Poesia


quando o medo de arriscar imobiliza
e deixa tudo como está,

quando o pragmatismo excessivo
sacrifica o homem pelo cumprimento da lei,

quando o preconceito discrimina,
absolutizando o relativo
(ou relativizando o absoluto),

quando a certeza de saber
coíbe arrogantemente novas perguntas,

quando a hipocrisia é tomada como moral
e o conluio como ética,

quando em nome do amor
se maltrata e se mata,

quando,  perseguindo o ter,
aniquila-se o ser…

(afinal, quem são os loucos?)

lá surgiu da noite escura,
horripilante e imundo,
com sua baba, tenebroso,
dentes à vista e urrando,
imagem espectral do mundo,
do que o mundo representa
de infame e sequioso,
faminto de ganas mil.

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um dia, julguei,

julgamento equivocado,

que o rochedo da castração

daria um termo

à minha jornada,

louca jornada,

de busca do nirvana.

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da tua companhia

eu quis privar

[do teu sorriso,

do teu olhar,

da tua fala,

da tua escuta].

eu quis privar

da tua companhia:

mas, que ilusão

filha da puta!

e tu, então,

que me fizeste?

tua atenção

tu recolheste!

tu me privaste

da alegria

[do teu sorriso,

do teu olhar,

da tua escuta].

que ironia!

conjugando o mesmo verbo,

os caminhos são diferentes;

ao encontro ou de encontro

são sentidos divergentes

na porta do nosso jardim,
plantamos um dia um jambeiro.
Isto já faz muito tempo,
faz quase uma vida inteira.
pra que plantar um jambeiro,
se os frutos que possa dar
não poderemos colher?
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eu me envergonho,
velho,
pelos 104 anos de ontem.
por ser incapaz de ir lá,
como você foi:

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[de uma poesia de Arlington]

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que saudades das batatas do egito!
das cebolas e dos bifes do egito!
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que a felicidade existe, existe!
quem não a achou, que a procure mais!
pois não a encontra quem na busca insiste
do silêncio das noites hibernais.

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eu peço a deus que me deixe aprender a seguir passo a passo a senda da vida.
e que me seja possível sentir e viver com plenitude cada passo,
cada pedaço da estrada,
cada fragmento de paisagem.

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sede assim: sereno, isento, fiel;
não como o resto dos homens…
[cecília meireles]

minha razão me trai.

a alma pede que eu fique sereno, isento, fiel.
mas a razão ordena que eu me exalte, reaja e critique.

minha alma pede que eu murche e me cale
e que deixe as coisas acontecerem, seguirem seu rumo.
mas a razão ordena que eu interfira, opine, queira mudar o curso da história,
que eu me afirme.

minha alma deseja ser humilde,
mas minha razão é muito vaidosa.

minha alma está mais pra vadinho.
minha razão está mais pra orígenes…

minh’alma é zen
a razão, guerreira

arde minh’alma por uma sutil paz,
mas sou prisioneiro da razão que me trai.

 

 

da morte, que sei dizer?
talvez seja mesmo uma boa enfermeira, a melhor.
minora todo sofrer,
não há dor que lhe escape, a todas alivia.
não há angústia que permaneça.
e quando a morte é mesmo uma obra do acaso,
mas sobretudo
quando ao acaso se associa o empenho humano,
a liberdade de escolher,
aí então é que a morte é,
a um só tempo,
enfermeira e fármaco.

26.jun.96

 

I

se é o viver u’a ventura
- e isto não sei se é -
(é bom perguntar portanto
aos mutilados, aos loucos,
mendigos e prostitutas.
perguntem aos miseráveis,
aos leprosos e aidéticos,
aos que sobrarem do cólera.
e também aos humilhados,
aos pobres, aos explorados.
perguntem ainda aos negros
sulafricanos. e a elas,
mulheres de etilistas,
às crianças violentadas,
reprimidas, maltratadas.
aos que se chamam pivetes,
que moram sob a marquise,
que catam lixo na esquina
e o disputam com ratos,
em convescotes macabros.
vamos, procurem saber
das crianças da etiópia,
dos homens do bangladesh,
das mulheres do japão
que tiveram os pés quebrados,
pra cumprirem seus destinos…
e àqueles desvalidos
que passam os dias nas filas
pra receber bagatelas
de vil aposentadoria
e que são desrespeitados
pelos maus funcionários,
 do gari ao presidente…)

se é o viver u’a ventura,
ser mãe é gesto bondoso.
é ter a felicidade
de ser extrema doçura!… Leia mais…

 

depois que se passarem
todas as horas,
os dias, os meses, os anos,

depois que se tiver passado o tempo,
o krónos e o kairòs,

perguntar-te-ei o que me resta,
o que nos resta…

e não teremos senão sonhos desvanecidos.
e não teremos senão tênues lembranças
daquilo que um dia
avidamente sorvemos,
sem saborear…
vítimas que fomos da escravidão do dinheiro,
da segurança,
da imagem a preservar!…

21/ago/87

 

Faz tempo, quando nos reuníamos à noite nas comunidades rurais lá em Feira de Santana, Serrinha, Buritinga, Ichu, nós sonhávamos com novos tempos, com nova sociedade, onde os privilégios seriam superados pela justiça, onde a exploração seria substituída pela colaboração. Leia mais…

 

quantas vezes eu ouvi,
e mesmo cri,
que o amor resolvia problemas?

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numa cruz, ensangüentado,
jesus sofre, agonizante,
entre maus, crucificado.
um dizia, praguejante:

- tu, pois, és filho de deus?
livra-nos de nossas dores
e dos sofrimentos teus!
- mas, nós somos pecadores…

replica o outro, ralhando,
pois que se arrependia.
E, para jesus olhando,
suplicante, lhe pedia:

- ó mestre meu e senhor,
peço que de mim lembreis
quando no reino de amor
gloriosamente chegueis.

logo jesus respondeu,
olhando-o com amor,
- hoje mesmo tu estarás,
no reino do teu senhor.

-1962-

queria ser
um irresponsável a cavalgar o vento
e com mil asas permitir-me ir
velejando céus afora
como um fluido, como um éter! Leia mais…

 

 Esta poesia é uma prece. É um

 alento para a alma. Há mais de

 30 anos que a tenho comigo.

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O tempo, como o vento, seca as lágrimas.
como a água, tudo dissolve.
como o fogo, reduz as coisas a cinzas.
como o sol, tudo esclarece.
 

Aclara o confuso,
descobre o recôndito,
encontra o perdido,
propicia a tolerância,
reconcilia os inimigos,
cega e confunde os ambiciosos,
abate o orgulho,
extingue as ilusões,
dá conformidade.
 

quem se joga contra ele terá malogro.
quem o aguarda torna-se poderoso.
quem o toma como aliado estabelece comércio com a sabedoria.
 

 -constance virgil-
 

nada sei na vida,
nada na vida me seduz suficientemente, senão a paz,
minha paz interior.

e me ensinaram que não é possível ser feliz sozinho. Leia mais…

 

que bela invenção, o anjo da guarda!
um guarda-costas, companheiro, aio,
servo perfeito e belo,
ou mais talvez,

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como a religião é um mal necessário,
a política é um bem pervertido.

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morro, porque os segundos passam, Leia mais…

ali, na esquina,
alguém escondido,
um dólar ao vento, acenando,
provoca a mulher maquiada,
de cabelos ruivos e peitos enormes,
vestido colado ao corpo,
meias de renda negra
e botas compridas, de salto alto.

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Gandhi me disse que
Acreditar em algo
E não vivê-lo
É desonesto.

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[de uma lenda tibetana]

arfava e arfava,
perseguido por um tigre. Leia mais…

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d’homens e terras césar imperador
ant’ontem recebeu plenos poderes.
e ontem, vitalício ditador,
se fez o dono de todos os seres.

nos idos das calendas de abril,
aliviada do negotium já,
a aristocracia se despediu
e agora tem o otium pra gozar…

alia-se então a deusa do destino,
com um sorriso irônico, fatal,
à deusa da vingança, desatino.

e hoje, pouco tempo decorrido,
concedem a brutus ardil e punhal
e, traiçoeiro, o golpe é desferido!