Escute o Prosa & Verso 135

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Músicas tocadas neste programa:
augusto calheiros – senhor da floresta
chico buarque – funeral de um lavrador
ivan lins e mariana aydar – desesperar jamais
renato teixeira – tocando em frente
henrique cazes e joel do nascimento - brasileirinho

De acordo com o que finalmente nos ensinaram logo nos primeiros anos da antiga escola primária, que corresponde hoje aos primeiros quatro anos do 1º grau, o país em que nós estamos pisando, onde nascemos, onde vivemos, onde muitos de nós procriamos e certamente onde morreremos, está hoje completando 510 anos. Esta terra que já se chamou Pindorama, Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz e que agora se chama Brasil, descreveu um caminho que de certo modo pode ser comparado com a história de uma pessoa. Assim, quando se chamava Pindorama, estava livre, em plena harmonia com a Natureza, sem donos. Uma vez descoberta pelos estrangeiros, foi batizada como Ilha de Vera Cruz e assim transcorreu sua primeira infância, até que perceberam que não era uma Ilha e lhe deram o apelido de Terra de Santa Cruz. Era então uma terra criança, bravia, indomada, ainda habitada pela grande maioria de índios. Uma vez que os invasores vieram aos montes e passaram a explorá-la, foram-na domesticando e submetendo, acharam por bem trocar mais uma vez de nome e desde então ficou conhecida como Brasil.

A rigor, nosso Brasil de hoje passou por uma espécie de adolescência turbulenta, com a crescente invasão e domínio dos estrangeiros de Portugal. Foi nesse contexto que nasceu, viveu e morreu a segunda personagem deste programa de hoje, o Tiradentes, que se chamava, ao que todos sabem, Joaquim José. E como se chamava Joaquim, tenho aqui um poema feito para um outro Joaquim, Joaquim Pereira dos Santos, lá de Feira de Santana e que, como o da Silva Xavier, que era o Tiradentes, foi assassinado porque lutava pela liberdade e pela cidadania, a sua e a de sua gente. O poema se chama Joaquim Pereira dos Santos.
ele era um pai
e como ele
havia muitos pais
e os seus ais subiam aos céus.
ele era um homem
e como ele
havia muitos homens
e sua fome a clamar!
ele era um ser,
um ser que pensa,
que junto aos seus
queria viver!
queria viver,
viver como um homem,
do seu trabalho,
não como gado.
ter liberdade, matar a fome,
sorrir do frio, poder morar.
ele era assim:
trabalhador, seus braços rijos
é que plantavam, é que colhiam
o que seus filhos não comiam.
e não comiam
porque os outros,
os outros, sim, eram os donos
da sua colheita
e do seu eito
e do seu leito,
da sua enxada, da sua foice.
e acharam os donos
que donos eram
também dos filhos,
que donos eram
do seu destino,
que gado era
e apenas gado.
e se enganaram…
e ao engano, juntou-se o ódio.
e ao seu ódio, o seu dinheiro.
e ao seu dinheiro, o fuzil de outrem.
e porque joaquim queria viver,
viver como homem,
não como gado,
ter liberdade, matar a fome,
vieram eles
e o mataram.

Há 25 anos, morreu Tancredo Neves, eleito Presidente da República e que nunca tomou posse. Tancredo Neves estava engajado em um amplo movimento nacional de contestação ao regime militar que vingava no Brasil já por 21 anos. Ficou sendo considerado como um marco simbólico de transição da ditadura para a democracia. É Tancredo Neves a terceira personagem deste programa, cujo tema é ANIVERSÁRIOS, FESTAS E HONRAS. São três aniversários: Primeiro, os 510 anos do descobrimento Brasil, melhor dizendo, do fim do Pindorama dos índios que aqui habitavam. Segundo, os 218 anos da morte do Tiradentes, que foi sacrificado por conspirar contra a dominação e pela liberdade. Terceiro, faz 25 anos da morte de Tancredo Neves, antes de conseguir tomar posse, após ter sido eleito Presidente da República. Pouco antes de morrer, Tancredo Neves teria dito: “Se todos quisermos - dizía-nos Tiradentes, aquele herói enlouquecido de esperança - poderemos fazer deste país uma grande nação. Vamos fazê-la.” Morreu Tancredo Neves, morreu Tiradentes, morreu Pindorama. Ficamos nós e, depois de nós, vêm aí nossos filhos e nossos netos. Lá no horizonte, podemos ter a impressão de ver a imagem muito franzina e tênue da grande nação, à qual Tancredo Neves se referiu, quando disse que o Tiradentes era herói, enlouquecido e esperançoso. Nós, que procuramos no horizonte este tal país, não somos heróis, talvez não sejamos suficientemente enlouquecidos, mas certamente você e eu ainda somos esperançosos.

A esperança, esta é a nossa utopia. Um dia destes, ouvi um ativista dizer que a utopia estava sempre lá no longínquo horizonte e que por definição nunca chegará mesmo a ser alcançada. Mas que a utopia, exercendo sua atração sobre nós, nos fazia caminhar em sua direção e que é assim, passo por passo, que cada um de nós pode ir construindo a História, talvez em direção à utopia. Talvez seja possível ainda, neste mundo que tantas vezes nos
parece perdido, construir uma nação mais justa, de dias melhores, mais próxima à utopia dos nossos sonhos. Isto me fez lembrar um outro poema intitulado Itaca, de Konstantinos Kaváfis:
Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
Emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência
E agora sabes o que significam Ítacas.