Escute o Prosa & Verso 133

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Músicas tocadas neste programa:
altamiro carrilho - atraente
pedro luis e a parede – verdadeiro canalha
chico buarque – quem te viu, quem te vê
jomarito guimarães - reverência
ângela maria – gente humilde
altamiro carrilho – hora staccato

[Este Prosa & Verso #133 é uma gravação modificada da que foi ao ar, por conta de um defeito na sonoplastia e da consequente baixa qualidade técnica da edição original. Mas o conteúdo é o mesmo.]

A gente pensa que são os grandes homens que fazem o mundo e a História. E pensa, pior, que os grandes homens são aqueles que ficam conhecidos e famosos. A gente pensa que os grandes homens são aqueles cujos nomes passam a ser nomes de ruas, de praças, de cidades, de aeroportos, de escolas, enfim que deixam seu nome gravado. Mas grandes homens também estão no anonimato. Muitos grandes homens passam despercebidos até mesmo pelos seus vizinhos. Não precisam ser doutores, ser ricos, ser poderosos, ser ilustres. Grandes homens podem ser simples e até iletrados, analfabetos. Conheci uns grandes homens, para os quais tiro sempre meu chapéu, para os quais meu espírito presta sempre homenagem. São homens desconhecidos, que não deixaram fama alguma, a não ser na lembrança dos que os conheceram. Eram homens de caráter, eram homens direitos, que viveram dignamente suas vidas. Outros, por ricos e poderosos que fossem, apesar de toda a fama que têm, de seus nomes estarem gravados em pedras e placas, não tiveram dignidade. Foram naturalmente ricos, poderosos, inteligentes e uns deles políticos de mão cheia. Cheia de esperteza, cheia de malícia e cheia de dinheiro e de puxa-saco. Mas, dignidade, hein?… Onde estava a dignidade?

Estava falando de grandes homens. Quem se lembra de Quincio Cincinato? Quem se lembra de Florestan Fernandes? Quem pode se lembrar de Ademar Miranda Leite?
Cincinato foi um militar romano que por duas vezes ocupou a liderança política da Cidade-Estado de Roma, antes que se tornasse império. Tentado pela terceira vez por seus concidadãos, recusou o poder, alegando que já tinha cumprido seu dever e recolheu-se às suas terras, onde vivia na simplicidade e austeridade.
Forestan Fernandes, professor e, por curtíssimo período, foi político brasileiro, mais especificamente deputado federal por São Paulo. O professor Florestan teve uma insuficiência hepática que o condenou à morte, a não ser que fizesse um transplante, que naquela época só se fazia fora do Brasil. Recebeu uma oferta do então presidente da república Fernando Henrique Cardoso para ir à Inglaterra, se não estou enganado, às custas do governo. Florestan Fernandes, com dignidade, recusou a oferta…
E quanto a Ademar Miranda Leite, um lavrador pobre e analfabeto que conheci em Feira de Santana e que tinha o apelido de Cheiro, viveu e morreu descamisado, numa terrinha de uma tarefa, trabalhador que era, pobre de coisas, de bens, mas rico de caráter. Morreu faz um mês.

Quero falar também de outro homem, outro grande homem. Peço emprestadas as palavras do cientista, físico e escritor inglês Stephen Hawking, em cujo livro Uma Breve História do Tempo, assim se refere a Albert Einstein. Ele escreveu assim:
“A ligação de Einstein com a política da bomba nuclear é bastante conhecida: ele assinou a famosa carta ao presidente Franklin Roosevelt persuadindo os Estados Unidos a assumir com seriedade a idéia, e se engajou, no pós-guerra, em esforços para a prevenção da guerra nuclear. Mas estas não eram apenas as ações isoladas de um cientista mergulhado no universo da política. A vida de Einstein foi de fato, para usar suas próprias palavras, ‘dividida entre as ações políticas e as equações’. Os primórdios das atividades políticas de Einstein aconteceram durante a primeira guerra mundial, quando ele era professor em Berlim. Angustiado pelo que percebia como desperdício de vidas humanas, envolveu-se em demonstrações anti-bélicas. Sua defesa da desobediência civil e o estímulo público para que as pessoas recusassem o recrutamento pouco fez para que ele se tornasse benquisto entre seus pares. Depois, em seguida à guerra, ele dirigiu seus esforços para a reconciliação e o desenvolvimento das relações internacionais. Isto também não o tornou popular e em breve suas atividades políticas dificultavam suas viagens aos Estados Unidos, mesmo para fazer conferências… Suas teorias começaram a ser atacadas e uma organização anti-Einstein chegou a ser fundada. Um homem foi condenado por incitar outros a assassinarem Einstein [e pagou a ninharia de seis dólares]. Em 1933 Hitler subiu ao poder. Einstein estava na América e declarou que não voltaria à Alemanha. Então, quando a polícia nazista invadiu sua casa e confiscou sua conta bancária, um jornal de Berlin publicou escandalosamente a seguinte manchete: Boas notícias de Einstein; ele não vai voltar. Face à ameaça nazista, Einstein renunciou ao pacifismo e temendo que eventualmente os cientistas alemães viessem a construir a bomba nuclear, propôs que os Estados Unidos desenvolvessem a sua. Mas mesmo antes que a primeira bomba atômica fosse detonada, ele advertia publicamente sobre os perigos da guerra nuclear e propunha o controle internacional do armamento nuclear. Durante toda sua vida, os esforços de Einstein em favor da paz provavelmente atingiram um mínimo esperado e certamente garantiram-lhe poucos amigos… Em 1952, quando lhe foi oferecida a presidência de Israel, ele recusou alegando ser muito ingênuo politicamente. Ele teria dito: ‘as equações são mais importantes para mim porque a política é feita para o presente, ao passo que uma equação é algo para toda a eternidade’”.

Deste agora, muitos e muitos de nós já ouviram falar. Os comentários são ainda de Stephen Hawking e estão no mesmo livro citado:
“Isaac Newton não era um homem agradável. Era notório seu difícil relacionamento com outros acadêmicos, com a maior parte de sua vida permeada por disputas violentas. Depois da publicação de Princípios Matemáticos, seguramente o livro mais influente jamais escrito na física, Newton projetou-se publicamente em ritmo acelerado. Foi indicado para a presidência da Royal Society, sendo o primeiro cientista agraciado com o título de cavaleiro. Rapidamente, Newton entrou em conflito com o astrônomo real, John Flamsteed, que anteriormente o abastecera com dados necessários ao seu livro, mas que agora lhe recusava informações. Newton não aceitava negativas; indicou-se para o corpo governamental do Observatório Real e depois tentou forçar a imediata publicação dos dados, mas Flamsteed levou o caso à corte e, no momento oportuno, ganhou a questão através da proibição judicial de distribuição do trabalho roubado… Uma disputa ainda mais séria aconteceu com o filósofo alemão Gottfried Leibniz. Ambos, Leibniz e Newton, tinham, independentemente, desenvolvido um ramo da matemática chamado cálculo, que embasa grande parte da física moderna. Embora se saiba, atualmente, que Newton descobriu o cálculo alguns anos antes de Leibniz, publicou seu trabalho muito depois. Em conseqüência instalou-se uma grande celeuma acerca da originalidade, com cientistas defendendo ardorosamente um e outro como pioneiro. É notável, entretanto, que a maioria dos artigos que apareceram em defesa de Newton fossem originalmente de sua própria autoria, apenas publicados sob o nome de amigos. À medida em que a contenda se acirrava, Leibniz cometeu o erro de apelar para a Royal Society para solucionar a disputa. Newton, como presidente, indicou um “isento” comitê de investigação, coincidentemente composto em sua totalidade por seus amigos. Mas isto não é tudo: o próprio Newton redigiu o parecer do comitê e fê-lo publicar pela Royal Society, oficialmente acusando Leibniz de plágio. Não satisfeito ainda, publicou então uma análise anônima sobre o parecer, no periódico da entidade. Depois da morte de Leibniz, conta-se que Newton teria declarado ter sentido muita satisfação por partir o coração de Leibniz! Durante o período destas duas disputas, Newton já abandonara Cambridge e a vida acadêmica… E ainda foi agraciado com o lucrativo cargo de diretor da Casa da Moeda Real. Lá ele direcionou seus talentos para a trapaça e causticidade de uma forma mais aceita socialmente, conduzindo com sucesso uma grande campanha contra a falsificação, tendo mesmo decretado o enforcamento de muitos homens.”

Como vemos, homens de grande prestígio, riqueza, poder e dotados de inteligência fenomenal podem muito bem ser verdadeiros ratos, sem a menor dignidade moral, sem o menor caráter. Aliás, parece que a humanidade, a raça humana, é constituída majoritariamente de feras e abutres. Parece que a possibilidade de ser mau e destrutivo é significativamente maior do que de ser bom e construtivo. Para exercer muitos atos de maldade, é suficiente apenas deixar-se levar pela correnteza. Mas para exercer um só ato de bondade, é preciso vontade e muito empenho.