Escute o Prosa & Verso 137

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
lecy brandão e otto – vítimas da sociedade
aracy de almeida – rapaz folgado
ataulfo alves – laranja madura
elza soares e sergio fernandes – candidato caô caô
elis regina – a banca do distinto
bezerra da silva – verdadeiro canalha

Você certamente já tem ouvido falar no conto do vigário. E muito provavelmente você deve saber o que significa o conto do vigário. Quem sabe? Talvez até mesmo você já tenha caído um dia no conto do vigário.
Eu já caí pelo menos uma vez. Perdi um bom dinheiro, mas o pior de tudo foi a vergonha que fiquei quando compreendi o mecanismo da tal tramóia.
Acompanhe com atenção este programa e você vai ver como se analisa um comportamento, tão estranho quanto corriqueiro, como o conto do vigário, que é apenas uma das modalidades de enganar e de ser enganado. Vou tentar debulhar aqui neste programa hoje o tal do conto do vigário. O que vamos fazer não é nada mais nada menos do que tirar nossas máscaras para nos ver e conhecer melhor, porque a natureza humana é cheia de escaramuças, disfarces e tapeações. Acho curioso e até engraçado que nos tenham ensinado que Deus nos fez à sua imagem e semelhança. Se assim foi, nós humanos nos encarregamos de trair a imagem de Deus, até nos tornarmos o que hoje deve muito envergonhar este Ser Supremo que nos teria criado. É que o mundo, afinal, é dos espertos, como dizem. E os mais espertos parecem ser os mesmo que Jesus chamou de filhos das trevas, como está no Evangelho, seja lá o que isto queira dizer. O fato é que costumamos ver o outro como o culpado e a nós mesmos como os bonzinhos.

Existem várias explicações para a origem desta expressão jocosa que é o conto do vigário. Segundo o site exactaexpress.com.br, o maior vigarista de que se tem notícias usava o nome de Conde Vitor Lustig [até hoje não se sabe seu nome real]. Ele atuava na França e foi um dos primeiros a aplicar o conto do vigário: Escolheu a vítima, riquíssima, que freqüentava uma praia na Cote D’Azur. Registrou-se num hotel defronte à praia e sentou-se bem próximo do milionário. Ia acompanhado de uma mulher lindíssima e exuberante que ficava olhando, de forma furtiva e com ar sensual, na direção da futura vítima. Enquanto isso, o Conde rasgava os inúmeros telegramas que um funcionário do hotel ia entregando freqüentemente. Querendo se aproximar da mulher, o otário escolhido foi perguntar, se desculpando, por que rasgar tantos telegramas. O Conde explicou “sou homem de negócios, estou sofrendo de tensão nervosa e meu médico sugeriu que tirasse férias; se abrir e ler os telegramas vou voltar a ter problemas com os nervos”. Ficaram amigos, almoçaram e jantaram juntos até que um dia, depois de várias taças de vinho, a vítima insistiu em saber sobre os negócios do Conde. Fingindo-se embriagado o Conde confessou que falsificava dólares com u’a máquina especial. Devido à insistência, concordou em mostrar a máquina. Colocou papel e tinta, ligou e saíram dólares perfeitos, inclusive com numeração alternada. As notas eram boas porque verdadeiras, previamente colocadas na máquina. Pressionado, o Conde concordou em vender a máquina, por altíssimo preço. Recebeu, sumiu e nenhuma outra nota foi produzida. Como reclamar na polícia a compra dessa máquina que não funcionava?

Já o site notícias.terra.com.br conta que uma das histórias mais conhecidas, e defendida pela pesquisadora Denise Lotufo, teria como palco uma disputa entre dois vigários em Ouro Preto, ainda no século XVIII. De acordo com Denise, tudo começou com a disputa entre os vigários das paróquias de Pilar e da Conceição pela mesma imagem de Nossa Senhora. Um dos vigários teria proposto que amarrassem a santa num burro que estava solto na rua. Pelo plano, o animal seria solto entre as duas igrejas. A paróquia que o burro tomasse a direção ficaria com a imagem. O animal foi para a igreja de Pilar, que acabou ganhando a disputa. Mais tarde teria sido descoberto que o burro era do vigário dessa igreja. Segundo a pesquisadora, essa é uma das possíveis origens da palavra vigarista. O livro Os Vigários Mineiros no Século XVIII, de Lourdes Aurora Campos de Carvalho, e Ditos e Provérbios do Brasil, do já falecido Luís da Câmara Cascudo, também apresentam uma versão semelhante. Mas Portugal também tem sua explicação para a origem do termo. Segundo a série literária Contos e Lendas de Portugal, da pesquisadora Natércia Rocha, um golpe aplicado no século XIX foi o responsável pela má fama dos vigários. Alguns malandros chegavam a cidades desconhecidas e se apresentavam como emissários do vigário. O grupo afirmava que tinha uma grande quantia de dinheiro numa mala que estava bem pesada e que precisaria guardá-la para continuar viajando. Mas, como garantia, solicitavam aos moradores da cidade uma quantia de dinheiro para viajarem tranqüilos. E assim desapareciam. Quando a população abria a maleta descobria um monte de bugigangas sem valor. E assim, a fama do vigário era manchada.

De acordo com Reinaldo Pimenta em seu livro, A Casa da Mãe Joana,
vigário tem o sentido de substituto. É o padre que substitui o pároco ou, popularmente, o próprio pároco. Pode ser que a expressão Conto-do-Vigário tenha sido daí, ou seja, é o golpe que alguém aplica fazendo-se passar por outro. Conta-se também a história de um vigário que, em troca de dinheiro miúdo para despesas urgentes, teria confiado a uma pessoa honesta um embrulho que, segundo ele, continha uma grande quantia em dinheiro, mas na verdade era tudo papel sem valor. Existe ainda outra tese para a origem da expressão. Entre os nobres da corte portuguesa que vieram parar no Brasil, em 1808, havia um farsante que se anunciava herdeiro de um riquíssimo vigário de Portugal. Por conta da futura herança, o sujeitinho morava, comia e bebia à tripa forra, anunciando que tudo pagaria, assim que o vigário português fosse ao encontro do Senhor. O vigarista sumiu, legando suas dívidas aos credores. Outra explicação nos dá Márcio Bueno, que assim escreve em seu livro, A Origem Curiosa das Palavras: Conto do vigário é um golpe engenhoso, aplicado por indivíduo que se finge de ingênuo, induzindo a vitima a pensar que estará obtendo uma grande vantagem, ilícita, sobre o golpista. A maneira como as coisas se passam dificultam a queixa à polícia porque a vítima teria que confessar suas más intenções. De Conto do Vigário acabou derivando o termo vigarista. O golpe apresenta numerosas modalidades. Na forma clássica, o golpista mostra à vítima vários pacos, que são pacotes simulando cédulas de dinheiro, em que apenas as primeiras e as últimas são verdadeiras [os miolos dos pacotes são papéis em branco, inúteis, cortados exatamente na medida das cédulas]. O golpista diz que precisa de alguém honesto para guardar provisoriamente aquela fortuna que recebeu de herança, e pede uma importância menor, ainda que alta, para as despesas imediatas. E, claro, desaparece. A origem do nome é motivo de uma polêmica infindável. Vários dicionários brasileiros apresentavam Conto do Vigário como um brasileirismo, isto é, uma criação brasileira, o que implicaria que o próprio golpe também fosse coisa nossa. Mas, uma citação de Fernando Pessoa registrada pelo novo Aurélio, desmentiria essa convicção: “ninguém já engana ninguém [o que é tristíssimo] na terra natal do Conto do Vigário, isto é, em Portugal.” Já o escritor brasileiro Melo Morais Filho afirmou, em 1904: “Na morena Espanha, país natal de Cervantes e dos boleros, nasceu o famoso conto-do-vigário. “O etimólogo Antenor Nascentes endossou a teoria, explicando que lá a expressão é conhecida como cuento-del-tio porque se baseia na história mirabolante contada pelo golpista, de uma herança deixada por um tio vigário a um sobrinho órfão. Brasil, Portugal ou Espanha? Descobrir onde o golpe foi criado poderia ajudar a encontrar a origem do nome. Mas, como se pode perceber, o inventor parece ter tido a habilidade de embaralhar as pistas, para jamais ser descoberto.

Finalmente, o dicionarista SILVEIRA BUENO diz que a expressão originou-se de não crer o povo nas narrações de fatos miraculosos do vigário, do pároco. De qualquer forma, o Dicionário Houaiss, mais benevolente, define o conto do vigário como o delito que consiste em ludibriar incautos e gananciosos, oferecendo-lhes grandes vantagens aparentes, como, p.ex., a venda de produto valioso (falsificado) por valor bem inferior ao do mercado. E, como extensão, qualquer manobra de má-fé em que se empregam meios ardilosos para tomar dinheiro aos incautos.

Pois, não é? Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão. Mas quem é ladrão? Quem passa, ou quem cai no conto do vigário? Ou não serão os dois? Quem passa o conto do vigário é conscientemente ladrão. Mas só cai no conto do vigário quem também é ambicioso, julga-se sabido e que os outros são trouxas. Acha inclusive que estará enganando justamente aquele que veio enganá-lo. Quem passa o conto do vigário merece cadeia. Mas Quem cai no conto do vigário merece mesmo cair. Esta é a sua punição. O conto do vigário é como o canto das sereias. Eu suponho que o canto da sereia é a fina flor da tentação. O presunçoso, o que se acha forte, poderoso contra as tentações, dono de uma vontade férrea, pode ser o alvo e a vítima mais fácil de cair em tentação. Na Odisséia, Homero nos conta que Ulisses, que era experiente, fez-se amarrar firmemente com uma corda em um mastro do seu navio, pra não cair no canto das sereias quando voltava para Ítaca, depois da guerra de Tróia. E Jesus ensinou que devemos pedir ajuda ao Pai Nosso, para que não nos deixe cair em tentação. O canto da sereia está por trás das promessas de realizar nossas ambições de poder, de ter e de ser, respectivamente arrogância, ganância e vaidade. E de arrogância, ganância e vaidade o mundo está cheio.

No fim de semana retrasado tivemos em Morro do Chapéu a grata e surpreendente satisfação de assistir no Teatro Odilon Costa, da Sociedade Filarmônica Minerva, a peça “Quarta-feira lá em casa sem falta”, de Mário Farias Brasini. A peça foi dirigida por Marcos Bagano e estrelada por Jailda Miranda e Gisélia Marques, que surpreenderam pela performance, numa interpretação primorosa, tanto cômica como trágica em seus devidos momentos. O desempenho das atrizes arrebatou a atenção da platéia durante todo o tempo e o ótimo texto nos brindou ainda com um final imprevisível e instigante. Excelente qualidade. A propósito, a peça ficou 10 meses em cartaz em São Paulo e reuniu 43 mil espectadores. Tomara que volte a ser encenada e outras vezes reprisada para que Morro do Chapéu possa vê-la e revê-la. Marcos, Jailda e Gisélia estão de parabéns.