Drocha morreu num dia como este, 14 de maio. Epa! Que lapso! Hoje seria aniversário dele, que morreu mesmo foi a 21 de setembro… Teria valido a pena sua vida? Com que parâmetros medir, avaliar? Só muita petulância para julgar isto. O mistério que transcende nossa vã existência (vã enquanto existência em si) deixa rastros de dúvidas, como fogos-fátuos, como caudas de cometas. Naturalmente, são os filhos e netos (quem sabe mais quem virá a partir dele?) e toda a sua progênie que darão testemunho de sua passagem por aqui (mesmo que tenha sido por ele e por nós outros considerada vã e inútil). São as memórias de todos os que o conheceram que vão imortalizar seu nome. Estas memórias contêm na certa a marca de sua irreverência, com que filosofava em cada tirada mordaz ou de gracejo, como a que está ali no livro de Adylson Machado, Amendoeiras de Outono, mesmo que apenas numa breve citação, breve mas tão fiel ao que lembramos dele: “Ali conhecera a realidade das estiagens, aprendeu a valorizar cada gota d’água, grão de arroz, de feijão, de milho, bocado de farinha. ‘Quem tudo come, tudo caga’, filosofava um tio avô desbocado, Dativo, gargalhando das digressões em sua tenda de seleiro.” [página 41]…

Afinal, não é maior honra ser citado que de fato publicar de punho próprio?… Lembro freqüentemente das gargalhadas dele, não gargalhadas ruidosas, mas gargalhadas acompanhadas de lacrimejamento, como se fosse tão custoso rir. E era, parecia. O velho era sisudo, sempre alegando dor de cabeça. Mas quando ria, e ria sempre com aqueles olhos marejados, iluminava minha alma de criança, mesmo depois que cresci e vaidosamente passei a me julgar mais inteligente, mais culto, mais sabido, mais civilizado do que ele…

Como são tolos os filhos! Hoje, quando sou possuído destas lembranças, na data que seria seu aniversário, primeiro elas vêm discretas marejar meus olhos, depois eclode a profusão. É a nostalgia, a dor da ausência? Talvez não! É o eco do nunca mais! Queria que o tempo desse a volta, que Drocha estivesse aqui, que eu pudesse acariciar seus cabelos brancos e ralos, sua barba, queria poder dar-lhe um abraço demorado, se ele deixasse… Nenhuma palavra. Nenhum comentário, nenhum pedido de desculpas…

Agora que mudei de lado, já não sou mais filho, é que sei como dói ter filhos nos moldes do que fui… E, no entanto, é inevitável que pais e filhos cumpram seus destinos, reescrevendo implacavelmente a maldição da Esfinge retratada por Sófocles. Se Édipo só consegue enxergar tardiamente e se sua dor é tão grande que ele mesmo se lhe fura os olhos, Laio tem que ser morto, já muito tempo depois, tempo suficiente para carregar sua culpa pelo que de fato nem consumara. Tem que ser morto pelo filho. Preciso lembrar que a morte de Laio, no mito, não é por envenenamento nem por crueldade, nem mesmo por disputa do amor de Jocasta, mas pela disputa de um direito de seguir o caminho barrado pelo pai. Édipo, que sou, tendo matado meu pai, não preciso mais ter olhos para enxergar. Laio, que sou, preciso ser morto seis vezes, para que cada um dos meus filhos, que são seis, também cumpra seu destino.

Drocha não morreu num 14 de maio. Morreu num 21 de setembro. Tanto faz se dia da árvore ou se início da primavera. O significado é o mesmo…