Maio 2010


Escute o Prosa & Verso 139

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Músicas tocadas neste programa:
luca chaves – que saudade
gastão formenti – arrependimento
gastão formenti – folhas ao vento
gastão formenti – na serra da mantiqueira
gastão formenti – lua branca
gastão formenti – vingança
gastão formenti – zíngara

Vocês podem pensar que eu sou um saudosista, que vivo lamentando os bons e velhos tempos, como se costuma dizer. Eu posso assegurar que nem sequer sinto saudade de tempos passados. Eu me lembro, sim, é verdade. Minha memória para os fatos ocorridos no passado é razoavelmente boa. E também não posso negar que a música exerce um fascínio em todos nós e, do mesmo modo que os perfumes e os cheiros em geral, nos remete a lembranças, agradáveis ou não. Felizmente, ou não, nossa memória usa de mecanismos de defesa para selecionar aquilo de que lembramos. É por isto que geralmente a lembrança do passado quase sempre nos faz pensar em momentos agradáveis. Porque os momentos desagradáveis vão lá pra o fundo do baú, embora não desapareçam de tudo. Voltam ocasionalmente, sobretudo nos sonhos. De qualquer sorte, um sábio conselho chinês diz que quem esquece o passado corre o risco de revivê-lo. Isto naturalmente faz parte dos erros, dos desacertos e dos maus momentos possíveis de ser evitados. Por outro lado, ficar presos ao passado nos faz ficar como que num atoleiro, sem nos podermos mexer, sem podermos sair do lugar. Isto é a essência de um transtorno mental chamado neurose, a doença neurótica.
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Escute o Prosa & Verso 138

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Músicas tocadas neste programa:
edson gomes – camelô
gonzaguinha – e vamos à luta
anjos do inferno – acontece que sou baiano
marcelo d2 – fala sério
banda de boca – por isso eu corro demais

Um dia desses me perguntaram se eu já tinha trabalhado em cartório ou instituição parecida, porque frequentemente estou me referindo ao modo como a gente deve fazer as coisas e o exemplo que tenho usado é o da pessoa cujo trabalho, cuja tarefa é apenas carimbar documentos. Foi uma lembrança, bem de relance, de quando eu tinha 17 anos e comecei a trabalhar em um banco. Lá minha tarefa era cuidar da expedição de documentos, um trabalho simples, bobo até, mas que eu considerava importante, por ser o meu trabalho, meu primeiro trabalho remunerado. Aquilo era meu ganha-pão. Eu me orgulhava de fazer bem-feito o meu trabalho. E sabe o que era? Selar e carimbar envelopes para envia-los ao correio. De fato eu não procurava a perfeição, mas procurava fazer da melhor maneira que eu podia. Com o passar dos anos, fui aprendendo na labuta que fazer bem-feito não significa fazer melhor do que os outros nem significa fazer com perfeição. Aprendi que o ótimo é inimigo do bom, porque temos, cada um de nós, nossas imperfeições e a destreza como fazemos algumas coisas nos falta ao fazermos outras. O ótimo é inimigo do bom porque tentando compulsiva e obsessivamente fazer o ótimo podemos estar fadados ao fracasso, quando poderíamos ter feito o bom. E acabamos não fazendo nada e com um sentimento de frustração pelo fracasso. No pára-choque de um caminhão, li na estrada: Não tenho tudo o que gosto, mas gosto de tudo o que tenho. Procurei assimilar a idéia e agora passo como sugestão pra você. Se você não faz só o que gosta, tente gostar do que faz. E tente fazer da melhor maneira possível o seu trabalho, por mais simples e sem importância que lhe pareça. Lembro de um amigo que me contou que estava passando por um canteiro de obra e perguntou a um dos pedreiros o que era que ele estava fazendo, ao que o pedreiro, zangado, respondeu: “Não está vendo que eu estou assentando um tijolo? Meu amigo seguiu adiante e deu a volta na esquina, quando encontrou outro pedreiro fazendo exatamente a mesma coisa que seu colega. E perguntou a esse outro pedreiro o que ele estava fazendo. O trabalhador respondeu: “Estou construindo uma escola…”

(Clique no botão PLAY, ao lado, para ouvir a entrevista com João Lima, um técnico em eletrônica da cidade de Morro do Chapéu)

Drocha morreu num dia como este, 14 de maio. Epa! Que lapso! Hoje seria aniversário dele, que morreu mesmo foi a 21 de setembro… Teria valido a pena sua vida? Com que parâmetros medir, avaliar? Só muita petulância para julgar isto. O mistério que transcende nossa vã existência (vã enquanto existência em si) deixa rastros de dúvidas, como fogos-fátuos, como caudas de cometas. Naturalmente, são os filhos e netos (quem sabe mais quem virá a partir dele?) e toda a sua progênie que darão testemunho de sua passagem por aqui (mesmo que tenha sido por ele e por nós outros considerada vã e inútil). São as memórias de todos os que o conheceram que vão imortalizar seu nome. Estas memórias contêm na certa a marca de sua irreverência, com que filosofava em cada tirada mordaz ou de gracejo, como a que está ali no livro de Adylson Machado, Amendoeiras de Outono, mesmo que apenas numa breve citação, breve mas tão fiel ao que lembramos dele: “Ali conhecera a realidade das estiagens, aprendeu a valorizar cada gota d’água, grão de arroz, de feijão, de milho, bocado de farinha. ‘Quem tudo come, tudo caga’, filosofava um tio avô desbocado, Dativo, gargalhando das digressões em sua tenda de seleiro.” [página 41]…
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Escute o Prosa & Verso 137

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Músicas tocadas neste programa:
lecy brandão e otto – vítimas da sociedade
aracy de almeida – rapaz folgado
ataulfo alves – laranja madura
elza soares e sergio fernandes – candidato caô caô
elis regina – a banca do distinto
bezerra da silva – verdadeiro canalha

Você certamente já tem ouvido falar no conto do vigário. E muito provavelmente você deve saber o que significa o conto do vigário. Quem sabe? Talvez até mesmo você já tenha caído um dia no conto do vigário.
Eu já caí pelo menos uma vez. Perdi um bom dinheiro, mas o pior de tudo foi a vergonha que fiquei quando compreendi o mecanismo da tal tramóia.
Acompanhe com atenção este programa e você vai ver como se analisa um comportamento, tão estranho quanto corriqueiro, como o conto do vigário, que é apenas uma das modalidades de enganar e de ser enganado. Vou tentar debulhar aqui neste programa hoje o tal do conto do vigário. O que vamos fazer não é nada mais nada menos do que tirar nossas máscaras para nos ver e conhecer melhor, porque a natureza humana é cheia de escaramuças, disfarces e tapeações. Acho curioso e até engraçado que nos tenham ensinado que Deus nos fez à sua imagem e semelhança. Se assim foi, nós humanos nos encarregamos de trair a imagem de Deus, até nos tornarmos o que hoje deve muito envergonhar este Ser Supremo que nos teria criado. É que o mundo, afinal, é dos espertos, como dizem. E os mais espertos parecem ser os mesmo que Jesus chamou de filhos das trevas, como está no Evangelho, seja lá o que isto queira dizer. O fato é que costumamos ver o outro como o culpado e a nós mesmos como os bonzinhos.
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Temos ouvido e repetido que palavras são palavras, nada mais que palavras… Agora, refletindo, podemos perceber que palavras não precisam ser mesmo nada mais que palavras! Para quem as diz, são importantes, são suas idéias. E que são as idéias? Idéias apenas povoam um mundo inexistente, o mundo interior, solipsista. Nossas idéias só servem para nós mesmos, enquanto permanecerem dentro de nosso mundo, dentro de nossas almas.
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Não se incriminam aqueles que pensam. Nem pecam os que pensam. Nada é o pensamento, se não for concretizado. O crime e o pecado não existem, no mundo das idéias. Fazem parte do mundo exterior, fazem parte do agir. Então, para cada um de nós que produz ondas sonoras, concretizando vocábulos, as palavras são importantes, são fundamentais, são imprescindíveis porque nos aliviam a alma [este mundo interior que não está no âmbito da existência, isto é, que portanto não existe].

Para quem as escuta, nada valem por si mesmas. Aí, sim, palavras não passam de ondas sonoras, movimentos do vento, que com o vento se vão. Palavras ditas pelo outro só se tornam importantes se, ao penetrarem o nosso mundo interior, encontrarem ressonância. Vamos lembrar de Itaca, de Kaváfis:

“Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento,  se sutil
Emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.(…)”

Isto é algo que temos de incorporar, para não nos culparmos pelas palavras pronunciadas nem nos atormentarmos pelas palavras ouvidas. Nossos tormentos são os Ciclops, os Lestrigões e o bravio Possídon que trazemos dentro de nós. Precisamos encarar nossos fantasmas e nossos medos como tais, habitantes de nossas almas. E não as palavras alheias, que pertencem de fato às almas alheias. Isto é o verdadeiro e desejável cinismo diogenesiano. Isto é o que ensina a prática do Zen.