Sex 14 Mai 2010
Drocha morreu num dia como este, 14 de maio. Epa! Que lapso! Hoje seria aniversário dele, que morreu mesmo foi a 21 de setembro… Teria valido a pena sua vida? Com que parâmetros medir, avaliar? Só muita petulância para julgar isto. O mistério que transcende nossa vã existência (vã enquanto existência em si) deixa rastros de dúvidas, como fogos-fátuos, como caudas de cometas. Naturalmente, são os filhos e netos (quem sabe mais quem virá a partir dele?) e toda a sua progênie que darão testemunho de sua passagem por aqui (mesmo que tenha sido por ele e por nós outros considerada vã e inútil). São as memórias de todos os que o conheceram que vão imortalizar seu nome. Estas memórias contêm na certa a marca de sua irreverência, com que filosofava em cada tirada mordaz ou de gracejo, como a que está ali no livro de Adylson Machado, Amendoeiras de Outono, mesmo que apenas numa breve citação, breve mas tão fiel ao que lembramos dele: “Ali conhecera a realidade das estiagens, aprendeu a valorizar cada gota d’água, grão de arroz, de feijão, de milho, bocado de farinha. ‘Quem tudo come, tudo caga’, filosofava um tio avô desbocado, Dativo, gargalhando das digressões em sua tenda de seleiro.” [página 41]…
Afinal, não é maior honra ser citado que de fato publicar de punho próprio?… Lembro freqüentemente das gargalhadas dele, não gargalhadas ruidosas, mas gargalhadas acompanhadas de lacrimejamento, como se fosse tão custoso rir. E era, parecia. O velho era sisudo, sempre alegando dor de cabeça. Mas quando ria, e ria sempre com aqueles olhos marejados, iluminava minha alma de criança, mesmo depois que cresci e vaidosamente passei a me julgar mais inteligente, mais culto, mais sabido, mais civilizado do que ele…
Como são tolos os filhos! Hoje, quando sou possuído destas lembranças, na data que seria seu aniversário, primeiro elas vêm discretas marejar meus olhos, depois eclode a profusão. É a nostalgia, a dor da ausência? Talvez não! É o eco do nunca mais! Queria que o tempo desse a volta, que Drocha estivesse aqui, que eu pudesse acariciar seus cabelos brancos e ralos, sua barba, queria poder dar-lhe um abraço demorado, se ele deixasse… Nenhuma palavra. Nenhum comentário, nenhum pedido de desculpas…
Agora que mudei de lado, já não sou mais filho, é que sei como dói ter filhos nos moldes do que fui… E, no entanto, é inevitável que pais e filhos cumpram seus destinos, reescrevendo implacavelmente a maldição da Esfinge retratada por Sófocles. Se Édipo só consegue enxergar tardiamente e se sua dor é tão grande que ele mesmo se lhe fura os olhos, Laio tem que ser morto, já muito tempo depois, tempo suficiente para carregar sua culpa pelo que de fato nem consumara. Tem que ser morto pelo filho. Preciso lembrar que a morte de Laio, no mito, não é por envenenamento nem por crueldade, nem mesmo por disputa do amor de Jocasta, mas pela disputa de um direito de seguir o caminho barrado pelo pai. Édipo, que sou, tendo matado meu pai, não preciso mais ter olhos para enxergar. Laio, que sou, preciso ser morto seis vezes, para que cada um dos meus filhos, que são seis, também cumpra seu destino.
Drocha não morreu num 14 de maio. Morreu num 21 de setembro. Tanto faz se dia da árvore ou se início da primavera. O significado é o mesmo…
Data do artigo: Sexta-feira, 14 dAmerica/New_York Mai dAmerica/New_York 2010 às 11:17 am | Categoria : Prosa e Comportamento | Deixe um comentário
8 comentários para o artigo “Tributo a Drocha”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Maio 14th, 2010 at 11:58 am
Estava no meio de uma leitura (no Ministério da Saúde), quando comecei a buscar uma página de pesquisa. Não sei o que aconteceu que a página aberta foi esta. Fiquei muito emocionada e cheia de culpa. Você sabe bem disso. Foi bom. Parei pra pensar nele e me fez muito bem.
A gente conversa no domingo.
Te amo, reca
Maio 14th, 2010 at 2:03 pm
Eu que tiive tão pouco contato com meu avô, neste momento me senti um pouco mais perto dele. Tenho lembraças, muitas até. Estas lembranças não envolvem carinhos e afagos, não me lembro das gargalhadas, ou risadas, ou sorrisos (claro que não quer dizer que não existiram), mas me lembro dele sempre presente. A sensação é de que tenho um passado além da minha vida. Vovô Dativo é a conexão mais antiga que tenho com uma linha que descende não-sei-de-onde.
Engraçado como as coisas são. A dias tenho pensado em como, sem cuidados, a gente se perde a cada 2 ou 3 gerações. O conhecimento se perde. As pessoas que se foram, se perdem.
Estava lembrando de um dia em que viajava com Iury e o três meninos e comentei o fato de os meninos não saberem nada dos bisavôs deles e que pra eles (os meninos) essas pessoas nada significavam.
Tenho pensado nisso recentemente e pensado em como, e se vale a pena, manter esse conhecimento vivo. Não achei resposta ainda, pois acho que minha geração e as próximas são muito centradas em si e no presente e não conseguem olhar pra quem está a frente muito menos pra quem está atrás.
Me emocionei ao ler o texto. Acho que pelo fato de saber tão pouco de alguém tão próximo. E também por me sentir, ao ler, um pouco mais perto dele e de meu pai.
Agora fico aqui desejando o abraço e afagos que só meu pai sabe dar.
Esse foi meu momento.
Maio 14th, 2010 at 7:56 pm
Tenho que me penitenciar publicamente pelo meu engano. O texto já tinha sido publicado há três anos e eu tinha esquecido de que o tinha publicado. Posteriormente me dei conta do esquecimento e fui verificar, porém o julguei atual, pelos sentimentos que contém e pelos que me evoca. Peço desculpas aos que já o tinham lido e espero que compreendam como o envelhecer dá lugar a deslizes e lapsos de memória como este que, de tão broco, beira o ridículo…
Maio 15th, 2010 at 12:43 am
É isso… o tempo vai passando, a vida vai acontecendo e num minuto tudo muda. Acho que posso agradecer ao meu avô por ter me dado pai que tenho.
Maio 15th, 2010 at 11:25 am
Caríssimo
Muito satisfeito em descobrir, ainda que tarde - afinal, há, pelo menos, PROSA & VERSO 137 - o espaço da família Moreira (parece-me). E descobri-lo com texto tão tocante, mormente para nós outros que nos vimos vivenciando uma Monte Alegre cada dia mais distante.
Sinto, ao lembrar de seu pai, tornado personagem en passant em nosso “Amendoeiras de Outono” (segunda edição saiu), que nos falta a todos o “acaso” dos reencontros, como rever Dativo em Monte Alegre enquanto brincávamos com a liberdade da infância, descobrindo os mistérios no muro do antigo cemitério no “Campo do Gado”, materializados nos grilos pretos (para nós, expressão de diabos e almas penadas) assustando-nos e fazendo-nos correr, desabalados ladeira abaixo, em busca dos lares de cada um, onde chegávamos arfantes, escondendo-nos de Ninita e Adelaide, para que não descobrissem a dimensão e risco da aventura empreendida.
Dativo é parte disso tudo, um “acaso” imensamente “necessário”.
Grato por haver me permitido descobrir jorgerocha.redeaberta.
Um forte abraço
Adylson
Maio 17th, 2010 at 2:37 am
Para adicionar, coloquei um video que sempre me vem a cabeça quando lembro do meu avô.
Maio 17th, 2010 at 11:41 am
Deu saudades de Drocha!! Que figura… o que era mesmo que ele estava cavando com aquele pedaço de pau??
Maio 17th, 2010 at 2:35 pm
Eu não sou uma pessoa que lê este artigo e entende muito bem das coisas escritas nele mas entendo que a morte é pra sempre, e que devemos aproveitar cada momento e olhar mais para as pessoas queridas e que estão próximas da gente, tentar entender e mesmo não concordando com os pensamentos daquela pessoa pelo menos respeitar. ‘’Só se vive uma vez”, e temos que viver a cada momento. Abraçar mais vezes, olhar com mais carinho e dizer com gestos, porque acredito eu que valem mais que qualquer palavra. Gesto este que pode ser um afago um abraço dar um beijo, ou simplesmente olhar com ternura. Talvez seja pouco pra você demonstrar que gosta, mas pode ter certeza que é muito para quem o recebe.
Eu fico me perguntando porque só depois que uma pessoa querida morre é que a gente vai se dar conta de que deveríamos ter aproveitado mais, ter dito com gesto que a amava. Será que a gente só se dá conta disto depois que a morte vem e a leva pra longe da gente? E antes da morte o que aconteceu com cada um de nós, pra não ter dito o que sentia, quando esta pessoa estava viva?
Faltou coragem ou achávamos que a vida era eterna?