Escute o Prosa & Verso 140

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Músicas tocadas neste programa:
carmem miranda e mário reis – isto é lá com santo antônio
linda batista – nega maluca
catuaba com amendoim – garajão
ciro monteiro – se acaso você chegasse
luiz melodia - rosa
ângela maria e cauby peixoto – a noiva
altamiro carrilho – primeiro amor

Acabamos de sair do mês das noivas e de passar ao mês dos santos que, no imaginário popular da tradição católica, estão intimamente relacionados ao casamento, Santo Antônio, São João e São Pedro. Hoje, trazemos o tema das noivas que, começando em maio, se estende até o dia 13 de junho, quando as moçoilas casadoiras, como diria qualquer esnobe de plantão, solteiras remanescentes de maio, estarão contritas em suas preces e promessas ao santo casamenteiro, no dia seguinte, portanto, ao dia dos namorados. Até a metade do século passado, era de bom tom para qualquer mocinha de família, como se dizia, só namorar pra casar. De modo que o dia dos namorados, sendo a véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro, fazia supor que o caminho fatal do namoro seria o casamento. E era aí que entraria a interferência do santo que, curiosamente, trás em seus braços uma criança de colo. E santo Antônio naturalmente deveria interferir neutralizando a malandragem comum aos rapazes.

Os namorados, malandramente, se aproximam dos brotos e, com ardil, lhes preparam as armadilhas. As jovens, por outro lado, dão o troco, também ardilosamente, com preces, promessas e simpatias, algumas aliás de higiene e gosto duvidosos. Todas sabem do que estou falando. Isto me faz pensar em como as noivas são como flores: ambas, promessas. Umas belas, outras estranhas; umas muito agradáveis ao olhar e ao olfato, outras nem tanto; umas só agradáveis ao olhar e outras deliciosamente agradáveis ao olfato; umas chegam a ser apetitosas, mas outras, tão atraentes quão perigosas. Umas são verdadeiros remédios, como o antisséptico, a flor calêndula, que é a flor do mal-me-quer, calmantes como a flor da laranjeira, outras francamente venenosas como o bonito copo-de-leite com seu traje branco; Umas traiçoeiras e devoradoras como as carnívoras, outras sedutoras e causadoras de alucinações, as alucinógenas, como a datura, conhecida como trombeta e a papoula, donde é extraído o ópio. Vejam bem: estou falando de flores! Embora sua semelhança e analogia com as noivas não sejam tão raras assim, a ponto de se deixar pra lá.

Humor à parte, ouvem-se de quando em vez uma estória de que um pretendente deixou sua noiva toda paramentada esperando no pé do altar e caiu fora, sem deixar pistas. Existem estórias também de noivas que deixaram o ex-futuro-felizardo a ver navios e se pirulitaram mundo afora. Contam-se de umas que fugiram com um cara do circo ou mesmo com um mascate, um vendedor ambulante. Eu conheço um caso de uma noiva que resolveu dar uma despedida de solteira também, à moda dos machões e foi experimentar o fruto proibido em outra árvore. No dia seguinte, ajustou o véu e a grinalda e foi dizer o sim ao pé do altar, prometendo fidelidade eterna. Este casal mora ainda está vivo e seu casamento se mantém há pelo menos 40 anos. Estará brevemente celebrando suas bodas de ouro. Surpreendentemente, é um casal harmônico, amoroso, amadurecido, com três filhos que, até onde tenho conhecimento, foram muito bem criados. E, como se não bastasse a surpresa, ela um dia contou sua transgressão ao marido. E, evidentemente, ele pesou na balança e se manteve com ela.

Naturalmente em uma linguagem figurada, a mitologia de todos povos é muito rica em sabedoria ao retratar o que se passa no mundo interior dos homens e das mulheres, seus desejos, seus anseios, sua bondade e sua maldade. Ao refletir sobre este tema das noivas, lembrei da estória de um artista chamado Pigmalião, que fez uma estátua tão perfeita que se apaixonou por ela. Como todo apaixonado, não conseguia encontrar outra mulher tão perfeita quanto sua estátua e então sua vida se tornou muito solitária. A deusa Afrodite, vendo-o assim e, atendendo a um seu pedido e não encontrando u’a mulher que chegasse aos pés da que Pigmaleão esculpira, em beleza e pudor, transformou a estátua nu’a mulher de carne e osso, com quem Pigmaleão se casou e com quem teve um filho chamado Pafos. O mito de Pigmaleão é vivenciado frequentemente pelos homens e mulheres, principalmente na fase de namoro e noivado, quando os apaixonados são tomados de deslumbramento que, aos olhos dos outros, pode chegar a ser ridículo. Isto porque a paixão impede que os enamorados vejam com clareza o parceiro ou a parceira como são de fato. Dizem que o amor é cego, mas quem é cega mesmo é a paixão, que não passa de uma doença do amor.

Faz parte de nossa cultura, e provavelmente fará parte ainda por muitos anos, o sonho das moças em casar-se, no padre e no cível, em uma cerimônia cheia de pompa, vestidas de branco, com véu e grinalda. Não as censuro. Mas olho para elas, e eles também, com certa piedade, porque aquilo é a tentativa de concretizar, de materializar os contos de fadas. O casamento é muito mais do que aquele ritual. Muito mais do que simplesmente deixar a casa e a tutela dos pais para viver com outra pessoa, que muitas vezes nem se conhece bem. Apenas estão apaixonados, um olhando para o outro, mas como se tivessem viseiras, atrás das quais está o resto do mundo. Mas é um caminho pelo qual a grande maioria das pessoas da chamada classe média está fadada a passar. Um sonho, encarado como realidade, que costuma desvanecer às vezes pouco tempo depois da lua de mel. E de que é que é feita a nossa vida, senão das experiências pessoais, com seus erros e acertos, sucessos e fracassos? Neste mês de junho, vou fazer aqui no Prosa e Verso considerações a respeito desta comunidade chamada família. O que vem após o casamento. Se você quiser ter uma participação mais próxima, escreva suas sugestões e deixe aqui na portaria da Rádio Diamantina, que vamos utilizar na elaboração dos próximos programas.