Em fevereiro de 2006, um ano eleitoral como este em que estamos, Frei Betto escreveu um artigo para o site do Correio Riograndense, Edição 4.973 em que criticava o comportamento dos maus políticos brasileiros e a conseqüente necessidade de uma reforma política no Brasil. Sua indignação é ainda bem atual. Mas, no final do seu artigo, deixou registrado o seguinte comentário. Dizia ele:

“É bom lembrar que os eleitos são nossos empregados, pagos pelos nossos impostos, e a nós devem prestar contas. Culpa nossa se, uma vez empossados, dão-nos as costas e se locupletam com o nosso dinheiro.

Cabe ao eleitor consciente investigar como o parlamentar em quem votou se comportou nessa farra de receber extras para trabalhar e ficar três semanas em férias. Quem não valoriza o voto, deteriora a democracia. O mau político não é apenas o corrupto, é também o omisso, o conivente com maracutaias, o que faz da função uma plataforma de alpinismo social.

Diz acertadamente Montesquieu: “Para que não se possa abusar do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder.” E o único poder capaz de frear abusos, desvios e corrupções de políticos é o das urnas, o que emana do voto do eleitor.” (Frei Betto)

Este trecho do artigo motivou a seguinte “carta do leitor”:

“Prezado Frei Betto,
Sou um cidadão comum, não tenho voz nem vez, exceto migalhas como esta de poder fazer um e-mail para esse jornal, coisa que aliás considero de grande valia, dentro das possibilidades tão ínfimas dos brasileiros. E assim tento usar deste recurso para me aproximar do Frei Betto, com muita honra e admiração porque o prezo e reverencio há muitos anos. Aproximar-se do autor, suponho, é sempre um desejo do leitor, quase que para pedir-lhe a bênção, tocar-lhe as vestes, agradecer-lhe por estar sendo uma espécie de porta-voz. Em meu caso, carrego este desejo desde a década de 70.

Ora, minha limitação não permite, entretanto, que eu possa concordar com sua afirmativa de que é ‘Culpa nossa se, uma vez empossados, dão-nos as costas e se locupletam com o nosso dinheiro.’ Como ‘culpa nossa,’ Frei Betto? O senhor tem razão quando diz que ‘Cabe ao eleitor consciente investigar como o parlamentar em quem votou se comportou nessa farra de receber extras para trabalhar e ficar três semanas em férias. Quem não valoriza o voto deteriora a democracia.’ Tem toda a razão! Porém, o guizo do Faro-Fino, quantos “eleitores conscientes” existem nesta nossa assembléia dos ratos? Até quando, já que tenho 60 anos, suponho-me eleitor consciente e escuto tal acusação de culpado desde a adolescência, terei que considerar-me, e aos tantos outros que tais, como culpados pela escolha dessa gente indigna, irônica e debochadamente chamada de classe política, muitas vezes eleita por força de um discurso mentiroso e que, uma vez chegando ao poder, troca a camisa, veste literalmente uma casaca, ‘dão-nos as costas e se locupletam com o nosso dinheiro?’

Desculpe, mas não sei se nossas, sua e minha, raízes cristãs (cristãs? cristãs, não! farisaicas e o senhor sabe a que me refiro) ocasionalmente provocam uma derrapagem jogando-nos a culpa na cara, culpa por nós mesmos, culpa pelo outro… Orígenes, sentindo-se culpado por ter sido aquinhoado com uma libido, castra-se. E a história se repete, como agora no campo da cidadania…

Agora, peço emprestada a poesia de Geraldo Vandré, um Orígenes dos nossos dias, para me despedir mais uma vez, confessando minha grande admiração e apreço pelo senhor, cujas palavras me têm norteado muitas vezes nos últimos 30 anos: “Se você não concordar, não posso me desculpar, não canto pra enganar, vou pegar minha viola, vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar…” (Jorge Rocha)

Poucos dias depois me deparei com o trecho abaixo, de um outro artigo do Frei Betto, publicado em outro site, e intitulado CONGRE$$O,:

“Você que é eleitor, como eu, anote: os 513 deputados federais e os 81 senadores, escolhidos pelo nossos votos, têm  direito a 90 dias de férias. Chamam de recesso, embora seja de fato retrocesso. Em outubro, vote em quem se comprometa a derrubar este abuso.  Afinal, 90% dos trabalhadores têm direito a apenas um mês de férias.

Em 2005, o Congre$$o votou quase nada. Menos de 10% eram projetos dos parlamentares. Quase tudo, Medidas Provisórias. Em 2006, vote em candidato disposto a restringir o aluvião de Medidas Provisórias. O Executivo deve, por lei, ficar limitado a remeter um número reduzido de Medidas Provisórias por ano.

Em dezembro, o Congre$$o suspendeu o recesso. Prometeu encarar os 95 projetos em pauta. E a Comissão de Ética, a dar andamento aos processos de cassação. Não o fizeram. Porém, cada deputado e senador receberão dois salários extras, no total de R$ 25.600,00. Ao todo, cerca de R$ 100 milhões. Pago por você e por mim. É bom que se saiba: cada deputado federal custa, ao contribuinte, R$ 42 mil por mês. São R$ 258 milhões por ano. Somado ao salário dos senadores, R$ 300 milhões. Em 2006, eleja quem mereça o valor que você paga.

Se o Congre$$o decidiu suspender o recesso, esperava-se que os parlamentares comparecessem ao trabalho. Não. Com exceção de uns poucos, a maioria preferiu curtir férias entre o Natal e 16 de janeiro. É como uma escola que suspende as férias, convoca os alunos e os professores não aparecem. O presidente do Congre$$o, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), e o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), presidente da Câmara, permitiram o funcionamento da Comissão  Representativa. Um instrumento típico de recesso parlamentar, porém utilizado quando o recesso está, formalmente, suspenso.

A Comissão Representativa, integrada por 17 deputados e 7 senadores, tem o direito de votar projetos urgentes quando não há possibilidade de convocação do plenário. Dia 20 de dezembro, esses 24 parlamentares votaram 19 créditos orçamentários no valor de R$ 9,8 bilhões. Entenda: suspenso o recesso, pagamos pelo trabalho de 594 parlamentares. Mas só 24 trabalham. Os demais enchem o bolso e curtem férias.

Se a liberação dos R$ 9,8 bilhões dependesse do plenário, como seria o correto, um mínimo de 298 deputados deveria estar em Brasília. Procure saber onde estão o deputado federal e os senadores nos quais você votou. Cobre deles um mínimo de decência. Ou vista uma touca de trouxa e fique sentado com a cara virada para a parede.

Há parlamentares de extremo rigor ético, merecedores de nossos aplausos e admiração. E, sobretudo, de nossos votos. São os que devolveram aos cofres públicos a bolada de R$ 25.600,00. Anote e divulgue seus nomes.

Não façamos de nossa indignação revolta. Melhor traduzi-la em protesto: junto aos parlamentares, à imprensa, aos amigos. E convém não ceder ao engodo do voto nulo. Os maus políticos serão os maiores beneficiados. Vote em quem, comprovadamente, tem demonstrado competência, seriedade, ética e um mínimo de convicção ideológica. Preferencialmente, em quem tem projeto para o Brasil. E em novos candidatos com potencial de operar profundas mudanças em nosso parlamento.

Comece agora a campanha.  Junto a seus grupos sociais – família, trabalho, clube, igreja, movimento social –, levante nomes de políticos e candidatos que merecem o nosso voto. E também dos que não merecem. Democracia é assumir que o povo governa e os políticos o representam. Afinal, eles são nossos empregados, pagos por nossos impostos.

A política não deveria ser o trato da coisa pública em proveito particular. Mas, infelizmente, assim tem sido para muitos parlamentares. Muitos não têm projeto de nação, nem princípios ideológicos, não agem com rigor ético. Porém, são pródigos em retórica, palavras bonitas, promessas vãs. E pensam no próprio futuro político, na prática incansável do alpinismo rumo aos cumes do poder.

Exija de quem o representa: Serviço de Informação ao Público – Tel: 0800619619 – Praça dos Três Poderes 70165-900 Brasília – DF. Câmara dos Deputados – Praça dos Três Poderes – Anexo II – 70160-900 – Brasília – DF. Fax (XX-61) 3216-5757.”

Embora sejam documentos e fatos de 2006, ano eleitoral, estou publicando hoje, também ano eleitoral, pela pertinência do tema.