Escute o Prosa & Verso 142

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Músicas tocadas neste programa:
luiz gonzaga – são joão do carneirinho
elomar – dança da fogueira
carmen miranda e mário reis – chegou a hora da fogueira
cristóvão cerqueira – pupurri de arrasta pé
luiz gonzaga – são joão na roça
dominguinhos - quadrilha
grupo vou vivendo – doce de côco

Estamos em tempo das festas de São João. São João, fogueiras e fogos. Li um artigo intitulado São João, Festa do Sol, escrito por Ronaldo Mourão, um astrônomo brasileiro de renome, e é neste artigo que vou basear este programa de hoje.
Ao observar as variações periódicas de clima ao longo do ano, o homem primitivo procurou associá-las ao movimento aparente do Sol no céu, descobrindo, com auxílio dos seus monumentos de pedra, as direções do nascente e poente do Sol durante todo um ano. Com esses observatórios primitivos, os astrônomos da Idade da Pedra descobriram que o Sol, em quatro bem determinadas épocas do ano, nascia e se punha em quatro pontos diferentes do horizonte, que correspondiam ao início das estações, quatro grandes alterações climáticas. Com tais conhecimentos, aproveitavam-se os sacerdotes das tribos primitivas para anunciarem e preverem o ponto exato do aparecimento do Sol, no horizonte, o que lhes fornecia o poder de dominar seus discípulos ou crentes. Mais uma vez o conhecimento, o saber do cosmo, iria ser usado para favorecer os governantes. Assim, criaram-se os altares de pedras polidas e, mais tarde, as catedrais de pedra, onde os sacerdotes, que já haviam previsto a ocorrência daqueles fenômenos astronômicos, solicitavam aos crentes com antecedência a necessidade de alguns atos religiosos com os quais seria possível alterar os desígnios da natureza. Assim, foram descobertos os dias, o mais curto e o mais longo do ano. O mais curto, no inverno e o mais longo, no verão. Esses dias são chamados de solstícios. Nesta parte do mundo em que nós vivemos, que é a metade sul do planeta, o solstício de verão pode-se dizer que ocorre em 25 de dezembro, o dia mais longo do ano. E o solstício de inverno, em 24 de junho, o dia mais curto do ano. A descoberta dos solstícios há milhares de anos deu origem às festas coletivas nas quais o Sol era honrado com o fogo, a luz suprema, que o homem oferecia às divindades pagãs. Como se vê, muito tempo mesmo, antes de nascerem o cristianismo e as religiões dele derivadas.

Surgiram, desse modo, duas festas dedicadas ao fogo: a festa de verão, que tem lugar no solstício de verão, e a outra de inverno, no solstício de inverno. Em virtude da inclemência do clima do inverno, que nos países da metade norte do globo ocorre em dezembro, a festa de São João passou a ser a mais praticada. Por uma transposição essencialmente cultural, os povos do hemisfério Sul passaram a comemorar a festa do Sol, em junho, durante o dia de São João. Esta manifestação atual, dedicada a um santo da Igreja Católica, atravessou milênios sem sofrer grandes alterações, pois o culto do fogo permaneceu profundamente associado ao coração dos humanos. É a procura do Sol, ente máximo da verdadeira renovação de vida, a que assistimos diária e anualmente. Na realidade, todas essas festas, originárias da cultura celta, são antiquíssimas e estão intimamente ligadas ao conhecimento dos solstícios. Constituem um prolongamento dos rituais agrários que marcavam as estações do ano.

Não existe dúvida de que o cristianismo soube integrar-se às festas pagãs aproveitando os hábitos e tradições dos povos primitivos para lhes dar uma nova roupagem conveniente aos seus objetivos religiosos. Na realidade, os dirigentes cristãos tiveram muito mais sucesso em substituir as celebrações pagãs do solstício de inverno pela natividade de Cristo, do que com o solstício de verão. Em 24 de junho o cristianismo festeja o nascimento de São João que batizou Jesus. Existe uma lenda que sugere que São João nasceu um ano antes de Jesus, pois a mensagem de um anunciou a chegada do outro. Assim, situados no momento de dois solstícios, a celebração desses nascimentos divide o ano em duas partes iguais. Para justificar a data de 24 de junho, a Igreja usou de uma imagem solar, quando, falando de Jesus, do qual se dizia o precursor, São João Batista teria dito: “necessário que ele cresça para que eu venha a diminuir”, numa referência ao fato de os dias diminuírem após o solstício do verão.

No século passado, na Franca, era hábito, ao pôr-do-Sol do dia 23 de junho, cada habitante da cidade levar lenhas para uma enorme pirâmide de gravetos que se construía na praça principal. Ao anoitecer, o pároco de igreja mais próxima chegava em procissão e ateava fogo a pirâmide de madeira. Os chefes de família passavam pela chamas um ramo de flores que, na manhã seguinte, antes da aurora, era colocado na porta do estábulo. Só depois deste ritual, os jovens podiam dançar ao redor do fogo e em seguida saltar por cima das brasas, cujos restos eram levados para casa. No dia seguinte, ao anoitecer, levavam para o alto de uma colina um enorme cilindro de palha. Com uma longa vara, guiavam o cilindro em chamas, durante a sua descida. Quando a roda de fogo passava, as mulheres e as moças que haviam ficado em casa à espera, gritavam saudando os homens e o fogo. Nas regiões montanhosas, é hábito ainda subir, antes da aurora, no dia 24 de junho, aos pontos mais elevados das colinas, para esperar o nascer-do-Sol. Quando o astro aparece, grita-se de alegria. Nos vales vizinhos, os sinos das igrejas começam a soar, acordando toda a população. Os que estavam esperando a chegada do Sol, nas colinas, voltam para as cidades com ramos de ervas aromáticas às quais atribuem virtudes de cura aos doentes.

As tradições folclóricas das festas pagãs de São João, em 24 de junho, possuem até hoje ecos mais pagãos e místicos que todas as outras.”
Este foi o texto enxugado que escreveu Ronaldo Rogério De Freitas Mourão, pesquisador-titular do Museu de Astronomia e Ciências afins, no qual foi fundador e primeiro diretor. É também autor de mais de 70 livros, entre os quais está O Livro de Ouro do Universo.”
Se você estiver interessado em ler o artigo em sua forma original, acesse o site www.universia.com.br.

O fato é que o São João é provavelmente a festa mais popular do nordeste brasileiro, pelo menos na generalidade das cidades pequenas e dos povoados, principalmente na zona rural, mas também nas cidades maiores, a despeito da proibição geral de balões e ocasional de fogueiras. Os chamados arraiais permanecem ainda com seus enfeites e trajes típicos à moda caipira, embora seja flagrante o declínio do uso de fogos de artifício, das quadrilhas, que agora são exageradamente estilizadas e modernosas, pelo que perderam a beleza e o encanto. Além disto, as deformações da musicalidade e da poesia juninas; chamadas carna-forró e também porno-forró. Ainda bem que se salvam poucas e honrosas exceções.