Quando leio O Príncipe, de Maquiavel, tenho a nítida impressão de que príncipe e povo são inimigos.
A tática, na guerra, é ardilosa, mas não é desleal, porque entre os inimigos não há qualquer pacto de lealdade.
Entre os amigos, o ardil, a treta, a mentira são pura deslealdade.
Entre os inimigos, a tática é uma forma de sabedoria. Entre os amigos, uma traição.

Se aprendermos que na vida todos são inimigos, competidores, êmulos, rivais, usaremos a tática como método de relacionamento, onde o ardil e a mentira, o engano, o logro, o cinismo são os instrumentos.

Já nas relações amorosas, nas de amizade, nas relações solidárias e até nas relações puramente sociais, onde haja os elementos companheirismo, cooperação e consideração recíproca, não há lugar para a disputa, a competição. Não há portanto lugar para o maquiavelismo, com seu engodo, sua mentira, sua trapaça.

Até quando lutamos em uma academia com nossos colegas, a noção de companheirismo e lealdade têm de estar presentes. Mesmo quando a luta é competitiva, como em um torneio ou em um concurso, não se dispensa a lealdade, embora a competição implique a não-cooperação. Mas não a deslealdade, o desrespeito, a desconsideração.

Até com o inimigo em plena batalha não se dispensa o respeito. Na luta, pode-se matar e às vezes até se deva matar. Torturar, nunca! Vilipendiar, nunca! Humilhar, nunca!
Mentir para o inimigo é lícito para proteger-se.
Mentir para um adversário [que não é um inimigo], como técnica competitiva, como tática, também é lícito, desde que faça parte das regras do jogo.

Há jogos em que a disputa é ditada pela ganância, pela arrogância e pela vaidade. Há outros jogos em que a disputa não é propriamente uma disputa; é uma permuta.
Por exemplo, o jogo de pôquer, como os chamados jogos de azar, está na primeira categoria. O jogo de xadrez está na segunda categoria.
Mesmo nos jogos de azar, onde a mentira é aceita como uma regra, a trapaça é rechaçada e punida. Em alguns meios, é punida com a morte.
Nos jogos de azar, aceita-se a mentira em forma de blefe, mas não a mentira em forma de trapaça, que é desleal pois transgride o acordo. Quem joga pôquer ou outro qualquer jogo de azar, deve saber disto e, se joga, joga porque assim concorda.

A vida não é simplesmente um jogo de azar. Se na vida há um elemento azar-ou-sorte, há também outro elemento necessidade-empenho. Se há competição, há também colaboração. As regras são diversas, portanto.
Este discernimento faz parte do caráter, da ética.

Nas relações de amizade, nas relações que implicam cumplicidade, como na psicoterapia de grupo, ambiente em que as regras preestabelecidas rezam que não deve haver competição, mas somente colaboração, onde as regras definidas e aceitas apontam para a sinceridade total, não há lugar jamais para a mentira e a deslealdade.