Temos ouvido e repetido que palavras são palavras, nada mais que palavras… Agora, refletindo, podemos perceber que palavras não precisam ser mesmo nada mais que palavras! Para quem as diz, são importantes, são suas idéias. E que são as idéias? Idéias apenas povoam um mundo inexistente, o mundo interior, solipsista. Nossas idéias só servem para nós mesmos, enquanto permanecerem dentro de nosso mundo, dentro de nossas almas.
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Não se incriminam aqueles que pensam. Nem pecam os que pensam. Nada é o pensamento, se não for concretizado. O crime e o pecado não existem, no mundo das idéias. Fazem parte do mundo exterior, fazem parte do agir. Então, para cada um de nós que produz ondas sonoras, concretizando vocábulos, as palavras são importantes, são fundamentais, são imprescindíveis porque nos aliviam a alma [este mundo interior que não está no âmbito da existência, isto é, que portanto não existe].

Para quem as escuta, nada valem por si mesmas. Aí, sim, palavras não passam de ondas sonoras, movimentos do vento, que com o vento se vão. Palavras ditas pelo outro só se tornam importantes se, ao penetrarem o nosso mundo interior, encontrarem ressonância. Vamos lembrar de Itaca, de Kaváfis:

“Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento,  se sutil
Emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.(…)”

Isto é algo que temos de incorporar, para não nos culparmos pelas palavras pronunciadas nem nos atormentarmos pelas palavras ouvidas. Nossos tormentos são os Ciclops, os Lestrigões e o bravio Possídon que trazemos dentro de nós. Precisamos encarar nossos fantasmas e nossos medos como tais, habitantes de nossas almas. E não as palavras alheias, que pertencem de fato às almas alheias. Isto é o verdadeiro e desejável cinismo diogenesiano. Isto é o que ensina a prática do Zen.