Escute o Prosa & Verso 139

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Músicas tocadas neste programa:
luca chaves – que saudade
gastão formenti – arrependimento
gastão formenti – folhas ao vento
gastão formenti – na serra da mantiqueira
gastão formenti – lua branca
gastão formenti – vingança
gastão formenti – zíngara

Vocês podem pensar que eu sou um saudosista, que vivo lamentando os bons e velhos tempos, como se costuma dizer. Eu posso assegurar que nem sequer sinto saudade de tempos passados. Eu me lembro, sim, é verdade. Minha memória para os fatos ocorridos no passado é razoavelmente boa. E também não posso negar que a música exerce um fascínio em todos nós e, do mesmo modo que os perfumes e os cheiros em geral, nos remete a lembranças, agradáveis ou não. Felizmente, ou não, nossa memória usa de mecanismos de defesa para selecionar aquilo de que lembramos. É por isto que geralmente a lembrança do passado quase sempre nos faz pensar em momentos agradáveis. Porque os momentos desagradáveis vão lá pra o fundo do baú, embora não desapareçam de tudo. Voltam ocasionalmente, sobretudo nos sonhos. De qualquer sorte, um sábio conselho chinês diz que quem esquece o passado corre o risco de revivê-lo. Isto naturalmente faz parte dos erros, dos desacertos e dos maus momentos possíveis de ser evitados. Por outro lado, ficar presos ao passado nos faz ficar como que num atoleiro, sem nos podermos mexer, sem podermos sair do lugar. Isto é a essência de um transtorno mental chamado neurose, a doença neurótica.

Uma outra coisa, é que a arte não tem idade. A arte, a expressão da beleza, permanece sempre jovem e atual. Basta que nos livremos dos preconceitos e voltemos os olhos e os ouvidos e também a nossa sensibilidade para apreciar e saborear o belo. Afinal, o tempo corre dando voltas e vamos passando por situações quase iguais às que já foram vividas. Assim é também com as artes. Hoje em dia, nestes tempos chamados de pós-modernos, tempos de muita velocidade, muita turbulência e muita incerteza e, naturalmente, de muita superstição camuflada, ainda podemos parar um pouco, enxugar o suor da face, respirar um pouco e escutar alguns exemplos de música que, como o vinho, foi ficando melhor e mais depurada com o passar dos anos. Eu teimo aqui em trazer a musicalidade da serenata, já quase centenária e que ainda chega a sensibilizar velhos e novos ouvintes. É o que posso concluir pelas manifestações que ouço aqui e ali.

As serenatas são quase que invariavelmente românticas, melosas e supõem uma harmonia nas relações humanas que ficam, como todo o romantismo, em um nível fantasioso, que não são mais do que a aspiração do artista, do que ele gostaria que fosse. Não do que é. Falam de um mundo irreal, idealizado, de um amor puro, quase casto, onde a mulher é como uma flor ou uma santa e o homem como um herói. É um estilo artístico impregnado de culpa e de sedução. São como merendas doces e guloseimas, para se apreciar, mas não são como alimentos para nutrir.

Antigas serenatas, belas e românticas, lembram uns versos de dom Hélder Câmara: VELHOS VINHOS
Agora
Que a velhice começa
Preciso aprender com o vinho
A melhorar, envelhecendo
E sobretudo
A escapar
Do perigo terrível
De envelhecendo
Virar vinagre…
Suponho que estas canções que estou trazendo hoje envelheceram, mas como um bom vinho. Não se tornaram vinagre.

Algumas letras de canções de seresta expressam emoções fortes, nem sempre românticas e melosas. Trazem sentimentos destrutivos, que são aspectos próprios das crises. Tenho refletido acerca das crises e de sua importância para o crescimento das pessoas. Conheci um padre educador que ajudou em minha formação e que costumava dizer: toda crise é sinal de progresso. Aprendi com ele a enfrentar as crises com altivez e confiança e a aceitar as críticas com gratidão. Já mais velho e vivido, percebi que na verdade nem toda crise é sinal de progresso, mas apenas aquela crise que é devidamente refletida, absorvida e assimilada. Crise e crítica têm a mesma raiz etimológica, são palavras e conceitos irmãos. Aprendi também que não há, como tanto se costuma dizer, crítica destrutiva. Entendo que toda crítica é em si construtiva e que cabe ao destinatário da crítica o trato que lhe convier. Do mesmo modo que pérolas podem ser jogadas fora, no lixo, críticas podem ser rechaçadas e não aproveitadas. Vejo a crítica com um gesto amoroso, mesmo que seja doído, como o gesto de um cirurgião que salva uma vida, mesmo que tenha de ferir a pessoa a quem está tentando salvar. Bem vindas são as crises e as críticas.

Talvez nenhum só dos ouvintes do Prosa & Verso conheça, ou mesmo tenha ouvido falar nos cantores que eu estou trazendo hoje. O primeiro que cantou ainda é vivo e sua composição é dos anos 60. Mas o outro, que interpretou as demais cantigas, já faleceu em 1974, muitos anos depois de ter deixado a vida artística. Suas gravações datam de 1930 a 1940. Daqui a pouco, vou dar os seus nomes e os nomes das músicas que interpretaram.