Escute o Prosa & Verso 141

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Músicas tocadas neste programa:
antúlio madureira – chegança de mouros
antúlio madureira – frevos para marimbau
antúlio madureira – ária das bachianas nº 5
augusto calheiros e turunas da mauricéia - pinião
augusto calheiros – casa desmoronada
augusto calheiros – avemaria
grupo vou vivendo - assanhado

Hoje estou trazendo dois cantores compositores, ambos do Nordeste, com quase um século de diferença um do outro. Augusto Calheiros, que muitos ouvintes já conhecem e certamente se lembram com saudade e simpatia pela sua voz afinada e tão peculiar e pelo seu repertório. O outro, Antúlio Madureira, músico contemporâneo, inovador e talentoso. Antúlio Madureira, pernambucano, cresceu entre notas musicais, teatro e dança. Desde cedo, deixou-se envolver por este mundo mágico, descobrindo seus dons e dedicando seu talento à cultura. Durante vinte anos trabalhou com o Balé Popular do Recife, fundado por sua família em 1977. O grupo serviu de palco para grande parte de seu desenvolvimento como artista, onde foi bailarino e diretor musical. Paralelamente, traçava sua instigante trajetória artística em outros movimentos. Participou do Quinteto Armorial, da Orquestra Romançal, do Trio Romançal Brasileiro, compôs trilhas sonoras para espetáculos de dança e teatro. Sua formação passa pelo Conservatório Pernambucano, pela Escola de Belas Artes e Licenciatura em Música pela Universidade Federal de Pernambuco.

Mas o inquieto Antúlio sempre foi além do estudo de instrumentos tradicionais. E o músico tornou-se um artesão musical, que cria, recria e aperfeiçoa instrumentos, a partir de objetos comuns. Este talento foi revelado por acaso. Há vinte anos, quando recebeu o convite de seu irmão, o maestro Antônio José Madureira, para tocar em uma Orquestra que teria instrumentos tradicionais e nordestinos, começou a pesquisar o marimbau.

Desenvolveu Antúlio Madureira uma nova técnica de execução, e a partir daí vieram a marimbaça, a cabala, o tubo sonoro… Hoje, o multiartista apresenta seu espetáculo em que toca, canta e dança as mais legítimas manifestações culturais nordestinas. Experimentalista, executa temas eruditos de forma popular e toca temas populares com técnicas eruditas, buscando assim, um som universal e não discriminatório. Aliás, muito a ver com nosso momento, onde a copa do mundo se realiza na África do Sul que, por força da luta de Nelson Mandela, aboliu o apartheid.

O outro artista, já falecido há mais de 50 anos, caboclo forte de Maceió, descendente verdadeiro de índios, é Augusto Calheiros, que nasceu na capital alagoana, numa família em boa situação, mas que começou a passar dificuldades com o falecimento do chefe, quando Calheiros tinha apenas nove anos de idade. Rapazola, muda-se para Garanhuns, aí trabalhando como dono de bar, fabricante de sapatos, hoteleiro, subdelegado e carcereiro. A música, porém, sempre povoava seus sonhos e projetos. Cantava no cinema e teatro locais. Em 1923, dá-se sua ida para a capital pernambucana, onde começa a atuar na Rádio Clube de Pernambuco, inaugurada oficialmente, em 17.10.1923, como a Segunda rádio transmissora brasileira. Nada ganhava. Em 1926, forma um conjunto musical que, por sugestão do historiador Mário Melo, passou a chamar-se Turunas da Mauricéia, em alusão ao governador holandês do séc. XVII, Maurício de Nassau. Do grupo faziam parte João Frazão, que era cego, Manoel de Lima e os irmãos Romualdo, João e Luperce Miranda. No início de 1927, os Turunas, com o apoio do jornal Correio da Manhã, começam a divulgar a típica música nortista no Rio de Janeiro, com um sucesso nunca visto. Nos espetáculos, cabia a Calheiros fazer a apresentação de cada um dos companheiros, através do recitativo de quadrinhas:

Cantamos canções do mato
Nem é outra a nossa Idéia
Dizem que somos fato
Turunas da Mauricéia.

Ao se referir a si mesmo, dizia:

Eu só sigo os companheiros
Minha vida é a canção
Chamam-me Augusto Calheiros
O cantador do sertão.

As primeiras gravações dos Turunas difundiram por todo o Brasil a voz privilegiada de Calheiros, afinada, de dicção perfeita e grandes recursos. Os êxitos se sucedem, bem como as excursões, inclusive ao Sul do Brasil e Buenos Aires.

Com o fim do grupo, em 1929, Calheiros prossegue cantando solo, nas rádios, gravações e nos teatros. Depois, por alguns anos, atua na Casa de Caboclo, em cujo elenco também figuravam Jararaca e Ratinho, Dercy Gonçalves, Apolo Correa, Arthur Costa, entre outros. A Casa de Caboclo, teatro popular, fundado e dirigido por Duque (Antônio Lopes de Amorim Dinis), abriu suas cortinas, em 1932, com o objetivo de apresentar somente peças e músicas de autêntico sabor regionalista, portanto propício para a arte essencialmente brasileira de Calheiros. Em 1936, canta no filme Maria Bonita, da Sonoarte. Ao todo, em 78 rotações, deixou um legado de 80 discos com 154 músicas, o ultimo feito de 1955, mas só lançado no mês do seu falecimento, em janeiro do ano seguinte. Quando sobrevém a doença, vê-se desprovido de qualquer recurso, pois a vida boêmia o deixara pobre. É então socorrido pelo amigo Almirante, que muito o admirava. Almirante faz então circular um original Livro de Contos, com a finalidade de arrecadar o necessário ao seu tratamento. Em cada página, uma quadrinha sobre sua vida, devendo prender-se nela uma cédula de mil cruzeiros (um conto de réis), com o que se alcançou, na denominação antiga, 114 “contos”.

No ano anterior à sua morte, Calheiros, apelidado de a patativa do norte, pela sua voz afinadíssima e estilo peculiar de cantar que o tornariam um dos cantores mais originais do seu tempo, havia sido um dos destaques do 2º Festival da Velha Guarda, em São Paulo. Entre as 154 gravações que deixou, figuram Valsa da saudade, Saudades do Rio Grande, Alma tupi, Senhor da floresta, Casa desmoronada, Mané fogueteiro e a valsa Ave-Maria.