no Sul em setembro. Muitas comunidades tradicionais, indígenas e africanas, celebram a Primavera com ritos para que as pessoas se renovem e mesmo readquiram a energia e o sabor da juventude.
A festa da Páscoa nasceu em tempos imemoriais, em ritos de primavera e renovação da vida. O próprio termo Páscoa significa passagem e não parece indicar somente mudança de estação, mas passagem de uma vida acomodada e rotineira para uma vida renovada. É possível que, em seu início, esta passagem se referisse a uma dança sagrada, na qual se davam passos para o futuro e para a vida.
Conforme a tradição judaica, na Páscoa, não são somente as pessoas que são renovadas. Conforme a tradição, o próprio povo de Israel se libertou da escravidão do Egito e passou para a liberdade. No judaísmo, o título da festa é “Pezah zeman herutenu”: a estação da nossa libertação. O cristianismo fala de Semana Santa e Festa da Ressurreição. A forma e o conteúdo das celebrações variam, mas a raiz é a mesma. A Páscoa judaica tornou-se a comemoração da noite em que o Senhor libertou os hebreus da escravidão. Os cristãos celebram essa memória e acrescentam o memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Foi quando celebrava a Páscoa com sua comunidade que Jesus foi preso e assassinado. Morreu na cruz, suplício com o qual os romanos matavam os escravos rebeldes, na sexta feira, véspera da Páscoa, pelas três ou quatro da tarde, exatamente na hora em que as famílias de Israel sacrificavam o cordeiro pascal. Na madrugada do domingo que se seguia ao grande sábado da festa, Jesus deixou-se ver, vivo. A partir de então, ser discípulo(a) de Jesus é testemunhar ao mundo essa energia da ressurreição, atuante nele e por seu Espírito, em todas as pessoas que o aceitam.
A mais importante celebração cristã é a Vigília Pascal, na noite do sábado para o domingo. Para os antigos, uma comunidade cristã poderia não celebrar a ceia do Senhor, na 5ª feira santa à noite e mesmo não reunir-se para a memória da paixão do Cristo na 6ª feira santa. Entretanto, não deveria deixar de festejar a Páscoa da ressurreição no sábado à noite ou no domingo de madrugada, antes do sol nascer. É o mais antigo culto cristão, vivido desde os tempos das catacumbas, quando a comunidade se reunia nas madrugadas de domingo, para lembrar a Páscoa. Santo Agostinho chama essa festa: “A mãe de todas as vigílias da Igreja”.
Celebrar a Páscoa não vai mudar mecanicamente a situação social, política, ou econômica do mundo. Não eliminará doenças físicas ou dores do coração. A Páscoa é profecia, grito de liberdade e vitória para dar força a quem continua na luta. Hoje, o otimismo e o riso como métodos terapêuticos são cientificamente reconhecidos. O Senhor ressuscitado revela-se com o corpo ferido e chagas abertas nas mãos, nos pés e no peito. Mas, está vivo e resistente. Seus discípulos se alegram em vê-lo vivo e lembram sua palavra: “Filhinhos, no mundo vocês sempre terão aflições. Tenham coragem: eu venci o mundo”(Jo 16, 33).
No mundo, os poderes da morte continuam agindo. O desamor organiza um mundo escravo do dinheiro e do poder; uma sociedade cruel e sem compaixão. Mas, no coração de muita gente, os gritos de Páscoa ressoam teimosamente. No meio das mais áridas paisagens, as flores resistem. Mesmo a lagarta mais asquerosa é chamada a uma mudança radical.
Rompe o casulo, ganha asas para voar e se transforma em uma linda borboleta. É símbolo da vocação do ser humano para esse caminho pascal. A ressurreição é a energia de Deus para transformar o universo. [ e conclui sua palestra, convidando a todos para que celebrem juntos esta festa e que aproveitem para viver] este caminho pascal no aprofundamento da solidariedade como forma de viver a fé e a intimidade com Deus.

A mitologia antiga nos apontou e aponta ainda hoje para grandes mistérios da existência e da natureza humana. Eu os chamo de mistérios por duas razões: primeiro porque muitos deles não conseguimos até hoje compreender. Em segundo lugar, porque aparentemente a capacidade de raciocinar vem mesmo a reboque da sensibilidade e da intuição. Por esta razão, os mistérios, como aliás toda mitologia, não são transmitidos em linguagem concreta, mas sim em linguagem figurada, em metáforas. Como são mesmo as parábolas dos evangelhos. Como são as metáforas do escritor Antoine de Saint Exupéry, em seu notável livro O pequeno Príncipe. Suponho até que o que há de mais verdadeiro no mundo se expressa em metáforas e não em linguagem concreta.

Conversando uma vez com u’a amiga psicóloga, em Salvador, sobre a possibilidade de não existir nada em continuidade à vida de cada um de nós após a morte, ela argumentou que não poderia deixar de crer na vida após a morte, porque não conseguiria viver sem entender o porquê desta vida aqui presente, onde a gente nasce, cresce, sofre, trabalha, se reproduz e morre, se não houver uma outra vida depois da morte. Céu, inferno, purgatório, limbo, outros planetas, outras dimensões, outras encarnações… Tudo isto serve muito bem para lhe dar uma idéia de importância quando, se olhada em sua pequenez e finitude, acabaria se sentindo só e desamparada. Sua crença, dizia ela, se justifica pelo medo de se sentir só e desamparada. Embora, concretamente sejamos, cada um de nós, sós e desamparados.

A congregação religiosa foi e tem sido um dos recursos encontrados pelos humanos para se gruparem, se unirem e assim romper com o isolamento inerente. Mas não é apenas a congregação religiosa que possibilita esta quebra de isolamento. Na verdade, a religião nem sempre promove a solidariedade necessária para o congraçamento. Os humanos, como que escolheram este estilo de vida chamado gregário ou social, desde os grupos mais primitivos aos mais civilizados. Embora não se possa perder de vista que o homem é o lobo do homem, nenhum de nós pode viver sozinho. Homem algum é uma ilha, como se expressou o escritor Thomas Merton.

Muitos animais também se agregam para sobreviver. Desde as formigas, os cupins e as abelhas, que inclusive fazem uma divisão de trabalho entre si. São exemplos de animais gregários, isto é, que vivem em grupo, os periquitos, os pombos, as chamadas aves de arribação. algumas espécies de peixe, os leões e os macacos de diversas espécies, só para citar alguns. Está em sua natureza, em seu instinto. Nós, humanos, somos mais complicados, justamente porque pensamos. Se desde pequenos aprendemos que a união faz a força e no decorrer da vida aprendemos que só podemos nos defender e proteger se estivermos unidos, também aprendemos a desconfiar uns dos outros, porque nosso instinto destrutivo, nossa pulsão de morte, como descreve a psicanálise, nos torna um dos raros animais que mata o seu semelhante por inveja, por despeito, por ciúme, por ganância, por ambição ou simplesmente por discordar de nossas idéias e de nossas condutas. Nós trazemos em nossa natureza a semente viva da maldade. E, se quisermos realizar um ato de bondade, temos de fazer um esforço. ´Talvez seja isto que é o amor, palavra tão repetida como desgastada. A páscoa, passagem, é um momento especial para refletir sobre isto.