Escute o Prosa & Verso 143

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Músicas tocadas neste programa:
nelson gonçalves - escultura
marcelinho da lua e seu jorge - cotidiano
choro do bebê
roberto carlos – quando as crianças saírem de férias
chico buarque – casamento pequeno burguês
agnaldo timóteo – as flores do jardim da nossa casa
paulinho nogueira – choro chorado

Uma homenagem ao meu pai, que me deixou com um vazio impossível de preencher….

Prosa & Verso 143

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Primeiro vem a fantasia, ela não é ela. Ela é o que ele imagina ou deseja que ela seja. Foi a namoradinha, a noiva, depois vieram as juras, as promessas e por fim a lua de mel. Por enquanto, quase que só fantasia. Assim como na música de Nelson Gonçalves e Adelino Moreira, Escultura.

Com o passar do tempo, se não tomar cuidado, vem a rotina e se instala. E a rotina é uma grande inimiga dos relacionamentos. Não há paixão que resista. E vem o esfriamento. Muitas vezes um dos dois, geralmente a mulher que pode ter a melhor das intenções e para fugir ao esfriamento, prepara uma armadilha, onde o marido cai como um patinho. E vem um filho sem o devido planejamento e maturidade do casal. E o desastre se estabelece, porque o filho vem como um tapa-buraco, pra tapear uma relação já esvaziada pela rotina.

Em outros casos, depois vêm naturalmente os filhos… Antunes, por exemplo, é um adolescente de 16 anos e está cursando a 1ª série do segundo grau. Como todo adolescente, rebelde à disciplina, é tido na escola como desordeiro e bagunceiro. O pai de Antunes já tem recebido várias queixas. Um dia desses, a professora Maria José, que é a diretora da escola, encontrou o pai de Antunes e Contou que na última sexta-feira toda a turma da 1ª série tinha-se envolvido em uma brincadeira de guerra, enchendo sacos plásticos e jogando uns nos outros. Acabaram molhando toda a área de recreação e parte da sala de aula. O pai de Antunes indagou se o filho estava lá e ela disse que não, que aliás tinha mudado de água para vinho, que estava no recreio mas que se tinha mantido fora da brincadeira, juntamente com apenas outros dois colegas. Disse que estava muito alegre com o novo do comportamento do rapaz. Não é preciso dizer que o pai de Antunes ficou cheio de esperança e orgulho. Quando mais tarde chegou em casa e sentou-se à mesa para almoçar e Antunes começou a relatar a guerra de sacos d’água que tinha acontecido na escola. Disse que só não tinha entrado na brincadeira porque estava com uma camisa que não queria molhar, nem tampouco molhar o cabelo, porque tinha penteado com gel fixador. Pronto. Estava explicado o comportamento de Antunes. O certo é que o pai ficou ali com a cara mexendo, porque assim são os filhos adolescentes. E os pais se perguntam: onde foi que eu errei?… Muito antes, muito antes… Ainda bebezinho… Vejam só: conta-se que u’a mulher que carregava o filho nos braços pediu a Gibran Khalil Gibran que lhe falasse sobre os filhos, e ele disse:
Vossos filhos não são vossos filhos.
São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E, embora vivam convosco, a vós não pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Pois eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar
nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois o arco dos quais vossos filhos, como setas vivas, são arremessados.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com Sua força
para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
ama também o arco, que permanece estável.

Agora, assim desabafa o poeta Vinícius de Morais, em seu
“Poema Enjoadinho”:
Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Os filhos desejados são verdadeiros alimentos para um casal. Mas não bastam filhos para garantir a solidez do casamento. A velha rotina, o ciúme possessivo, os maus tratos mútuos, a indiferença, a desconsideração, enfim todas essas ocorrências e muitas outras acabam por destruir a relação amorosa e, não raras vezes, substituí-la pelo ódio, que é o outro lado da moeda.

As crises em si são boas. Elas sempre vêm antes do amadurecimento, do crescimento. Mas só servem quando são encaradas, digeridas e assimiladas pelo casal. Não sendo assim, é quase que inevitável e até um remédio a separação. Talvez seja melhor a separação do que um casamento medíocre e odiento. Sem esquecer que toda separação vem acompanhada de dor e sofrimento.