Escute o Prosa & Verso 136

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Músicas tocadas neste programa:
elis regina e tom jobim – águas de março
luiz gonzaga – viva o arigó
zé ramalho - cidadão
ciro monteiro – o que se leva desta vida
ademilde fonseca - brasileirinho

No relato bíblico, que não é científico, mas que é intuitivo, que faz parte da sabedoria popular, o escritor conta que, depois de ser criado o mundo e achado que o que tinha criado era bom, o mesmo Deus pegou um pouco de barro e fez o primeiro homem, a quem deu o sopro da vida. Esse homem foi chamado de pai de todos os homens, Adão, na língua dos judeus, porque a bíblia foi escrita pelos judeus. Posteriormente criou u’a mulher para fazer companhia ao homem. E ele tinha de conversar com ela e ela com ele. Então foi inventada, pelos dois primeiros humanos, a linguagem, para permitir que eles se comunicassem. Foi assim que, recém-nascidos, mas já adultos, Adão e Eva olharam em volta e viram tudo o que existia. Mas, vocês já observaram como é difícil a gente se comunicar quando a gente não usa as palavras certas? Quando a gente precisa de alguma coisa e não conhece o nome, a gente diz assim: me dá aquele negócio ali! E o outro que se rebole pra adivinhar o que é. Então, diz a Bíblia que nossos primeiros pais, percebendo que tudo o que existia precisava ter um nome, foram olhando coisa por coisa, planta por planta e animal por animal e dando a cada um deles um nome. Desta maneira, os primeiros homens, inteligentemente, conseguiram poupar trabalho e desgaste, fazendo uso da linguagem. Bem disse, me parece, Antônio Houais que a palavra existe para economizar trabalho.

Pois bem, a palavra foi inventada para economizar trabalho. Aliás, a bem da verdade, todos os inventos que existem, surgiram para economizar trabalho. Quem lê livros ou assiste filmes sobre a antiguidade, pode imaginar ou ver que os recursos eram precários, mas o luxo, a comodidade, o bem-estar sempre foram possíveis para alguns, em detrimento do trabalho de numerosos outros. Antes da eletricidade e dos ventiladores, eram outras pessoas, escravizadas ou não, que usavam abanos e leques para refrescar os privilegiados. E as roupas que nós sujamos pelo uso diário? Quem é que lava? Ainda bem que, pelo menos para umas tantas donas de casa, já existem máquinas de lavar que podem ser compradas. Podem ser compradas por uns. Por outros não. Infelizmente, nosso mundo, nossa sociedade não beneficia a todos, com as invenções e com os recursos que tem. O mundo está aí para todos. Mas a sociedade não deixa. A imensa maioria participa da produção de recursos. Mas u’a minoria muito pequena, pela ambição, pela ganância impede que todos participem da colheita dos frutos do trabalho. Se muitos acham que tudo está em seu lugar, que esta é a vontade de deus, outros não pensam assim e sonham com um mundo melhor e uma sociedade mais justa. A Constituição Brasileira proclama em seu artigo terceiro que são objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil construir uma sociedade livre, justa e solidária, erradicar a pobreza e a marginalização, promover o bem-estar de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quais quer outras formas de discriminação. Estamos perto ou estamos longe disto? Será que está lá no horizonte, como utopia, este país, esta sociedade que tanto desejamos? Eu mesmo, com minha idade, sei que não chegarei lá, mas talvez cheguem nossos filhos ou nossos netos.

O curioso e deprimente é que todo progresso, todos os recursos, toda a riqueza vem do esforço do trabalho. O dinheiro é feito de suor. Mas, será que quem mais tem dinheiro e riqueza são os que trabalham? O próximo sábado, dia 1º de maio, é tido como o dia do trabalhador. Podemos até pensar que os outros 364 dias do ano não serão dias do trabalhador ou serão dias do não-trabalhador… Se a gente voltar ao que conta a Bíblia, a gente vai concluir que o trabalho é a conseqüência do pecado. Na idade média, havia um instrumento de tortura chamado tripalium e é desta palavra que se originou a palavra trabalho. Mas, como quase tudo na vida, esta moeda também tem duas faces. Diz-se que o trabalho dignifica o homem. Dignifica, sim, se o homem come, bebe e vive dos frutos do seu trabalho, do seu labor, da sua labuta, como está no Livro do Eclesiastes, também na Bíblia. Estou trazendo hoje um cidadão, trabalhador, que poucos, raros certamente, conhecem pelo nome. Mas que muitos de Morro do Chapéu provavelmente sabem seu nome de guerra. Cumeeira está aqui para uma pequena entrevista.

Embora não concordassem sobre qual seria o caminho para a felicidade, Sócrates, Platão e Aristóteles achavam que todo esforço humano tem como objetivo a felicidade. Era o que pensavam e diziam, na Grécia antiga, esses pioneiros da filosofia, no 4º século antes de Cristo. A divergência entre eles estava em que Sócrates achava que a felicidade da pessoa estaria no conhecimento de si mesmo, no auto-conhecimento, enquanto que Platão e Aristóteles achavam que a felicidade da pessoa estaria em seu modo de viver. De um modo ou de outro, quem saberá onde encontrar felicidade? Talvez seja na simplicidade, no meio das coisas simples, dos gestos simples, como ensina o Eclesiastes, que nesse instante eu mencionei: comer, beber e viver com os frutos da sua labuta. Isto, quando a labuta é algo gratificante, algo que se gosta de fazer. Neste caso, não sei se o nome da labuta é trabalho mesmo ou se é labor, como se chamava antigamente. Labor-labuta, labuta-labor. No para-choque do caminhão estava escrito: Se você não faz o que gosta, tente gostar do que faz…